UOL Notícias Internacional
 

30/06/2005

A Internet: feita pelas massas e para as massas

The New York Times
John Markoff

Em San Francisco
Quando Caterina Fake chega ao final de um vôo, ela tira uma foto na esteira de bagagem com seu telefone-câmera para tranqüilizar sua mãe, que vê a foto em uma página de Internet minutos depois, mostrando que ela viajou em segurança.

E se cada foto conta uma história, isto pode ser apenas o início. No Flickr, o popular serviço de compartilhamento de fotos pela Internet onde Fake, uma co-fundadora, postou a foto, ela pode ser rotulada com coordenadas geográficas para uso em um mapa fotográfico, ou se tornar parte de um banco de dados comunitário que pode ser pesquisado por certas cores ou características.

O Flickr, adquirido neste ano pelo Yahoo, é apenas um exemplo de uma crescente série de serviços de Internet que buscam explorar o poder da Internet de unir as pessoas.

De serviços de compartilhamento de fotos --e calendários-- até sites de "cidadãos jornalistas" e imagens por satélite comentadas, a Internet está mudando de novo. Uma série notável de sistemas de software facilitam o compartilhamento de qualquer coisa instantaneamente, às vezes as melhorando no caminho.

De criação barata e alcance mundial, os novos serviços de Internet estão tendo um impacto muito além da questão do compartilhamento de arquivos da decisão de segunda-feira (27/06) da Suprema Corte, que se concentrou nas violações de direitos autorais usando software "peer-to-peer".

De fato, a abundância de conteúdo gerado pelo usuário -que inclui jogos online, vídeo desktop e sites de jornalismo do cidadão- está mudando o debate em torno do compartilhamento de arquivos.

Muitos executivos do setor de Internet acham que isto representam uma nova ameaça para Hollywood, para a indústria fonográfica e outros fornecedores de conteúdo proprietário: não a pirataria de suas obras, mas uma alternativa atraente.

Os novos serviços oferecem um processo criativo de baixo para cima que está afastando o fluxo de informação da transmissão unidirecional ou do modelo editorial, gerando uma onda de novos empreendimentos de negócios e provocando um enorme esforço de resposta por parte das empresas de mídia e tecnologia.

"O compartilhamento estará em toda parte", disse Jeff Weiner, vice-presidente sênior do Yahoo encarregado dos serviços de busca da empresa. "É o próximo capítulo da Internet."

Em sua corrida para alcançar o Google, o líder em ferramenta de busca, o Yahoo está se voltando para tal recurso compartilhado: a sabedoria de amigos e companheiros de negócios.

Na terça-feira, o Yahoo apresentou o My Web 2.0, uma nova versão da ferramenta de busca da empresa que empregará o poder coletivo de pequenos grupos de internautas para melhorar a qualidade dos resultados de busca.

O serviço, ao qual os executivos da empresa se referem como "ferramenta de busca social", é baseado em uma nova tecnologia para criar um ranking de páginas que o Yahoo batizou de MyRank.

Em vez de se apoiar em quais páginas são linkadas com mais freqüência na Internet --a chamada tecnologia PageRank da qual o Google é pioneiro-- o MyRank organiza as páginas com base em quão próximas as buscas dos usuários estão relacionadas umas às outras em sua rede social e em sua reputação de oferecer informação útil.

O My Web 2.0 permite que as páginas de Internet consideradas úteis por um membro de um grupo possa estar instantaneamente acessível a uma rede de associados de confiança, assim como para a rede de contatos deles.

O serviço, esperam os executivos do Yahoo, combaterá o crescente problema de manipulação da ferramenta de busca usando uma coleção de olhos e mentes humanas para separar o joio do trigo.

O Yahoo não é o único à procura de meios para tirar proveito do conteúdo digital criado pelas bases. Neste mês, a Microsoft disse que acrescentará uma ferramenta de assinatura de conteúdo conhecida como RSS, ou Really Simple Syndication, ao seu software, em um esforço para tirar proveito da explosão de material criado pelo usuário.

A Apple Computer começou a oferecer uma ferramenta semelhante na versão mais nova do sistema operacional do Macintosh neste ano.

"Nós estamos entrando agora na era da participação", disse Jonathan I. Schwartz, presidente e diretor operacional chefe da Sun Microsystems, na segunda-feira, em uma conferência da indústria em San Francisco.

"O que é realmente interessante na rede hoje é que os indivíduos estão começando a participar. Os pontos finais estão começando a informar o centro"

E os anúncios continuam vindo. Na terça-feira, o Google disse que disponibilizará uma versão gratuita de seu software Google Earth, que permite aos usuários ver imagens digitais de alta resolução de todo o planeta. Uma característica do serviço será a capacidade das comunidades de usuários de fazer anotações nas imagens digitais para torná-las mais úteis.

Outros exemplos incluem um mapa de Londres, criado por usuários, somado a um esquema do sistema de metrô da cidade, e um link entre o Google Maps e as listagens de imóveis e apartamentos para alugar da Craigslist, facilitando a visualização da localização dos imóveis nos bairros ou nas cidades.

