UOL Notícias Internacional
 

06/07/2005

Diplomatas muçulmanos emboscados em Bagdá

The New York Times
Edward Wong*

Em Bagdá, Iraque
Atiradores emboscaram os diplomatas do Paquistão e de Bahrein em ataques separados, enquanto percorriam de carro a capital do Iraque nesta terça-feira (5/7), levando o Paquistão a anunciar a retirada de seu embaixador do Iraque.

Enquanto os rebeldes tentavam minar o novo governo atacando os emissários muçulmanos, os políticos iraquianos fizeram algum progresso na redação da nova Constituição, em uma tentativa de dar legitimidade política ao Iraque. Em uma reunião, políticos xiitas e curdos aceitaram 15 árabes sunitas que foram nomeados para aumentar a representação sunita no comitê constitucional.

Nos ataques de terça-feira, o diplomata de Bahrein, Hassan Malallah Al Ansari, foi atingido na mão direita por uma bala e levado a um hospital, enquanto o embaixador paquistanês, Muhammad Yunis Khan, escapou ileso, apesar de um carro de seu comboio ter sido crivado de balas.

As emboscadas ocorreram três dias depois de um alto diplomata egípcio daqui ter sido seqüestrado enquanto dirigia sozinho pelo oeste de Bagdá.

Os rebeldes parecem ter começado uma campanha organizada para expulsar os diplomatas muçulmanos do Iraque no momento em que os governos iraquiano e americano estão pressionando os países árabes para enviarem embaixadores para cá e ampliar seus laços diplomáticos.

O grupo militante liderado por Abu Musab Al Zarqawi, o terrorista jordaniano, disse em uma mensagem postada na Internet na noite de terça-feira que seqüestrou o diplomata egípcio, Ihab Al Sharif.

A mensagem disse que Sharif foi seqüestrado "pelas mãos de nossos mujahedeen, e ele está sob controle dos mujahedeen". O grupo não fez nenhuma exigência imediata.

Pelo menos 10 iraquianos e um soldado americano morreram em outros ataques guerrilheiros na terça-feira. A reunião do comitê constitucional encerrou um breve impasse surgido após alguns membros do comitê terem tentado desqualificar alguns dos sunitas, por terem sido altos membros do Partido Baath.

Em teoria, os árabes sunitas agora terão uma maior participação na redação da Constituição, apesar de não estar claro quão representativos estes políticos são dos demais sunitas e se serão capazes de trabalhar tranqüilamente com o restante do comitê.

A Casa Branca pediu ao comitê de 55 membros, que antes de terça-feira contava com apenas dois árabes sunitas, que fosse mais inclusivo, na esperança de envolver politicamente a insurreição liderada pelos sunitas.

A transferência do embaixador do Paquistão de Bagdá para Amã, Jordânia, após o ataque de terça-feira, foi um golpe para os esforços do governo Bush de obter mais apoio internacional para o empreendimento americano e iraquiano.

O Paquistão tem sido o aliado mais crucial do presidente Bush na guerra no Afeganistão, e a presença de seu embaixador aqui representava uma amostra importante de apoio ao Iraque por parte de um importante país muçulmano.

"Nós estamos observando atentamente a deterioração da situação da segurança no Iraque, e o embaixador Khan foi transferido para a Jordânia", disse um funcionário do Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, Muhammad Naeem Khan, em uma entrevista por telefone de Islamabad. "É uma medida temporária, apenas para assegurar a segurança de nosso embaixador. Ela será revista assim que a situação melhorar."

Ele acrescentou que a Embaixada do Paquistão permanecerá aberta em Bagdá. Khan foi apontado para o posto há três meses.

Apesar do Paquistão ter laços diplomáticos plenos com o Iraque, os países árabes predominantemente sunitas ainda precisam atingir tal status.

No final de junho, o Egito e a Jordânia disseram que planejavam fortalecer os laços, após a secretária de Estado, Condoleezza Rice, ter pedido publicamente por tal medida por parte dos vizinhos do Iraque. Sharif, o diplomata egípcio seqüestrado, deveria ser o primeiro embaixador pleno apontado para o Iraque por um país árabe sunita.

Fogo cruzado

Os ataques contra diplomatas tiveram início às 8h45 da manhã, quando Ansari, o principal emissário de Bahrein, estava dirigindo para o trabalho pelo bairro de Mansour, disse um funcionário do Ministério do Interior.

Atiradores abriram fogo contra o carro e então fugiram do local. Ansari foi levado ao Hospital Yarmouk, e imagens de televisão o mostraram em uma maca com sangue escorrendo de seu braço direito.

