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29/06/2005

"Guerra dos Mundos" mostra um outro atentado, só que os terroristas não são humanos

The New York Times
A.O. Scott

Crítico do NYT
De forma discreta, de forma condizente com o desejo do departamento de publicidade da Paramount em relação ao projeto, a Terra está sob ataque de alienígenas. Sei que vocês estão pensando: O quê? De novo?

Divulgação/Paramount Pictures 
Tim Robbins, Tom Cruise e Dakota Fanning durante cena do blockbuster de Spielberg
Houve uma época --por exemplo, em 1938, quando Orson Welles apavorou os Estados Unidos com a sua transmissão pelo rádio de "Guerra dos Mundos"-- na qual o espetáculo pop-cultural da invasão vinda do espaço sideral era capaz de gerar algum alarme verdadeiro.

É claro que, como milhares de críticos no decorrer da próxima semana certamente nos lembrarão, os marcianos de Welles eram projeções simbólicas de ameaças reais. Um papel que as criaturas espaciais saqueadoras freqüentemente se dispuseram a assumir alegremente, especialmente durante a Guerra Fria.

Mas com "Marte Ataca" ("Mars Attacks!", EUA, 1996) e "Homens de Preto" ("Men in Black", EUA, 1997) --e até mesmo com "Independence Day" (EUA, 1996)-- os alienígenas e seus servos nos estúdios passaram a ficar um pouco conscientes de si e menos ambiciosos.

Os marcianos se contentaram em ser distrações temporárias dos nossos medos reais em vez de se tornarem cristalizações alegóricas desses medos.

"Guerra dos Mundos" ("War of the Worlds", EUA, 2005), a versão relativamente fiel do livro de 1898, de H.G. Wells, que também inspirou Welles, acena no sentido de reverter essa tendência. Os extraterrestres de Spielberg, que baixam furiosamente em Nova Jersey em tripés metálicos disparando raios mortíferos, são --e estou procurando o termo crítico preciso-- perversamente assustadores.

O terror que eles espalham ao incinerarem prédios e vaporizarem pessoas faz com que seja impossível não nos lembrarmos de cenas mais imediatas e dolorosas.

"São os terroristas?", grita Rachel Ferrier (Dakota Fanning), de dez anos, para o seu estressado pai, Ray (Tom Cruise), enquanto os dois fogem de Bayonne em uma minivan roubada.

Ele talvez esteja excessivamente preocupado para dar a resposta correta, que é: "Bem, de certa forma, querida. De uma forma metafórica, é isso mesmo" (a voz da narração feita por Morgan Freeman, quase que idêntica ao texto do livro de Wells, ajuda a sublinhar essa passagem).

É tentador --e não chega a ser inapropriado-- ver "Guerra dos Mundos" e o filme de Spielberg do verão passado "O Terminal" ("The Terminal", EUA, 2004), como as respostas antifonais do diretor aos ataques do 11 de setembro.

"O Terminal" é um filme tranqüilizador e utópico pós 11 de setembro, que propõe decência, solidariedade e bom humor como antídotos para o medo e a ansiedade. Já "Guerra dos Mundos" é nervosamente apocalíptico, proporcionando alívios ocasionais, mas não muito consolo.

Ele é, em outras palavras, um filme de terror. E um filme de terror que, na maior parte do tempo, insiste de forma demasiadamente pesada na sua própria especificidade. Dessa forma, ele conduz Spielberg de volta aos seus primeiros dias como criador de filmes de suspense enxutos, sadistas e efetivos.

Embora os efeitos especiais sejam elaborados e caros, "Guerra dos Mundos" possui parte da ingenuidade nua de "Tubarão" ("Jaws", EUA, 1975) e de "Encurralado" ("Duel", EUA, 1971). Assim como estes filmes, "Guerra dos Mundos" é uma história básica de predador e presa.

Ao contrário dos filmes mais recentes de Spielberg, nos quais ele utilizou as suas habilidades sem paralelo como narrador visual para criar uma tapeçaria complexa de emoções, este trabalho segue o roteiro de um único reflexo humano: lutar ou fugir.

A maioria foge. Ray é um estivador divorciado que nos fins de semana tem a custódia dos dois filhos, Rachel e o seu irmão adolescente taciturno, Robbie (Justin Chatwin).

Ray não é exatamente um candidato a pai do ano. Sobre a mesa da sua cozinha há um motor V-8. Sua geladeira tem pouca coisa além de frascos vazios de conserva. E a forma principal de se relacionar com o filho é intimidando-o.

Tão logo os alienígenas começam a vaporizar a vizinhança, a reação de Ray é menos do que exemplar, mas ele consegue manter a família junta e fugir, e assim conquista a chance da redenção que sabemos que está por vir.

Milhões de mortes e prejuízos incalculáveis parecem ser uma terapia familiar demasiadamente cara, mas é consolador saber que até mesmo uma invasão alienígena pode proporcionar uma oportunidade para aprendizado e crescimento.

