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08/07/2005

Explosão de bombas em ônibus trens do metrô provocam carnificina em Londres

The New York Times
Alan Cowell*

Em Londres
Explosões de bombas atingiram três trens de metrô e um ônibus em Londres, num ataque terrorista que matou pelo menos 52 pessoas nesta quinta-feira (7/7). A carnificina coordenada ocorreu na hora do rush, deixando a capital britânica atônita e ensangüentada, mas estóica.

Michael Kamber/The New York Times 
Policiais londrinos isolam estação de metrô atingida por explosão na manhã de quinta
Um dia depois de a cidade festejar a vitória na competição para sediar as Olimpíadas de 2012, contra cidades como Paris e Nova York, os passageiros que lotavam os metrôs da cidade --conhecido como "Tube"-- foram mergulhados num pesadelo, um banho de sangue subterrâneo.

O centro da cidade ficou paralisado. A polícia, vestindo coletes amarelos, isolou as ruas. Mas os serviços pararam e toda a rede de metrô foi fechada, enquanto equipes de resgate e paramédicos desciam ao subsolo para procurar mortos e feridos.

No nível da rua, uma explosão rasgou o teto de um ônibus vermelho de dois andares, o nº 30, com tal força que atirou destroços a 30 metros de altura. A explosão foi tão poderosa que horas depois a polícia ainda não havia conseguido estimar o número de mortos.

Tampouco ficou claro se as explosões foram atentados suicidas, disse o vice-comissário assistente Brian Paddick.

O ataque --mais mortífero que o de Omagh em 1998 na Irlanda do Norte, que matou 29 pessoas-- coincidiu com o primeiro dia de deliberações entre os líderes dos países mais industrializados do mundo em Gleneagles, na Escócia.

A tática dos atentados --uma ação coordenada contra sistemas de transporte na hora do rush-- apresenta uma grande semelhança com o atentado cometido no ano passado em Madri, que deixou 191 mortos.

Um grupo que se descreveu como afiliado à organização terrorista al Qaeda assumiu a responsabilidade pelo ataque, numa declaração em um site da web em língua árabe, mas a polícia britânica disse que não pôde confirmar a autenticidade da afirmação. O grupo se denominou Organização Secreta al Qaeda de Guerra Santa na Europa, e disse que o ataque pretendia vingar o envolvimento britânico nas guerras no Afeganistão e no Iraque.

O primeiro-ministro Tony Blair, que recebia os participantes da cúpula do Grupo dos Oito, e que parecia estar em uma onda de sucessos coroados pela decisão olímpica, abreviou sua estada na Escócia, deixando os demais líderes do G-8 --incluindo o presidente Bush dos Estados Unidos--, e voltou a Londres para conduzir reuniões ministeriais de emergência.

"Está razoavelmente claro que houve uma série de atentados terroristas em Londres", disse Blair, abalado, aos repórteres antes de deixar Gleneagles, depois de várias horas em que as autoridades falaram apenas em um problema elétrico nas linhas do metrô e evitaram atribuir os atentados a terroristas.

"Assim como está razoavelmente claro que é um ataque terrorista ou uma série de ataques terroristas, está claro que ele foi projetado e dirigido para coincidir com a abertura do G-8", disse Blair. Ele acrescentou que é "especialmente bárbaro" o fato de os atentados coincidirem com uma reunião destinada a combater a pobreza na África e o aquecimento global.

"Os terroristas não terão êxito", disse Blair. "Os atentados a bomba de hoje não enfraquecerão de maneira alguma nossa decisão de defender os mais profundos princípios de nossas sociedades e de derrotar aqueles que desejam impor seu fanatismo e extremismo a todos. Nós venceremos e eles não vencerão."

Em uma mensagem à nação gravada mais tarde em seu escritório na Downing Street e transmitida pela mídia, Blair, mais abatido, declarou: "Este é um dia muito triste para a população britânica. Mas nós vamos manter o modo de vida britânico. O objetivo do terrorismo é exatamente esse -- aterrorizar as pessoas, e não seremos aterrorizados".

Blair prometeu "a mais intensa ação dos serviços de polícia e segurança para garantir que levaremos esses responsáveis à justiça". Ele elogiou "o estoicismo e a resistência da população londrina".

