UOL Notícias Internacional
 

09/07/2005

Detalhes do atentado a Londres vêm à tona; número de mortos passa de 50

The New York Times
Alan Cowell*
Em Londres
O número de mortos no pior dia de terror em Londres em décadas passou de 50 nesta sexta-feira (8/7), e a polícia deu os primeiros detalhes dos explosivos que foram detonados em três trens do metrô e um ônibus de dois andares na hora do rush da manhã de quinta-feira.

Citando os resultados das primeiras 24 horas de investigação, Andy Hayman, um alto oficial da polícia, disse que as quatro bombas continham cada uma menos de 4,5 quilos de "alto explosivo", e que as bombas nos três trens foram deixadas no piso dos vagões onde explodiram, a cerca de 100 metros das estações de King's Cross, Liverpool Street e Edgware Road.

A bomba no ônibus explodiu ou no piso ou em um assento, ele disse. Inicialmente, a polícia disse que duas pessoas tinham morrido na explosão do ônibus, mas tal número foi revisto na sexta-feira para 13. O ônibus estava na Tavistock Square, perto da Russell Square, onde a estação de metrô era uma rota de fuga para os sobreviventes da bomba de King's Cross.

Apesar de a polícia ter prometido levar os responsáveis à Justiça, eles disseram que foram atrapalhados pelos temores de danos estruturais e pelos ratos nos túneis, particularmente em King's Cross, onde vários corpos ainda precisam ser resgatados.

As estimativas iniciais da polícia eram de que 37 pessoas tinham morrido, mas na sexta-feira ela disse que tal número, atualmente em 49 mortes confirmadas, ultrapassará 50.

Das 700 pessoas feridas, a polícia disse que 350 apresentavam ferimentos leves e 350 foram levadas aos hospitais, das quais 100 ficaram internadas, 22 delas com ferimentos graves. Uma pessoa morreu no hospital.

Centenas de policiais adicionais, alguns com cães, patrulhavam Londres. As bandeiras estavam hasteadas a meio pau nos prédios públicos, incluindo o Palácio de Buckingham, onde não foi autorizado aos turistas o acesso habitual aos portões da frente até o final do dia.

Cartazes de pessoas desaparecidas apareceram do lado de fora de algumas estações do metrô. Algumas pessoas depositaram flores perto dos locais dos atentados e outras exibiam fotografias de pessoas das quais não tiveram notícia desde as explosões.

Trevor Ellery e sua esposa, Beverly, disseram que seu filho Richard, de 21 anos, lhes enviou uma mensagem de texto às 8h30 da manhã de quinta-feira, 21 minutos antes do início da carnificina. "Nós não tivemos mais contato com ele", disse Trevor Ellery para a rede de TV BBC.

Houve relatos de ataques vingativos esporádicos contra muçulmanos, após os atentados terem sido atribuídos pelas autoridades britânicas a terroristas islâmicos.

Massoud Shadjareh, presidente da Comissão Islâmica de Direitos Humanos, disse que sua organização registrou uma dúzia de incidentes contra muçulmanos desde quinta-feira, incluindo bombas incendiárias contra uma mesquita em Leeds e um templo sikh em Londres. "Quanto aos e-mails e telefonemas de ódio", ele disse, "não há sentido em contá-los".

Mais cedo, grupos muçulmanos em Leeds enviaram uma carta ao primeiro-ministro Tony Blair expressando sua "mais profunda revolta e condolência pelas terríveis atrocidades cometidas ontem em Londres".

Os membros da família real visitaram hospitais, trazendo à mente as lembranças das visitas de seus antepassados em tempos de guerra, há mais de 60 anos.

"Infelizmente nós na Grã-Bretanha estamos familiarizados demais com atos de terror, e membros da minha geração, especialmente nesta área de Londres, sabem que já estivemos aqui antes", disse a rainha Elizabeth 2ª em um hospital no Leste de Londres, uma área que foi altamente bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial.

"Mas aqueles que perpetraram estes atos brutais contra pessoas inocentes devem saber que não mudarão nosso modo de vida", disse ela, falando em tons incomumente diretos.

"Atrocidades como estas simplesmente reforçam nosso senso de comunidade, nossa humanidade e nossa confiança no governo da lei. Esta é a mensagem clara de todos nós."

Hayman, o vice-comissário assistente para operações especiais, disse que os investigadores da polícia estavam analisando centenas de horas de imagens de televisão de circuito fechado de vários lugares e coletando evidências nos locais das explosões.

Alguns órgãos de imprensa britânicos citaram testemunhas dizendo que viram um homem no ônibus Nº30 mexendo nervosamente em uma sacola que então explodiu. Não se sabe se isto foi acidental ou proposital.

"Ele estava ao meu lado com uma sacola aos seus pés e ele continuava enfiando a mão na sacola e mexendo em algo", disse um passageiro, Richard Jones, à BBC. "Eu estava ficando incomodado com isto porque o ônibus estava lotado. Todos estavam em pé, cara a cara, e este sujeito continuava mexendo na sacola."

