UOL Notícias Internacional
 

10/07/2005

Por uma década, Londres se tornou uma movimentada encruzilhada do terror

The New York Times
Em Londres
Muito antes dos atentados terem atingido violentamente Londres na quinta-feira (7), a Grã-Bretanha se tornou um terreno fértil para o ódio, alimentado por uma versão militante do Islã.

Por dois anos, extremistas como o xeque Omar Bakri Mohammed, um clérigo de 47 anos nascido na Síria, têm se dirigido a multidões cada vez maiores, convocando uma guerra santa contra a Grã-Bretanha e exortando os jovens muçulmanos a se juntarem à insurreição no Iraque. Em uma entrevista de jornal em abril passado, ele alertou que um grupo "muito bem organizado" baseado em Londres, a Al Qaeda Europa, estava "prestes a lançar uma grande operação" aqui.

Em um sermão acompanhado por mais de 500 pessoas em um salão de reuniões no centro de Londres, em dezembro passado, Omar prometeu que se os governos ocidentais não mudarem suas políticas, os muçulmanos lhes dariam "um 11 de setembro um dia após o outro".

Se Londres se tornou um imã para pregadores raivosos, ela também se tornou o destino de homens dispostos a executar suas ameaças. Por uma década, a cidade tem sido uma encruzilhada para candidatos a terroristas, que a usaram como base, onde podiam levantar dinheiro, recrutar novos membros e obter inspiração com as mensagens militantes.

Entre eles estavam os terroristas envolvidos nos ataques em Madri, Casablanca, Arábia Saudita, Israel e no plano de 11 de setembro. Zacarias Moussaoui, o único homem nos Estados Unidos indiciado pela participação nos ataques de 11 de setembro, e Richard C. Reid, o condenado homem do sapato-bomba, costumavam rezar na mesquita de Finsbury Park, no norte de Londres. O ex-líder da mesquita, Abu Hamza Al Masri, pregou livremente a violência por anos antes das autoridades o prenderem em abril de 2004.

Apesar da Grã-Bretanha ter aprovado duras leis de imigração e antiterrorismo e feito quase 800 prisões desde 11 de setembro de 2001, os críticos têm acusado sua profunda tradição de liberdades civis e proteção de ativistas políticos de ter tornado o país um santuário para terroristas.

Por anos, havia a ampla crença de que a tolerância da Grã-Bretanha ajudaria a impedir quaisquer ataques islâmicos em casa. Mas a raiva dos clérigos militantes de Londres se voltou contra a Grã-Bretanha após ela ter oferecido total apoio à invasão no Iraque liderada pelos americanos. E na manhã de quinta-feira, o ataque ameaçado há tanto tempo e previsto como inevitável por autoridades preocupadas de contraterrorismo se tornou uma terrível realidade.

"Os terroristas voltaram para casa", disse um alto funcionário de inteligência europeu, que trabalha com freqüência com as autoridades britânicas. "É hora do troco para uma política, na minha opinião, irresponsável do governo britânico de permitir que estas redes se desenvolvam dentro da Grã-Bretanha."

O governo britânico tem sido criticado por outros países por se recusar a extraditar os suspeitos de terrorismo, como Muhammad Al Gerbouzi, que foi condenado à revelia no Marrocos por seu suposto papel nos ataques terroristas de Casablanca, que mataram 45 pessoas em maio de 2003.

As autoridades marroquinas disseram que a Grã-Bretanha tem se recusado a extraditar Al Gerbouzi para o Marrocos por falta de provas.

Os investigadores que estão examinando os ataques de quinta-feira estão apoiando a teoria de que os terroristas faziam parte de uma célula dormente doméstica, que pode ou não ter contado com apoio estrangeiro para a fase de fabricação das bombas da operação.

Com muitos membros da hierarquia da Al Qaeda tendo sido capturados ou mortos, uma nova ameaça terrorista, mais ágil, tem despontado na Europa, composta de grupos locais semi-autônomos inspirados na Al Qaeda que supostamente estão operando na França, Suíça, Espanha, Itália e outros países. "Os terroristas não são estranhos, estrangeiros", disse Bruno Lemaire, conselheiro do primeiro-ministro da França, Dominique de Villepin. "São pessoas de dentro, bem integradas dentro do país."

Outro alto funcionário de inteligência, baseado na Europa. disse que o temor é o da possibilidade de ataques adicionais em outras cidades européias serem executados por células dormentes desenvolvidas localmente, inspiradas pela Al Qaeda e pelos ataques em Casablanca, Madri e agora em Londres.

