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07/07/2005

Escândalo na Volkswagen poderá ter repercussão política da Alemanha

The New York Times
Mark Lander

Em Frankfurt
A Volkswagen está mergulhada em um rumoroso escândalo de suborno e corrupção que ameaça um dos mais importantes executivos da Alemanha e poderá prejudicar o chanceler Gerhard Schröder, que trava uma dura batalha para se manter no cargo.

Promotores alemães estão investigando denúncias de que dois ex-executivos da Volkswagen desviaram uma quantia não revelada de verbas da companhia para uma rede de empresas fantasmas. Além disso, a fabricante de carros enfrenta acusações de que seus diretores subornaram representantes dos funcionários para apoiar suas políticas.

Os dois executivos trabalharam para o chefe de pessoal da Volkswagen, Peter Hartz, um executivo respeitado que trafega pelos mundos da política e dos negócios na Alemanha. Hartz enfrentou um questionamento crescente esta semana sobre se participou ou tinha conhecimento dos desvios em seu departamento.

O escândalo tem conseqüências potenciais de longo alcance, porque Hartz é um confidente de Schröder e tornou-se conhecido no país como arquiteto do polêmico plano do governo para reformar o mercado de trabalho alemão. Hartz negou os desvios, mas há crescentes especulações de que ele será forçado a demitir-se da companhia.

Além das pessoas ou das somas envolvidas, os analistas dizem que o escândalo expôs profundas falhas na administração da Volkswagen. A fabricante de carros, um dos maiores empregadores da Alemanha, dá aos sindicatos e outros representantes de trabalhadores um papel influente na direção da companhia.

Este alto grau de divisão de poder --incomum mesmo pelos padrões alemães-- abre possibilidade para diversos abusos, segundo alguns analistas políticos e setoriais. E também prejudica a Volkswagen na concorrência com outros fabricantes que têm diretrizes mais comerciais.

"É uma situação que nunca vi na indústria alemã", disse Ferdinand Dudenhoeffer, diretor do Centro de Pesquisa Automotiva em Gelsenkirchen. "Esse escândalo mostra o grande perigo de se organizar dessa maneira. Eles precisam de uma reforma fundamental."

Inevitavelmente, o "caso VW" tornou-se o assunto do dia no acalorado debate político na Alemanha. Os conservadores, que esperam tirar Schröder e seu Partido Social-Democrata do poder neste outono, aproveitaram o caso como um exemplo da perigosa desatualização das políticas industriais na Alemanha.

Schröder, que está atrás dos conservadores nas pesquisas, tem antigas ligações com a Volkswagen. Ele já foi membro do conselho supervisor da empresa --posição que veio com seu antigo cargo de primeiro-ministro do Estado da Baixa Saxônia, que detém 18% das ações da Volkswagen.

A Baixa Saxônia agora está sob o controle do Partido Democrata Cristão, de oposição, que exigiu uma investigação dos desvios na Volkswagen e da conduta de Hartz.

Viagens ao Brasil

"Não pode haver complacência para Peter Hartz ou para outras pessoas", disse o primeiro-ministro da Baixa Saxônia, Christian Wulff, que ocupa o antigo cargo de Schröder no conselho da Volkswagen.

Na semana passada, a companhia apresentou evidências relacionadas aos dois ex-executivos ao promotor estadual de Braunschweig, perto de sua sede em Wolfsburg. O principal executivo da VW, Bernd Pischetsrieder, contratou a firma de auditoria americana KPMG para realizar uma investigação na companhia.

"Ele os chamou e disse: 'Examinem tudo'", explicou o porta-voz da Volkswagen, Dirk Grosse-Leege. "Eles têm autorização para analisar as contas de viagens, recibos e tudo o mais."

A Volkswagen também adiou uma decisão de construir uma fábrica na Índia devido a relatos de que um dos dois executivos, que trabalhou em sua unidade Skoda, solicitou propina de fornecedores em troca de contratos.

Na semana passada o diretor do poderoso conselho de trabalhadores, Klaus Volkert, se demitiu repentinamente, em meio a relatos de que tinha ligações com uma empresa de Praga que foi montada para obter contratos da Skoda. Ele negou qualquer ato criminoso.

Talvez a alegação mais perturbadora, relatada esta semana pelo jornal "Sueddeutsche Zeitung", é que o conselho diretor da Volkswagen --um comitê de sete membros que dirige a companhia-- pagou "viagens de prazer" ao Brasil e outros países, que incluíram visitas a prostitutas, para líderes do conselho de trabalhadores.

Essas benesses duraram vários anos, segundo o jornal, e seu objetivo era conquistar o apoio dos representantes dos empregados para decisões corporativas difíceis. No último outono, a Volkswagen fechou um acordo com seu sindicato, o IG Metall, obtendo um congelamento de salários por 28 meses em troca da garantia no emprego por sete anos.

Grosse-Leege não quis comentar o relato, citando a investigação do promotor estadual.

Um porta-voz do promotor, Klaus Ziehe, disse que a investigação se concentrou nos dois ex-executivos da Volkswagen --e não em Volkert, Hartz ou outros membros do conselho diretor. Mas disse que o promotor vai considerar novas evidências conforme surgirem.

Suborno e outros tipos de corrupção são quase desconhecidos na indústria automotiva alemã. O diretor de vendas da Mercedes na Alemanha se demitiu no início deste ano depois de ser acusado de desviar dinheiro da companhia.

O que distingue o caso da Volkswagen é que os acusados estavam no departamento de pessoal, e não em compras ou vendas, que tratam com fornecedores e nos quais geralmente ocorrem os subornos.

É por isso que tamanha atenção se concentrou em Hartz. Ele negou estar envolvido em suborno. Mas suas estreitas ligações com Volkert e outras pessoas sob suspeita levantam questões. E seu renome na Alemanha --como o homem por trás das "Reformas Hartz" das políticas trabalhistas-- o transformam num alvo convidativo.

A questão maior, segundo analistas, é se a Volkswagen vai modificar sua linha de administração.

"Essa estrutura única --a interdependência entre a empresa e o sindicato-- levou a esse desvio", disse Peter von Blomberg, vice-presidente da Transparência Internacional Alemanha, um grupo sem fins lucrativos de Berlim que monitora a corrupção. "É com isso que estamos preocupados."

Alguns analistas dizem que o escândalo poderá ajudar Pischetsrieder, o principal executivo, em sua campanha para sacudir a Volkswagen. Ele contratou Wolfgang Bernhard, um ex-executivo da Chrysler, para revitalizar a marca Volkswagen, que enfrenta dificuldades na Europa, nos Estados Unidos e até na China, onde acaba de perder o domínio do mercado para a General Motors.

"Isso definitivamente não é bom para nossa imagem", disse o porta-voz Grosse-Leege. "Mas não vai afetar nossa agilidade para enfrentar os problemas." Funcionários envolvidos têm forte conexão com chanceler Schröder Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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