Um comboio que levava Khan, o embaixador paquistanês, foi emboscado às 14h30 no mesmo bairro, disseram autoridades iraquianas e paquistanesas. Atiradores em dois sedãs dispararam contra o comboio. Os guarda-costas de Khan responderam fogo e os atiradores fugiram.

Trabalhadores e motoristas de caminhão paquistaneses têm sido atacados ao longo de toda a guerra. O funcionário do Ministério das Relações Exteriores em Islamabad, Muhammad Naeem Khan, disse que um funcionário da Embaixada paquistanesa que foi seqüestrado vários meses atrás foi libertado apenas após "esforços febris".

Agora, os rebeldes "perceberam que o Iraque está consolidando sua posição com outras nações", disse Laith Kubba, um porta-voz do governo iraquiano, em uma coletiva de imprensa na terça-feira. "Eles estão tentando intimidar outras missões diplomáticas no Iraque."

No que pareceu ser um incidente não relacionado, um alto oficial de segurança do governo Saddam Hussein, Assad Abdel Hadi Haidar, foi encontrado morto em um apartamento no Cairo, na terça-feira, informou a agência de notícias "The Associated Press".

Haidar estava atado a uma cadeira e sua boca e nariz estavam cobertos com fita adesiva. Os egípcios prenderam cinco homens, incluindo o corretor imobiliário de Haidar.

Na capital iraquiana, atiradores abriram fogo conta uma van que transportava funcionários para o Aeroporto Internacional de Bagdá, matando quatro mulheres e ferindo pelo menos outros três trabalhadores, disse o Ministério do Interior.

Dois soldados iraquianos morreram e sete ficaram feridos em um atentado a bomba e tiroteio em Abi Ghraib, enquanto um ataque com morteiro em Samarra, contra um comboio americano, matou uma menina de 13 anos e feriu quatro outros, informou a "Associated Press".

Em outro ataque com morteiro, duas irmãs foram mortas ao norte de Ramadi. Um carro-bomba suicida explodiu em uma cidade a oeste de Kirkuk, matando um soldado iraquiano e ferindo outro.

As forças armadas americanas disseram que um soldado foi morto e dois ficaram feridos com a explosão de uma bomba de estrada em Diyala, uma província no sul.

Pela manhã, o chefe do comitê constitucional, Humam Hamoudi, anunciou que o comitê tinha aceito as 15 pessoas oferecidas pelos grupos árabes sunitas para ajudar a elaborar a Constituição.

Hamoudi, uma proeminente autoridade xiita, disse que o comitê decidiu que não importava no momento se os sunitas tinham retrospectos políticos questionáveis. Era mais importante assegurar a presença de uma voz sunita na redação da Constituição, ele acrescentou.

"Se estivéssemos falando de ministros, nomes poderiam ser mais importantes", disse Hamoudi em uma coletiva de imprensa em um centro de convenções fortificado. "Mas como se trata de um comitê, os pontos de vista são mais importantes do que os nomes."

O comitê concordou com os líderes sunitas no mês passado que a Constituição só será elaborada por consenso. Mas Hamoudi disse na terça-feira que consenso não significa aprovação unânime. Enquanto a "postura geral" do comitê indicar aprovação, então a Constituição prosseguirá, disse Hamoudi.

Ele acrescentou que o comitê terá um esboço concluído até o final de julho. O comitê constitucional realizou uma reunião de uma hora com 12 dos 15 novos membros sunitas na tarde. O clima era positivo e houve pouca conversa sobre as ligações baathistas, disseram três dos sunitas que participaram.

"Eles convidaram todos os membros sunitas; eles não rejeitaram nenhum nome", disse Saleh M. Al Mutlak, um membro do Conselho do Diálogo Nacional, um grupo político sunita.

Os membros sunitas receberam cópias das seções da Constituição que já foram redigidas pelo comitê. Apesar de subcomitês terem concluído grande parte de alguns capítulos, os sunitas disseram que não houve tentativa de apressar partes que lidavam com questões polêmicas como o federalismo ou o papel do Islã na lei iraquiana.

Nenhum dos sunitas contatados disse ter tido tempo para absorver o material até a noite de terça-feira. "Eles nos deram o que escreveram, mas não houve tempo suficiente para lê-lo", disse Mahmoud A Mashhadani. "Eu estou na primeira página."

*Salman Masood contribuiu com reportagem de Islamabad, James Glanz e Thaier Al Daami de Bagdá. Ação dificulta a instalação de embaixadas que trariam legitimidade George El Khouri Andolfato

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