"Isto é exatamente o que testemunharemos na Europa: a maioria dos ataques será executado por grupos locais, pessoas que estão aqui há muito tempo, bem integradas no tecido da sociedade", disse o funcionário.

O desafio da Grã-Bretanha de detectar militantes em seu solo é particularmente difícil.

As autoridades de contraterrorismo estimam que entre 10 mil a 15 mil muçulmanos vivendo na Grã-Bretanha sejam simpatizantes da Al Qaeda. Entre este número, as autoridades acreditam que até 600 homens passaram por campos de treinamento ligados à Al Qaeda no Afeganistão e outros lugares.

Os investigadores britânicos disseram que identificar militantes islâmicos ente os 2 milhões de muçulmanos que vivem aqui, cerca de 4% da população, é particularmente difícil. Eles constituem a comunidade muçulmana mais diversa na Europa em termos de origens étnicas, cultura, história, língua, política e classe social. Mais de 60% da comunidade não vêm do Norte da África ou dos países do Golfo árabe, mas de países como Paquistão, Índia e Bangladesh.

Antes de 11 de setembro de 2001, as autoridades britânicas monitoravam os radicais islâmicos mas sem chegar a prendê-los ou extraditá-los. Depois de 11 de setembro, o governo aprovou uma dura legislação antiterrorismo que permite a detenção por tempo indeterminado de suspeitos de terror. Mas no ano passado ela foi derrubada pela mais alta corte britânica, os Lordes da Lei, como uma legislação que viola os direitos humanos.

Mesmo assim, a lei antiterror, assim como as prisões de mais de 100 suspeitos de terrorismo, enfureceu os líderes militantes islâmicos. Para complicar a estratégia antiterror da Grã-Bretanha, ela tem retardado ou se recusado a extraditar suspeitos para uma série de seus aliados, incluindo Estados Unidos, França, Espanha e Marrocos.

O Marrocos, por exemplo, está buscando o retorno de Al Gerbouzi, ao qual identificou como sendo um veterano experiente do Afeganistão e um planejador dos ataques terroristas de maio de 2003 em Casablanca, assim como um fundador do Grupo Islâmico de Combatentes Marroquinos, identificado pela ONU como uma rede terrorista ligada à Al Qaeda.

Um agente deste grupo, Noureddine Nifa, disse aos investigadores que a organização tem células dormentes preparadas para montar ataques a bomba sincronizados na Grã-Bretanha, França, Itália, Bélgica e Canadá.

Em uma entrevista no ano passado, o general Hamidou Laanigri, o chefe de segurança de Marrocos, disse que Osama Bin Laden autorizou Al Gerbouzi a abrir um campo de treinamento para marroquinos no Afeganistão, no início de 2001. Em dezembro passado, Al Gerbouzi foi julgado à revelia no Marrocos por seu envolvimento nos ataques em Casablanca e condenado a 20 anos.

Mas o governo britânico não tem tratado de extradição com o Marrocos e tem se recusado a extraditar Al Gerbouzi, um pai de seis filhos que vive em um apartamento surrado no norte de Londres. As autoridades britânicas dizem que não há provas suficientes para prendê-lo, disse Laanigri.

De forma semelhante, Baltasar Garzón, um dos magistrados investigadores da Espanha, pediu a extradição de Abu Qatada, um clérigo radical muçulmano que vive na Grã-Bretanha e que recebeu o status de refugiado político no início dos anos 90. Um palestino de nacionalidade jordaniana, Qatada é descrito nos altos do tribunal como o líder espiritual da Al Qaeda na Europa. Apesar de Qatada ter sido colocado em prisão domiciliar em 2002 e depois preso, ele foi libertado em março e colocado em um programa de observação.

Ele também é procurado na Jordânia, onde foi sentenciado à revelia a 15 anos de prisão por sua ligação com atentados a bomba em 1998.

Por 10 anos, a França tem lutado pela extradição de Rachid Ramda, um argelino de 35 anos por seu suposto papel em um atentado a bomba em Paris, em 1995, de autoria do Grupo Armado Islâmico militante da Argélia. Para muita irritação dos franceses, há três anos a Alta Corte britânica bloqueou uma ordem do governo para entregá-lo, citando alegações de que os demais réus no caso testemunharam sob tortura dos franceses.

Na semana passada, Charles Clarke, o ministro do Interior britânico, aprovou a ordem de extradição.