De toda forma, o drama psicológico ocupa um compartimento tão estreito no script de Josh Friedman e David Koepp quanto a alegoria dos eventos reais.

Ultimamente, Cruise tem demonstrado ser bem mais interessante e imprevisível como convidado de show de TV do que como ator, mas ele continua gostando de fazer o papel de um indivíduo estúpido que é vítima de circunstâncias além do seu controle.

Fanning, a garotinha em perigo favorita de Hollywood, grita a plenos pulmões, o que é uma resposta apropriada à situação. A única outra atuação digna de nota fica por conta de Tim Robbins, como um sobrevivente possivelmente maluco que se esconde dos invasores em um estábulo abandonado.

Após alguns minutos na sua companhia, só se pode desejar que os marcianos --ou talvez os fantoches sedentos de sangue de "Team America"-- se apressem e façam o seu trabalho.

Mas a arte cênica não é realmente um fator importante nesse filme, que parece ter sido gerado, acima de tudo, pelo desejo de Spielberg de reafirmar que é, além de tudo o mais, um mestre dos filmes puros de ação.

Pensem em "Guerra dos Mundos" como uma resposta aos concorrentes --Michael Bay, Wolfgang Petersen, Roland Emmerich e outros-- e como um manual sobre como misturar imagens geradas por computador com as técnicas do cinema clássico de grande escala.

A atmosfera visual de "Guerra dos Mundos" é o trabalho de uma equipe --incluindo o cinegrafista Janusz Kaminski, a figurinista Joanna Johnston, o editor Michael Kahn e o designer de produção Rick Carter-- que trabalhou com Spielberg várias vezes, e a experiência coletiva dá ao filme uma textura ligeira e fluida.

Um outro colaborador antigo de Spielberg é John Williams, cujo trabalho é surpreendente, em parte como resultado de ser usado com parcimônia. Durante longos períodos não se ouve música alguma, o que aprofunda o realismo e o medo, e faz com que mergulhemos ainda mais naquilo que vemos.

O que é, no final das contas, realmente espetacular. Há cenas e imagens em "Guerra dos Mundos" que são especialmente desconcertantes por parecerem não ter exigido qualquer esforço.

O primeiro ataque alienígena, no qual a uma tempestade elétrica no céu se segue a emergência dos veículos-tripés do solo; a cena de uma multidão em pânico na atracação de uma barca no Rio Hudson; uma devastada subdivisão suburbana na qual um avião caiu --tudo isso faz lembrar como é que uns poucos momentos de filme podem ser tão sublimes e esteticamente completos.

"Guerra dos Mundos" talvez seja mais bem apreciado como uma antologia de tais momentos, amarrados por um conceito funcional, apesar de familiar. O filme também permite a Spielberg se dar ao luxo de praticar o pequeno pecado da autocitação.

Um alienígena aponta ponderadamente para uma roda de bicicleta, talvez pensando no seu primo benevolente ET. O sinal estridente que os veículos de ataque emitem soam um pouco como as duas primeiras notas do canto de sereia de "Contatos Imediatos de Terceiro Grau" ("Close Encounters of the Third Kind", EUA, 1977).

Uma sonda alienígena possui o pescoço longo e contorcido de um dinossauro de "Parque dos Dinossauros" ("Jurassic Park", EUA, 1993) e o globo ocular das aranhas vigilantes de "Minority Report - A Nova Lei" ("Minority Report", EUA, 2002).

Tudo isso serve como lembrete --talvez supérfluo-- de que isso é apenas um filme, e um filme menor de Spielberg. Mas "Guerra dos Mundos" também consegue nos lembrar que embora Spielberg nem sempre faça grandes filmes, ele parece ser quase que constitucionalmente incapaz de fazer filmes ruins.

Não é um trabalho que dê muito que pensar, mas certamente vale a pena assistir ao filme.

Guerra dos Mundos

Dirigido por Steven Spielberg; escrito por Josh Friedman e David Koepp, baseado no livro de H.G. Wells; diretor de fotografia, Janusz Kaminski; editado por Michael Kahn; música de John Williams; designer de produção, Rick Carter; produzido por Kathleen Kennedy, Colin Wilson e Paula Wagner; lançado pela Paramount Pictures e pela Dream Works Pictures.

Duração: 117 minutos.

Com: Tom Cruise (Ray), Dakota Fanning (Rachel), Miranda Otto (Mary Ann), Justin Chatwin (Robbie) e Tim Robbins (Harlan Ogilvy).

"Guerra dos Mundos" tem a classificação PG-13 (impróprio para menores de 13 anos) nos Estados Unidos. Grande parte da população da Terra é aniquilada, o que deixa muito pouco espaço para sexo ou palavrões. Não é um dos melhores filmes de Spielberg, mas vale a pena ir ver Danilo Fonseca

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