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12/07/2005

Rede de neurônios desalinha-se, e cérebro torna-se um iPod

The New York Times
Carl Zimmer
Há sete anos, Reginald King estava deitado em uma cama de hospital, recuperando-se de uma cirurgia de ponte de safena, quando ouviu a música pela primeira vez.

Começou com uma canção popular, depois vieram outras. King ouvia de tudo, desde músicas de cabaré até hinos natalinos. "Perguntei às enfermeiras se estavam ouvindo, mas elas disseram que não", disse King, gerente aposentado em Cardiff, País de Gales.

"Fiquei tão frustrado", disse ele. "Elas não sabiam do que eu estava falando; disseram que devia haver algo errado com a minha cabeça. E tem sido assim desde então."

A cada dia, a música volta. "São todas músicas que já ouvi na minha vida", disse King, 83. "Uma começa e engata em outra, e vai assim na minha cabeça. Está me deixando louco, para ser franco."

No ano passado, King foi recomendado ao psiquiatra Dr. Victor Aziz, do Hospital St. Cadoc, no País de Gales. Aziz explicou para ele que essa experiência tem nome: alucinação musical.

Aziz pertence a um pequeno círculo de psiquiatras e neurologistas que estão investigando essa condição. Eles suspeitam que as alucinações vivenciadas por King e outros resultam de um mau funcionamento de redes cerebrais que normalmente permitem a percepção da música. Eles também suspeitam que há muitos casos dessas alucinações não-diagnosticados.

"É só procurar", disse Aziz. Baseado em seus estudos das alucinações, ele suspeita que, nas próximas décadas, a condição será muito mais comum.

As alucinações musicais já invadiam as mentes das pessoas muito antes de se tornarem uma condição médica reconhecida.

"Muitos compositores tiveram alucinações musicais", disse Aziz. No final de sua vida, Robert Schumann, por exemplo, escrevia músicas que tocavam em sua cabeça; conta a lenda que ele dizia estar ouvindo o fantasma de Franz Schubert.

Apesar das alucinações musicais serem conhecidas há mais de um século, raramente foram estudadas sistematicamente. Isso mudou nos últimos anos. Na edição de julho da revista Psychopathology, Aziz e seu colega Dr. Nick Warner publicarão uma análise de 30 casos de alucinações musicais que acompanharam ao longo de 15 anos no Sul de Gales. É o maior conjunto de casos já descrito.

"Estamos tentando coletar o máximo de informações sobre seu dia-a-dia", disse Aziz. "Fizemos muitas perguntas ainda não respondidas. O que ouvem, por exemplo? Soa próximo ou distante?"

Em dois terços dos casos de Aziz e Warner, as alucinações musicais eram o único distúrbio mental experimentado pelos pacientes. Um terço dos pacientes eram surdos. Havia mais mulheres do que homens, e a média de idade era de 78 anos.

A experiência de King é típica. Os pacientes parecem ouvir uma ampla variedade de músicas, entre elas "Don't Cry for Me Argentina" e "Three Blind Mice".

Em dois terços dos casos, a música era religiosa; seis pessoas disseram ouvir "Abide With Me".

Aziz acredita que as pessoas tendem a ouvir as músicas mais significativas emocionalmente, ou que escutaram muitas vezes. "Há um significado por trás dessas coisas", disse ele.

Seu estudo também mostra que essas alucinações são diferentes das alucinações auditivas dos esquizofrênicos. Estes ouvem vozes interiores. Pacientes como King ouvem apenas música.

Os resultados corroboram trabalhos recentes de neurocientistas indicando que usamos redes especiais de neurônios para perceber a música. Quando o som entra no cérebro, ele ativa uma região próxima às orelhas, chamada córtex auditivo primário, que começa a processar os sons em seu nível mais básico. O córtex auditivo então passa seus próprios sinais para outras regiões, capazes de reconhecer características mais complexas da música, como o ritmo, mudança de nota e melodia.

Os cientistas puderam identificar algumas dessas regiões do cérebro e comparar a forma como as pessoas respondem a sons musicais ou não musicais.

Até hoje, foram feitas somente meia dúzia de análises de cérebros com pessoas com alucinações musicais. Dr. Tim Griffiths, neurologista da Universidade de Newcastle Upon Tyne, na Inglaterra, desenvolveu um desses estudos em seis pacientes idosos que tiveram alucinações musicais depois de ficarem parcialmente surdos.

