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08/07/2005

Obesidade não é resultado de escolha individual

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
O modelo óbvio para todos os que esperam conseguir reverter a ceva da América é a campanha contra o tabagismo. Antes do principal órgão de saúde do país ter condenado oficialmente o fumo em 1964, o crescimento do consumo de cigarros parecia ser uma tendência irreversível; desde então, o consumo per capita diminuiu em mais de 50%.

Mas, pode ser muito difícil repetir este sucesso quando se trata da obesidade. Eu não estou me referindo às dificuldades inerentes a esta tarefa --fazer com que as pessoas consumam um pouco menos de calorias e/ou façam mais exercícios pode ser revelar bem mais difícil do que convencer as pessoas a pararem de fumar, mas nós não saberemos enquanto não tivermos tentado.

Em vez disso, o objeto desta reflexão é examinar a que ponto os ventos políticos mudaram de rumo.

Os ativistas da saúde pública foram bem sucedidos no seu combate contra o tabagismo em parte porque na época, as grandes companhias não sabiam lidar com a opinião pública nem respeitar as regras deste jogo.

Para os padrões atuais, a inépcia política do império do tabaco era realmente impressionante. Em 1971, durante uma entrevista que ficou famosa para o programa televisivo "Face the Nation", o presidente da Philip Morris (empresa que fabrica a marca Marlboro), confrontado com evidências de que o hábito de fumar contraído por mães provoca uma importante redução do peso do bebê ao nascer, respondeu: "Algumas mulheres até preferem ter bebês menores".

Hoje, a indústria alimentícia jamais cometeria esse tipo de erro. Em público, as companhias desta indústria se proclamam bem intencionadas, empenhadas em produzir uma alimentação mais sadia.

Enquanto isso, elas terceirizam as campanhas contra os pesquisadores do campo medicinal e investem também na disseminação de grosseiras campanhas de propaganda anti-anti-obesidade realizadas por grupos advocatícios financiados pela indústria, tais como o Centro de Liberdade do Consumidor.

De maneira mais global, a paisagem ideológica mudou drasticamente desde os anos 60 (estas mudanças na paisagem também têm muito a ver com o fato de as grandes companhias financiarem grupos de advocacia, mas esta é uma história para um outro artigo).

Na América de hoje, as propostas para se fazer alguma coisa contra as taxas de obesidade crescentes precisam enfrentar um público predisposto a acreditar que o mercado está sempre certo e que o governo sempre cria restrições e provoca apertos.

É possível conferir essas predisposições em ação num artigo que foi publicado no mês passado na "Amber Waves" (Ondas de Âmbar), uma revista editada pelo departamento da Agricultura.

O artigo, que tem por título "A Política em relação à Obesidade e a Lei das Conseqüências Acidentais", sugere que os esforços do governo no combate contra a obesidade reúnem todas as probabilidades de ser contraproducentes. Mas os autores não apresentam, na verdade, nenhum exemplo de como isso poderia acontecer.

Além disso, estes autores também sugerem, apesar de não afirmá-lo com todas as letras, que uma vez que as pessoas optam livremente pela obesidade num mercado livre, é porque isso deve ser uma coisa boa.

"O rápido aumento de peso dos americanos pode não ter nenhuma relação com alguma falha grave de mercado", afirma o texto do artigo.

"Pode ser uma resposta racional às mudanças tecnológicas e aos preços. Se os consumidores tentarem deliberadamente diminuir a sua adiposidade provocada pelo fato de trabalharem em recintos fechados, se eles passarem menos tempo na cozinha, e ainda, se eles descobrirem que existem soluções para a maioria dos problemas de saúde vinculados ao peso, então os mercados não estão falhando".

Como podem esses especialistas em medicina que enxergam a obesidade como um problema crítico lidar com uma paisagem ideológica que aponta para a conclusão de que não se deve fazer nada?

Uma resposta possível consiste em se concentrar nos custos financeiros da obesidade, e no fato de que muitos desses custos recaem sobre os contribuintes e sobre o público que compra apólices de seguros em geral, e não sobre os próprios indivíduos obesos (ao menos, os autores do artigo da "Amber Waves" têm o mérito de mencionar esta questão, embora eles a menosprezem).

Contudo, é mais importante enfatizar o fato de que existem situações nas quais o conceito segundo o qual as pessoas são "livres para escolher" está profundamente equivocado --e esta é uma delas.

Em primeiro lugar, o aumento mais rápido das taxas de obesidade não está ocorrendo entre os adultos, dos quais se pode esperar que eles sejam capazes de entender as conseqüências das suas decisões. Ele ocorre entre as crianças e os adolescentes.

E mesmo se as crianças não representassem uma parte considerável do problema, somente um ideólogo cego ou um economista poderia ter a cara de pau de defender seriamente a idéia segundo a qual os americanos estão decidindo racionalmente se tornarem obesos.

De fato, até mesmo os economistas, ao menos uma boa parte dentre eles, estão mais a par desta questão: numa recente análise econômica que se tornou uma das mais citadas neste campo, um artigo de 2003 de autoria de David Cutler, Edward Glaeser e Jesse Shapiro, da Universidade Harvard, esses autores declaram que "ao menos uma parte do consumo de alimentos certamente não é racional".

Na seqüência, o artigo procura demonstrar e provar que até mesmo os adultos apresentam problemas claros de auto-controle e de comportamento compulsivo.

Acima de tudo, nós precisamos deixar de lado os nossos preconceitos contra o governo e entender que a história das intervenções das autoridades em nome da saúde pública, desde a construção de infra-estruturas de saneamento básico até as campanhas contra o tabagismo, se caracteriza por sucessos consistentes no campo do aumento da qualidade de vida.

A obesidade é hoje o problema sanitário da América que vem se alastrando com a maior rapidez; façamos algo a respeito. Lobby da indústria alimentícia dos EUA dificulta luta contra doença Jean-Yves de Neufville

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