As autoridades britânicas previam um grande atentado terrorista em Londres desde os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. Como a Grã-Bretanha se aliou aos Estados Unidos na guerra no Iraque, o país se considerava um alvo potencial.

Imediatamente depois dos atentados, as autoridades americanas e européias aumentaram as medidas preventivas de segurança nos sistemas de transporte coletivo. Em Gleneagles, o presidente Bush fez uma comparação entre os objetivos da reunião do G-8 e os terroristas.

"De um lado temos pessoas trabalhando para aliviar a pobreza, livrar o mundo da epidemia de Aids e encontrar formas de ter um meio ambiente limpo, e do outro vemos pessoas trabalhando para matar pessoas", ele disse.

"Não pode ser mais claro o contraste entre as intenções e os ânimos daqueles que se preocupam profundamente com os direitos humanos e a liberdade humana, e as daqueles que matam, aqueles que têm tanto mal no coração que tiram a vida de pessoas inocentes", disse Bush. "A guerra ao terror continua."

Olimpíadas

Em Cingapura, Giselle Davies, uma porta-voz do Comitê Olímpico Internacional (COI), disse em entrevista que as autoridades britânicas ligadas ao evento disseram ao comitê que não estavam estabelecendo conexões entre os atentados e a escolha de Londres para sediar os jogos de 2012. Ela também disse que o presidente do COI, Jacques Rogge, havia falado com Blair.

"Pelo que entendemos e tudo o que sabemos a respeito, não há qualquer relação entre esses fatos", disse Davies. "Não há qualquer ligação, e não cabe a nós especular." Ela acrescentou que o COI "tem plena confiança em Londres e na segurança dos jogos daqui a sete anos".

Hora do Rush

Os atentados começaram no que parecia um dia de trabalho normal na hora do rush. Segundo um cronograma da polícia, o primeiro aconteceu na estação de metrô da Liverpool Street às 8:51 da manhã, quando uma explosão destruiu um trem de metrô no túnel a 100 metros da estação. Sete pessoas foram mortas.

O segundo ocorreu às 8:56 na estação de King's Cross, um terminal que, assim como o da Liverpool Street, liga o metrô a trens de superfície para a região nordeste.

Neste, 21 pessoas morreram, segundo a polícia. Cerca de 20 minutos depois, às 9:17, uma terceira explosão sacudiu um trem que chegava à estação de Edgware Road, também a 100 metros da plataforma, no interior do túnel. Cinco pessoas morreram ali.

E 30 minutos depois, às 9:47, o piso superior de um ônibus foi despedaçado por outra bomba, no cruzamento de Upper Woburn Place e Tavistock Square. "Calculamos um grande número de mortes", disse a polícia.

Tony Tindall, um construtor australiano que mora e trabalha em Londres há cinco anos, escutou a explosão do ônibus e disse: "Foi uma carnificina. Havia sangue e entranhas por toda parte".

Com uma sorte notável, Jasmine Gardner, 22, de Kent, que trabalha em distribuição de televisão, ia embarcar no ônibus nº 30 na Tavistock Square, porque não pôde pegar o metrô devido às explosões anteriores.
"Eu estava tentando chegar ao ônibus", ela disse.

"Ele se movia lentamente no tráfego pesado. O ônibus havia parado e a maioria dos passageiros desceu. Cerca de 15 a 20 pessoas ficaram em seu interior.

"Num minuto o ônibus estava lá, e no seguinte pareceu se dissolver em milhões de pedaços. Eu recebi uma chuva de pedaços de metal do ônibus. Eu me protegi com o guarda-chuva e tudo caiu em cima dele. Fiquei arrasada, presa ao lugar. Virei-me porque não conseguia olhar para aquilo. Alguém me disse para fugir depressa. Foi horrível!"

Ao todo, segundo a polícia, mais de 300 pessoas ficaram feridas e foram levadas aos hospitais envoltas em cobertores de tecido metálico, com os rostos escurecidos pela fuligem. A polícia disse que havia pessoas seriamente feridas, que perderam membros e sofreram queimaduras graves.

Desde os atentados de 11 de Setembro a polícia tem ensaiado procedimentos de emergência e parecia seguir medidas preestabelecidas, pedindo que as pessoas ficassem onde estavam, sintonizassem a televisão, o rádio ou a web e evitassem o centro de Londres.

