UOL Notícias Internacional
 

30/06/2005

Mais brasileiros penetram nos EUA pelo México

The New York Times
LARRY ROHTER

Em Braúnas (MG)
Por anos, Jaider de Andrade, um trabalhador rural de 35 anos, falou sobre ir para os Estados Unidos à procura de trabalho. No início de março, ele finalmente aceitou a oferta de um traficante para mandá-lo de avião para o México e guiá-lo através da fronteira até lá. Mas no final do mês ele estava de volta em casa, em um caixão.

Lalo de Almeida/The New York Times 
Nilce Aparecida Moreira da Silva mostra foto em que está com o marido, Jaider, que morreu em março tentando atravessar a fronteira entre o México e os Estados Unidos
"O sonho dele sempre foi que tivéssemos nossa própria casinha, mas ele nunca conseguiu ganhar o suficiente aqui para progredir", disse sua viúva, Nilce Aparecida Moreira da Silva, na casa do casal. "Ele sabia que havia um risco, mas ele não estava nervoso, porque ele viu tantas outras pessoas daqui irem e se darem bem nos Estados Unidos."

Encorajados por grupos altamente organizados de contrabandistas que oferecem pacotes relativamente baratos, os brasileiros recentemente passaram a emigrar em números recordes para os Estados Unidos.

Com a entrada direta nos Estados Unidos mais difícil do que no passado, com freqüência a rota escolhida é pelo México, que nos últimos anos deixou de exigir visto de entrada de brasileiros.

Durante dois dias no final de abril, os agentes da Patrulha de Fronteira no sul do Texas detiveram 232 brasileiros que tinham entrado ilegalmente nos Estados Unidos.

Ao todo, mais de 12 mil brasileiros foram detidos tentando cruzar a fronteira entre México e Estados Unidos neste ano, ultrapassando o número total de detidos em 2004 e colocando o Brasil no topo da categoria conhecida como "outros além dos mexicanos".

O México, enfrentando crescentes queixas de Washington, agora está pensando em restaurar as formalidades de visto para os brasileiros. Isto, por sua vez, tem provocado uma febre entre emigrantes potenciais aqui na vasta região sul-central do Brasil para obtenção de passaporte e viagem para o México antes que a porta comece a se fechar.

No escritório da Polícia Federal em Governador Valadares, a principal cidade nesta fértil região escarpada, a fila de pessoas em busca de passaporte diariamente contorna um quarteirão.

O delegado da Polícia Federal para a região, Rui Antonio da Silva, estimou que 90% pretende entrar nos Estados Unidos via México. "Nós acreditamos que apenas nesta região há cerca de 30 gangues que oferecem este serviço para as pessoas", disse ele. "É um negócio muito lucrativo, e muitas pessoas estão envolvidas."

Da Silva disse que no ano passado seu escritório emitiu uma média de 45 passaportes por dia. Desde janeiro o número saltou para uma média diária de 140. Poucos minutos depois, uma assistente entrou em seu escritório. "Os números não param de crescer", disse ela. "Nós atingimos um novo recorde hoje, mais de 200 passaportes."

As autoridades americanas disseram que muitas gangues de tráfico usam as agências de viagem como fachadas. Governador Valadares, uma cidade agradável de 250 mil habitantes no amplo Estado de Minas Gerais, que é fonte da maioria dos brasileiros detidos na fronteira mexicana, agora conta com mais de 100 destas empresas, em comparação a 40 há dois anos.

Pessoas daqui que foram abordadas pelas gangues de tráfico disseram que o preço para transporte de porta a porta até Boston, o destino preferido dos imigrantes brasileiros ilegais, agora é de US$ 10.500. Isto equivale a mais de dois anos de renda um brasileiro comum, mas 30% a menos do que no ano passado, por causa da desvalorização do dólar americano.

As autoridades brasileiras e moradores desta região disseram que diferente das situações de contrabando em muitos lugares, os emigrantes não pagam adiantado e não pagam tudo se não conseguirem entrar nos Estados Unidos, o que reduz enormemente o risco financeiro para os emigrantes potenciais.

A viúva de Andrade disse que seu marido ofereceu um pequeno pedaço de terra de sua propriedade como garantia. Após sua morte, em um acidente de automóvel no norte do México, o contrabandista devolveu o terreno.