Hayman reconheceu que as autoridades poderiam ter desativado a rede de celulares de Londres, refletindo as preocupações de que as bombas podiam ter sido detonadas por sinais de celular, como foi durante o atentado em Madri, Espanha, em março de 2004, que matou 191 pessoas.

"Nós consideramos isto já que dispúnhamos da capacidade", disse ele. "Mas nós avaliamos a ameaça à confiança pública que resultaria de milhares e milhares de pessoas tentando descobrir se pessoas estiveram envolvidas."

Hayman disse que as equipes de resgate e os investigadores estavam tendo dificuldade para chegar ao local da explosão em King's Cross, onde 21 pessoas morreram.

A explosão danificou tanto o túnel que partes dele ameaçavam ruir. Ao mesmo tempo, gases perigosos enchem o local onde os destroços do trem estão enterrados, há muito asbesto no ar e o local está tomado por ratos.

"Nós ainda precisamos chegar perto do vagão", disse Hayman, acrescentando que nenhum dos corpos foi resgatado.

Blair acrescentou: "Nós não sabemos quantos são".

As imagens evocadas eram as mais terríveis após os atentados. O "Evening Standard" citou um policial não identificado que viu a carnificina: "Eu não sei como o céu se parece, mas eu já vi o inferno".

"O desafio agora é a remoção dos mortos", disse Andy Trotter, outro alto oficial da polícia, chamado o resgate de um número não especificado de corpos uma "tarefa muito difícil".

Tendo este cenário de fundo manchado de sangue, Blair -que deixou o encontro de cúpula do Grupo dos 8 em Gleneagles, Escócia, na quinta-feira e voltou para lá à noite- permaneceu nas negociações para concluir seu trabalho lá.

"Nós falamos hoje à sombra do terrorismo, mas ele não obscurecerá o que viemos realizar aqui", disse Blair, parecendo cansado.

"Não há esperança no terrorismo nem qualquer futuro para ele", disse ele. "Nós oferecemos o contraste para as políticas do terror." Ele voltou na sexta-feira para Londres para parabenizar as equipes de resgate e outros pela resposta aos atentados.

Mas cada vez mais os britânicos parecem estar interpretando os ataques como um resultado direto do apoio de Blair ao presidente Bush na guerra no Iraque e na campanha americana contra o terrorismo.

"O preço por ser a principal aliada dos Estados Unidos, por se juntar à aventura no Iraque do presidente Bush, sempre pareceu que seria pago em sangue inocente", escreveu Max Hastings, um historiador militar e ex-editor de jornal, no jornal antigoverno "Daily Mail".

"Nós devemos reconhecer que ao apoiar as extravagâncias do presidente Bush e sua mal batizada guerra contra o terror e mal justificada invasão ao Iraque, Blair assegurou nossa presença na linha de frente ao lado dos Estados Unidos, quer gostemos ou não."

Mas contra isto, muitas pessoas buscavam invocar a lembrança do espírito de tempos de guerra britânico, quando os londrinos se acostumaram aos bombardeios britânicos e o enfrentaram com humor.

"Se Londres pôde sobreviver à Blitz, ela pode sobreviver a quatro eventos miseráveis como estes", disse Blair. Ele falou "desta grande e maravilhosa cidade diversa" e chamou Londres e a Grã-Bretanha de "uma comunidade unida contra a atrocidade".

Mas Shadjareh, da associação islâmica, disse que os muçulmanos temem que os britânicos de direita possam buscar represálias. "Nós temos elementos extremistas que vão tentar algo nos próximos dias, e estamos pedindo à comunidade que tome precauções, especialmente as mulheres e crianças", disse ele.

"Não há nada no que aconteceu que tenha a ver com o Islã", disse Ismail Benakmoume, um trabalhador ferroviário muçulmano de 30 anos da estação Victoria. "Por ora nós estamos aguardando pela notícia de quem realmente foi o responsável. Eu realmente espero que não seja algum muçulmano que diga: 'Ok, nós fomos os responsáveis e foi em nome de Deus'."

Algumas pessoas reconheceram um aumento da suspeita. "Quando você vê alguém caminhando com um véu, você se preocupa se há uma banana de dinamite amarrada debaixo dele", disse Terry Scanlon, 51 anos, que é dono de uma banca de frutas e flores na Victoria. "Mas há idiotas em todas as raças."

Para muitos o dia após as explosões foi nervoso, e algumas linhas do metrô não tiveram o movimento habitual.

"Eu estou pensando em descer a qualquer minuto", disse Terry Cacutt, um programador de computador de 33 anos, que fumava um cigarro no alto da escada que leva à plataforma da estação Victoria do metrô. "Eu só estou fumando um cigarro e pensando a respeito, me preparando. Tudo ficará bem após a primeira vez, eu acho."

*Com reportagem de Lizette Alvarez, Craig S. Smith e Jonathan Allen em Londres. Vítimas em estado grave em hospitais podem fazer número subir George El Khouri Andolfato

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