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01/07/2005

Republicanos apostam em candidatos negros

The New York Times
James Dao

Em Clarion, Pensilvânia
Lynn Swann, o famoso jogador de futebol americano do Pittsburgh Steelers, discursou para uma multidão quase que inteiramente composta por republicanos brancos no Holiday Inn daqui e atacou o governador democrata da Pensilvânia, Edward G. Rendell, por não ter conseguido reduzir os impostos sobre propriedade. Depois, sem pestanejar, Swann subitamente mudou de assunto, passando a falar de raça --da sua própria.

"Não estou aqui para ser garoto propaganda do Partido Republicano, para dizer que eles não estão sendo excludentes ao concorrerem com um negro", disse Swann, 54. "Não é por isso que estou aqui. Estou aqui para vencer".

Mesmo assim, para muitos republicanos proeminentes, Swann, comentarista da ABC Sports, é muito mais um potencial candidato para a eleição de 2006 ao governo da Pensilvânia. Swann é --assim esperam eles-- parte de uma nova safra de candidatos negros proeminentes que poderiam ajudar os republicanos a quebrar a hegemonia democrata entre os eleitores negros em vários Estados importantes.

Em Ohio, Michigan, Maryland e Pensilvânia, os republicanos negros --todos eles cuidadosamente preparados pelo partido nacional-- devem concorrer a governador ou ao Senado Federal no ano que vem. Vários outros republicanos negros deverão concorrer a cargos estaduais em Vermont, Texas, Missouri e Ohio em 2006.

Não está claro se organizações republicanas locais apoiarão todos esses candidatos, e vários deles enfrentarão eleições primárias. Mas os líderes republicanos nacionais têm exibido entusiasticamente as suas campanhas, afirmando que, quer esses candidatos vençam ou percam, o partido ainda pode ganhar caso os negros acreditem que os republicanos estão cortejando seriamente os seus votos.

"Vocês têm um Partido Democrata, que eu creio que demonstrou repetidamente que assume que ganhará os votos afro-americanos, mas que não trabalha para conquistar esses votos", afirmou Ken Mehlman, presidente do Comitê Nacional Republicano.

"Os democratas vêem o voto negro como certo. E creio que os membros da comunidade negra enxergam isso. Existe nisso tudo uma oportunidade real para o Partido Republicano".

Mehlman tem viajado pelo país, arrecadando dinheiro para os candidatos negros, falando em universidades historicamente negras e promovendo programas baseados em religião em igrejas de negros.

Ele criou uma comissão de assessoria que inclui praticamente todos os candidatos negros do Estado. E recrutou negros para fazerem campanha para o presidente Bush no ano passado, incluindo Swann, que era vice-diretor da organização African-Americans for Bush National Steering Committee.

As atividades republicanas estão chamando a atenção dos democratas. "Este é um momento bastante desafiador para os democratas", disse Donna Brazile, diretora do Instituto de Direitos de Voto do partido, e uma das principais estrategistas democratas quanto aos votos do eleitorado negro.

Os republicanos ainda têm pela frente uma batalha acirrada para conseguirem os votos dos eleitores negros. As pesquisas de boca de urna revelam que Bush conquistou 11% dos votos negros em 2004.

E embora isso signifique que o apoio dos negros ao presidente aumentou três pontos percentuais em relação a 2000, tal desempenho não foi melhor do que a média dos candidatos presidenciais republicanos desde 1964, que foi de 11,7% (Bush se saiu melhor do que essa média entre os eleitores negros em vários Estados indecisos no ano passado, incluindo Ohio, Flórida e Michigan).

Embora os republicanos assegurem que o seu foco na propriedade privada, conservadorismo social e cupons escolares sejam fatores que apelem ao eleitorado negro, as pesquisas sugerem que essas questões não são suficientes para superar desconfianças históricas com relação ao partido.

Mesmo assim, Brazile, que administrou a campanha presidencial de Al Gore em 2000, disse que, ao contrário de 1998, quando os republicanos concorreram com grandes números de candidatos negros, mas pouco fizeram para ajudá-los, os membros do partido estão agora recrutando e treinando candidatos mais fortes, ajudando-os a arrecadar dinheiro e a criar vínculos com as instituições negras, especialmente as igrejas.

Os candidatos republicanos do Estado não são campeões quando se trata de questões tradicionais de direitos civis, um fator que poderia prejudicá-los junto ao eleitorado negro, disse Brazile. E os esforços republicanos para erradicar a fraude eleitoral são vistos como racialmente discriminatórios por vários negros, disse ela.

Mas Brazile disse ainda que vários negros republicanos poderiam ser oponentes formidáveis, porque poderiam atrair não só alguns eleitores negros, mas também a base conservadora branca do partido.