Outro suspeito chave de terrorismo que operou em Londres por anos é Mustafa Setmarian Nasar, suspeito de ser o mentor dos atentados em Madri. Apesar das autoridades não conseguirem encontrá-lo no momento, acredita-se que ele tenha visitado a Grã-Bretanha com freqüência e vivido aqui abertamente de 1995 a 1998.

As autoridades acreditam que ele tentou organizar seu próprio grupo extremista antes de 11 de setembro, mas as autoridades dizem que ele posteriormente prometeu lealdade a Osama Bin Laden. Ele morava no norte de Londres e foi editor de um revista militante islâmica, a "Al Ansar", que é publicada aqui, distribuída em algumas mesquitas na Europa Ocidental e monitorada atentamente pelas autoridades de segurança britânicas.

Segundo o sistema judicial britânico, alguns suspeitos de terrorismo que foram presos foram libertados em vez de julgados ou condenados.

Em janeiro de 2003, a polícia britânica prendeu mais de uma dúzia de suspeitos de produzir ricina em um apartamento no norte de Londres. Mas os homens foram recentemente absolvidos de todas as acusações.

Bem antes dos ataques de quinta-feira, as condições perigosas eram aparentes para as autoridades britânicas, que previam um ataque terrorista em solo britânico.

Em fevereiro do ano passado, o então ministro do Interior britânico, David Blunkett, confirmou para um entrevistador da BBC que era uma questão de quando, e não de se, um ataque terrorista iria ocorrer na Grã-Bretanha, acrescentando que um ataque suicida era a possibilidade "mais provável". "Eu vivo em constante e interminável preocupação, dia e noite, diante da ameaça que enfrentamos", disse ele.

Em um discurso em outubro de 2003, Eliza Manningham-Buller, a diretora geral do MI5, o serviço de inteligência doméstica da Grã-Bretanha, disse que não via "perspectiva de uma redução significativa na ameaça do terrorismo islâmico ao Reino Unido e seus interesses ao longo dos próximos cinco anos, e temo que por um número considerável de anos depois disto".

Desde os ataques, algumas pessoas, incluindo alguns dos líderes muçulmanos da Grã-Bretanha, têm pedido por uma repressão aos muçulmanos radicais.

"Para mim estas pessoas não são britânicas", disse o lorde Nizar Ahmed, um dos poucos muçulmanos na Casa dos Lordes, que propôs um plano para treinar clérigos muçulmanos na Grã-Bretanha. "São estrangeiros pregadores ideológicos do ódio que têm ameaçado nossa segurança nacional e encorajado jovens a aderirem à militância. Eles devem ser presos e enviados de volta aos seus países."

Ele acrescentou: "Eles criaram todo um solo fértil para recrutamento ao radicalismo".

Mesmo os atentados da semana passada fizeram pouco para conter a retórica de alguns dos líderes mais radicais, que criticaram o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, por sua declaração na quinta-feira de que os atentados pareciam ser obra de terroristas islâmicos.

"Isto mostra para mim que ele é um inimigo do Islã", disse Abu Abdullah, um pregador autonomeado e porta-voz do grupo radical Simpatizantes da Shariah, em uma entrevista na sexta-feira, acrescentando: "Às vezes quando você vê como as pessoas falam, isto lhe mostra quem são seus inimigos".

Abdullah declarou que os cidadãos britânicos que reelegeram Blair "têm sangue em suas mãos", porque os soldados britânicos estão matado muçulmanos. Ele também disse que o governo britânico, e não os muçulmanos, "tem envolvimento" nos atentados, explicando: "Eles querem que a luta contra o Islã prossiga".

Apesar dos meses de relatos de que a Scotland Yard estava investigando um dos clérigos radicais mais proeminentes, Omar, o líder do Al Muhajiroun, um grupo radical muçulmano daqui, e de que as autoridades britânicas estavam considerando sua deportação, ele e outros como ele continuam livres.

Mas Omar também é um exemplo das políticas de dois gumes na Inglaterra. Ele é um refugiado político que recebeu asilo 19 anos atrás e é sustentado pela assistência social. Ao ser perguntado em uma entrevista em maio sobre como se sentia por ser impedido de obter cidadania britânica, ele respondeu: "Eu não quero ser um cidadão do inferno". George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h00

    -0,26
    3,160
    Outras moedas
  • Bovespa

    10h05

    0,73
    69.136,74
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host