À tarde, algumas áreas da cidade estavam estranhamente calmas. As ruas ao redor das estações, geralmente movimentadas, haviam sido isoladas, enquanto milhares de pessoas lotavam as calçadas, procurando maneiras de voltar para casa.

Tragédia conhecida

Alguns londrinos receberam os atentados com tranqüilidade, citando sua longa experiência de ataques do Exército Republicano Irlandês (IRA), mas com a grande diferença de que o IRA geralmente fazia avisos antes de atacar e observa uma espécie de trégua há mais de oito anos.

"Já vimos isso antes, de certa maneira", disse o sargento John Burnett, um policial que patrulhava sob as grandes castanheiras próximas ao local do atentado ao ônibus.

"Lutamos contra o IRA há anos em Londres. As bombas não são novidade. Mas a diferença é que o IRA fazia advertências antes de atacar. Parece que a característica principal desses atentados é que não recebemos advertência. A questão é quando, e não se."

O sistema de metrô de Londres, o mais antigo do mundo, transporta 3 milhões de pessoas diariamente. As autoridades estimaram que cerca de 500 trens estavam em operação no momento das explosões, com alguns deles transportando até 900 pessoas.

As explosões disseminaram o caos, com carros de polícia, ambulâncias e caminhões de bombeiros disparando pela cidade.

Turistas faziam fila nos portões do Hyde Park para perguntar aos policiais como poderiam chegar ao aeroporto e a outros locais. Os trajetos de dez minutos no metrô tornaram-se caminhadas de 45 minutos. Uma mulher grávida de oito meses ficou sabendo que sua volta para casa levaria duas horas.

Por volta das 11 da manhã na Edgware Road, pedestres se aglomeravam junto às barreiras da polícia, pedindo instruções sobre como contornar as áreas isoladas.

Yusuf Pandor, 40, morador da região noroeste de Londres, tentava voltar para seu carro, do outro lado das barreiras. Pouco mais de uma hora antes, Pandor era uma das muitas pessoas que ajudavam a levar as vítimas das bombas para o Hilton Metropol, nas proximidades.

"Elas estavam em choque, sangrando", disse Pandor. "Uma mulher tinha sofrido queimaduras graves no rosto e o havia coberto. As pessoas estavam simplesmente chocadas."

Loyita Worley, que trabalha para uma firma de advocacia na City, disse à BBC que estava no metrô quando ouviu uma explosão no vagão ao lado, enquanto estava num túnel. Worley, 49, disse: "As luzes se apagaram e o trem parou imediatamente. Havia muita fumaça e todos tossiam, sufocados, mas permaneceram calmos. Não conseguimos abrir as portas".

Em sua declaração, Blair tentou evitar reações contra muçulmanos, britânicos ou estrangeiros, salientando que enquanto os terroristas disseram que tinham agido em nome do islã a maioria dos muçulmanos na Grã-Bretanha e em todo o mundo são "pessoas decentes e honestas, que deploram esses atos terroristas tanto quanto nós".

Os atentados disseminaram preocupação por toda a Europa, especialmente nos países considerados aliados dos Estados Unidos --a Espanha até o ano passado, a Itália e outros.

"Isso tudo deve ser um alerta para nós, pois a Inglaterra tem a melhor tradição de antiterrorismo na Europa", disse Francesco Sidoti, um especialista em segurança na Universidade de L'Aquila, na Itália.

"Nós estamos despreparados. Isso não tem nada a ver com o antigo estilo de terrorismo doméstico com que a Europa está habituada", ele disse, referindo-se a atos dispersos de violência cometidos por grupos como as Brigadas Vermelhas na Itália ou o IRA na Grã-Bretanha.

O primeiro-ministro e o presidente da Itália manifestaram sua revolta diante dos atentados, assim como o papa Bento 16, que considerou os ataques "atos de barbárie contra a humanidade".

*Colaboraram Sarah Lyall, Don Van Natta Jr., Stephen Gray e Wendy Ginsberg, em Londres, Richard W. Stevenson, na Escócia, e Elisabeth Rosenthal, em Roma. Um dia após festejar pelas Olimpíadas de 2012, cidade vive inferno Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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