Em Michigan, por exemplo, Keith A. Butler, ex-integrante do Conselho Municipal de Detroit, e que está concorrendo ao Senado Federal, é o fundador de uma igreja de 21 mil membros e conta com o apoio de vários conservadores.

Similarmente, o secretário de Estado de Ohio, J. Kenneth Blackwell, que está concorrendo ao governo estadual, é o candidato mais conservador no campo republicano e conta com o apoio de vários dos mais influentes conservadores cristãos do Estado.

"De repente, temos pessoas capazes de fazer com que o Partido Republicano seja competitivo em uma comunidade que tem sido uma base democrata", disse Blackwell em uma entrevista.

Alguns analistas e líderes democratas minimizam a ameaça. "Os afro-americanos não acreditam necessariamente que o Partido Republicano leve os seus interesses a sério", diz David A. Bositis, analista político do Centro Conjunto de Estudos Políticos e Econômicos, em Washington, um grupo que estuda as questões políticas negras. "Eles acham que o Partido Republicano continua sendo um partido sulista branco, mais do que tudo".

Mas Julian Bond, diretor da Associação Nacional para o Avanço de Pessoas de Cor, e que criticou fortemente Bush, recebeu bem a iniciativa republicana.

"Estamos felizes porque o Partido Democrata pode ter que lutar um pouco mais por votos que eles tinham como certos nos últimos anos", disse ele em uma entrevista.

Estrategistas republicanos afirmam que o partido não precisa conquistar uma grande parcela dos votos negros para obter sucesso. O aumento do apoio do eleitorado negro para 15% ou 20% poderia ser algo de devastador para o Partido Democrata em Estados onde predominam indecisos como Ohio, Pensilvânia e Michigan, afirmam.

Embora muitos dos candidatos negros enfrentem as primárias, vários deles também terão forte chance de vencer essas disputas. Swann, por exemplo, se opõe ao aborto, enquanto que o seu principal oponente nas primárias, o ex-vice-governador Bill Scranton, apoiou o direito ao aborto, uma posição que pode prejudicá-lo entre os eleitores nas primárias republicanas.

Em Maryland, o vice-governador Michael S. Steele, que está pensando em concorrer ao Senado Federal, provavelmente se tornará o candidato de consenso para o aparato republicano estadual --liderado pelo seu aliado próximo, o governador Robert L. Ehrlich Jr.-- caso ele concorra.

Blackwell, por outro lado, representa um problema potencial para a estratégia republicana. Embora ele seja um aliado próximo dos conservadores, entrou repetidamente em conflito com a liderança centrista do partido no Estado, incluindo o governador Bob Taft.

Por esse motivo, alguns republicanos dizem que os líderes do partido poderiam tentar retirá-lo da corrida em favor de um dos seus oponentes mais moderados nas primárias, seja o procurador-geral Jim Petro, seja a auditora estadual Betty D. Montgomery.

Aqui na Pensilvânia, Swann ainda precisa declarar a sua candidatura formalmente e não explicou as suas posições quanto a várias questões, mas se reuniu com dezenas de líderes republicanos de todo o Estado, contratou uma equipe de campanha e começou a arrecadar dinheiro.

Em dois eventos com grupos republicanos no oeste da Pensilvânia nesta semana, Swann deu a impressão de ser candidato, atacando Rendell como sendo um líder fraco e prometendo fazer uma campanha altamente competitiva.

"Precisamos tirá-lo do cargo", disse ele, referindo-se a Rendell. Ele também deu algumas dicas sobre como concorreria, afirmando que levaria a luta até a base de Rendell no sudeste da Pensilvânia, incluindo os redutos preponderantemente negros e fortemente democratas de Filadélfia.

"Creio que posso ir para Filadélfia, e posso fazer com que os republicanos votem nos republicanos, busquem o eleitor independente e, a seguir, os democratas que estão meio em cima do muro", afirmou.

Embora seja muito cedo para afirmar se Swann é capaz de fazer progressos entre os eleitores negros, ele está claramente obtendo apoio entre os republicanos brancos. Após a reunião com Swann, Gregory Mortimer, diretor do Comitê Republicano do Condado de Clarion, disse que já o apoiou.

"Ele é exatamente aquilo de que precisamos", disse Mortimer. "Alguém novo e empolgado, capaz de derrotar quem está no cargo".

À medida que tenta cortejar esses republicanos brancos, Swann se equilibra sobre uma corda bamba, mencionando a sua raça, mas não se concentrando nela.

"Não se trata de liberdade real, a menos que se conte com opção", afirmou, referindo-se ao domínio democrata do voto negro. "Mas não estou tentando concorrer apenas porque sou afro-americano. Estou concorrendo para vencer". O objetivo é avançar em redutos democratas nas eleições de 2006 Danilo Fonseca

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