"Está além do que é possível com esforço individual, mas assim que está lá, milhões de pessoas terão um impacto tremendo", disse John Hanke, gerente geral do grupo de imagens por satélite do Google. "Nós construímos esta base comum que outras pessoas podem influenciar."

Muitos desenvolvedores de Internet acham que a nova fase da Internet desviará o poder da mídia tradicional e das empresas de software ao mesmo tempo em que promoverá rapidamente uma era de "adição" computadorizada, unindo os talentos de dezenas de milhares de indivíduos.

"O cérebro gigante somos nós", disse Peter Hirshberg, um ex-executivo da Apple que recentemente se juntou à Technorati, um serviço sediado em San Francisco que indexa mais de 11 milhões de blogs.

Sua referência é o temor dos anos 60 de que os computadores despontariam como inteligências artificiais oniscientes que controlariam a sociedade. Em vez disso, ele disse, a Internet agora está possibilitando a exploração do poder intelectual coletivo dos usuários da Internet de forma mais eficiente e instantânea.

Apesar dos estúdios de Hollywood geralmente esnobarem a concorrência de amadores, o exemplo mais notável de conteúdo gerado pelo usuário pode vir do Spore, um game online que está sendo desenvolvido por Will Wright, o desenvolvedor da série de videogames Sims.

O Spore, que será lançado no próximo ano, incorporará uma série de ferramentas online que permitirão aos usuários "desenvolver" uma civilização. Em vez de um imenso jogo de múltiplos jogadores, a atual modelo de role playing games online, ele será um jogo "imenso para um único jogador".

Apesar de todos estarem conectados pela Internet, os jogadores não interagirão uns com os outros, mas sim com civilizações desenvolvidas por outros jogadores. O valor de entretenimento será explorar as civilizações criadas por outros jogadores e interagir com os personagens controlados por um programa de inteligência artificial.

O Spore visa apelar aos jogadores mais jovens que não se interessam em ser entretidos passivamente. "Nós temos toda uma geração de crianças que se sentem autorizadas a ser projetistas de jogos", disse Wright.

Mas tais projetos colaborativos abertos podem cair vítima de comportamento anti-social. Na semana passada, por exemplo, postagens obscenas levaram o "Los Angeles Times" a restringir uma experiência de conteúdo editorial coletivo usando o sistema de software chamado Wiki, um programa de servidor de Internet que permite aos usuários colaborarem na criação de páginas de Internet.

Mas os projetistas do Yahoo My Web acham que encontraram uma forma de contornar tal risco com um sistema no qual os indivíduos convidam seus amigos e colegas de trabalho a se juntarem a eles -uma abordagem que criará comunidades de busca sobrepostas baseadas na confiança mútua.

O programa Yahoo My Web possibilita aos usuários categorizarem ou "rotularem" as páginas de Internet que encontram, assim como anotá-las. A rotulação possibilita que grupos de usuários de computador atuando de forma independente possam criar sistemas improvisados de classificação.

O sistema My Yahoo possibilita o uso de rótulos para encontrar categorias de informação assim como especialistas em assuntos específicos.

O sistema tem uma característica que possibilita ver se um associado que encontrou e salvou um documento está online e disponível para ser contatado pelo sistema de mensagens instantâneas do Yahoo.

O Yahoo está organizando as coleções de rótulos em um servidor central, e elas criaram o está sendo chamado e "folksonomy" (galeronomia/pessoanomia), para distinguir o sistema de classificação da taxonomia tradicional.

Sistemas de rotulação semelhantes estão sendo usados pelos serviços de Internet como o Flickr, o serviço de compartilhamento de fotos comprado pelo Yahoo; Technorati, a ferramenta de busca de blogs de Internet; e o del.icio.us, um serviço que categoriza páginas de Internet. Mas o Yahoo é a primeira grande empresa a adotar a abordagem de explorar o conhecimento coletivo.

O fundador da Technorati, David L. Sifry, disse que a empresa já registrou 18 milhões de postagens rotuladas e mais de 1,4 milhão de nomes singulares de rótulos desde janeiro. Ele disse que um novo conjunto de padrões expandirá a rotulação para áreas como críticas, eventos e perfis de indivíduos.

O desenvolvimento do sistema de rótulos exemplifica o fervilhar da criatividade na Internet. "Há muita inovação vindo das margens", disse Tim O'Reilly, executivo chefe da O'Reilly Media, uma editora com sede em Sebastopol, Califórnia.

O'Reilly, um pioneiro da Internet comercial nos anos 90, disse pensar que novos modelos de negócios despontarão em breve para acompanhar as tecnologias.

"Certos tipos de conteúdo proprietário estão sendo substituídos por conteúdo que pode ser compartilhado livremente", disse ele. "Mas isto também leva a uma situação mais complexa. Novas formas de conteúdo monetizador estão surgindo."

E o Google, notadamente, mostrou o potencial comercial de software que explora material online.

Mas para Fake do Flickr, o modelo de negócios ainda é secundário. "Nós estamos criando uma cultura de generosidade", disse ela. Web multiplica as possibilidades de comunicação entre os usuários George El Khouri Andolfato

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