Golpe no orgulho do país

O fluxo crescente de pessoas tem surpreendido os brasileiros e é um golpe para sua imagem própria. Esta nação de 180 milhões de habitantes sempre atraiu milhões de imigrantes da Europa e da Ásia e se orgulha de sua mobilidade social.

"Olhe quem é nosso presidente", disse Teresa Sales, autora de "Brasileiros Longe de Casa" e professora de sociologia da Universidade de Campinas, referindo-se a Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-metalúrgico. "No passado, mesmo quando as coisas iam mal, ninguém pensaria em deixar o país, devido à expectativa de ascensão social."

E não apenas isto, mas a economia do Brasil está se saindo bem recentemente. Além disso, muitos dos que estão partindo não são camponeses pobres, mas jovens com mais instrução do que a população em geral, incluindo arquitetos, engenheiros e outros profissionais.

"O que temos que aceitar é que este afluxo tem a ver com falta de oportunidade, não com pobreza ou desemprego", disse Ana Cristina Braga Martes, uma especialista em questões de imigração da Fundação Getúlio Vargas, um importante instituto de pesquisa.

"É principalmente a classe média baixa de Estados prósperos, e não pobres, que estão partindo, porque não podem ganhar um salário justo aqui e compraram a idéia do sonho americano."

Um sinal claro de que "fazer a América" entrou na imaginação popular é que desde março, a maior rede de televisão do Brasil passou a exibir uma novela chamada "América", que segue os esforços de uma jovem para entrar nos Estados Unidos e se ajustar à vida na Flórida.

Em um esforço para desencorajar o fluxo, padres brasileiros em Massachusetts publicaram recentemente uma carta na Internet alertando os imigrantes ilegais dos riscos que podem enfrentar no caminho para os Estados Unidos.

"Quando não morrem, os emigrantes ficam sujeitos à violência ou estupro, e experimentam situações humilhantes como dormir em cemitérios, caminhar quilômetros e quilômetros pelo deserto ou beber água de esgotos", alertou o documento.

Desde os anos 60, Governador Valadares já enviou um grande número de imigrantes para Boston e cidades próximas, mas tal fluxo tem crescido. O prefeito José Bonifácio Mourão estima que 40 mil pessoas de sua cidade emigraram para os Estados Unidos. "Quase toda família, incluindo a minha, tem parentes nos Estados Unidos", disse ele.

Mas as autoridades americanas têm relatado aumentos na imigração ilegal de todos os Estados mais prósperos do sul do Brasil. "É como se tivéssemos infectado outras regiões com o vírus migratório", disse Weber Soares, um especialista em pesquisa de questões de imigração da Universidade Vale do Rio Doce, em Governador Valadares.

O governo brasileiro estima que entre 1,5 milhão e 3 milhões de brasileiros estão vivendo no exterior, a maioria nos Estados Unidos ou no Japão. No ano passado, segundo uma estimativa do Congresso, os emigrantes enviaram cerca de US$ 6 bilhões em remessas de dinheiro para o Brasil, ou cerca do mesmo valor obtido pelo principal produto de exportação do país, a soja.

Até poucos anos atrás, a maioria dos brasileiros que viviam ilegalmente nos Estados Unidos ia como turista e simplesmente permanecia além do prazos do visto. Mas isto mudou quando os Estados Unidos ficaram mais rígidos em suas exigências para visto após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, e o México mudou sua política de visto.

"Nós começamos porque foi algo que a comunidade empresarial pediu e para impedir a máfia de falsificação de vistos em torno de nossos consulados", disse a embaixadora mexicana no Brasil, Cecilia Soto, em uma entrevista por telefone de Brasília.

"Mas se tornou um problema nestes últimos dois anos, e temos visto que as máfias de tráfico humano em ambos os países estão claramente trabalhando juntas."

Ela disse que o México planeja enviar uma delegação oficial em breve para discutir os problemas de imigração.

Muitos aqui argumentam que qualquer esforço para reprimir os esquemas de tráfico estão fadados ao fracasso. As gangues de contrabando não serão eliminadas, prossegue o argumento, mas apenas os empurrará ainda mais para a clandestinidade.

"Nada indica que este fluxo diminuirá, apesar dos esforços para assustar as pessoas a não irem", disse Mourão. "Os incentivos para ir para os Estados Unidos ainda são altos. A tendência permanecerá de aumento do fluxo." Novela "América" ajuda a emigração a entrar no imaginário popular George El Khouri Andolfato

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