Griffiths usou uma técnica de scan chamada PET, que envolve a injeção de marcadores radioativos na corrente sangüínea. Cada vez que "scaneava" o cérebro dos pacientes, ele perguntava se tinham tido alucinações musicais. Em caso positivo, perguntava qual tinha sido a intensidade, em uma escala de um a sete.

Griffiths descobriu uma rede de regiões no cérebro que se tornava mais ativa com a intensidade das alucinações. "O que me espanta é que você vê um padrão muito similar ao das pessoas normais quando ouvem música", disse ele.

A principal diferença é que as alucinações musicais não ativam o córtex auditivo primário, a primeira parada do som no cérebro. Quando os pacientes de Griffith alucinavam, eles usavam apenas as partes do cérebro responsáveis por tornar sons simples em música complexa.

Griffith sugere que essas regiões de processamento de música estão continuamente procurando sinais no cérebro que possam interpretar. Quando não há nenhum estímulo vindo dos ouvidos, o cérebro pode gerar impulsos ocasionais ao acaso, que as regiões de processamento de música interpretam como som. Elas então tentam equiparar esses impulsos com memórias musicais, tornando poucas notas em uma melodia conhecida.

Para a maior parte das pessoas, esses sinais espontâneos podem produzir uma música que não sai da cabeça. Mas a entrada constante de informações pelos ouvidos suprime a falsa música.

Griffith propõe que a surdez corta essa corrente de informações e que em algumas pessoas surdas, os circuitos que buscam a música passam a exagerar. Eles ouvem música o tempo todo, não só os murmúrios vagos de uma canção insistente. Torna-se tão real quanto qualquer percepção normal.

"O que estamos vendo é uma amplificação de um mecanismo normal, que todo mundo tem", disse Griffiths. Pessoas sem problemas auditivos também podem ter alucinações musicais. Convulsões epiléticas, medicamentos e doença de Lyme são alguns dos fatores que podem gerá-las.

Aziz também observou que dois terços de seus pacientes viviam sozinhos, e assim não estavam sendo suficientemente estimulados. Uma paciente teve menos alucinações musicais quando Aziz colocou-a em um lar de idosos, disse ele, "porque ficou ativa, conversava com as pessoas."

Não há um tratamento padrão para alucinações musicais. Alguns médicos usam drogas antipsicóticas; outros usam terapia cognitiva comportamental para ajudar os pacientes a compreender o que está acontecendo em seus cérebros. "Algumas vezes, coisas simples podem ser a cura", disse Aziz. "Ligar o rádio pode ser mais importante do que dar um remédio."

Apesar desses tratamentos, muitas pessoas com alucinações musicais encontram pouco alívio. "Simplesmente vivo com isso", disse King. "Queria poder fazer alguma coisa. Faço coisas bobas, como conversar comigo mesmo, esperando que, quando eu parar de falar, a música vai parar. Mas não funciona assim."

Mais estudos podem ajudar os pesquisadores a encontrar novos tratamentos. A professora Diana Deutsch, psicóloga da Universidade da Califórnia, San Diego, quer fazer um novo estudo com pessoas com alucinações musicais que não são surdas, usando o MRI funcional. Diferentemente do PET usado por Griffiths, o MRI funcional é forte o suficiente para captar mudanças na atividade cerebral a cada segundo.

"Talvez demore até termos resultados, mas certamente é algo que me interessa muito", disse Deutsch. "Vamos ver aonde nos leva."

Aziz também acredita que é necessário ter uma noção melhor de quantas pessoas ouvem essas alucinações. Como aconteceu com King, muitos médicos fazem pouco dessas experiências.

Aziz disse que, desde que começou a apresentar seus resultados em conferências médicas no ano passado, um número crescente de pacientes vem sendo enviado a ele.

"Em 15 anos, tive 30 pacientes", disse ele, "e em menos de um ano, tive 5. Isso fala de como as pessoas estão ficando mais conscientes da questão."

Aziz suspeita que as alucinações musicais vão se tornar mais comuns no futuro. As pessoas hoje estão cobertas de música por todos os lados, de rádios e televisões, em elevadores e supermercados. É possível que a onipresença da música gere mais alucinações. Os tipos de alucinações também podem variar se as pessoas começarem a ouvir outros estilos musicais.

"Especulamos que as pessoas vão ouvir mais música popular e clássica do que hoje", disse Aziz. "Espero viver o suficiente para saber, daqui a 20 anos." Doença conhecida como alucinação musical faz com que algumas pessoas, até as que se tornaram surdas, ouçam canções Deborah Weinberg

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