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13/07/2005

Futuro da Nasa depende do novo reinício da Discovery

The New York Times
John Noble Wilford
Depois do primeiro desastre com uma nave espacial americana, um incêndio na plataforma de lançamento em 1967, Thomas J. O'Malley lembra-se de que chegou ao cabo Canaveral, na Flórida, como engenheiro contratado para reorganizar as coisas. "Encontrei a pior confusão que já vi na minha vida", ele disse.

Eugene F. Kranz, um diretor de vôo aposentado, famoso por orquestrar o resgate da Apollo 13 em 1970, lembra da explosão do ônibus espacial Challenger em 1986 como uma experiência sombria e traumática, no pior momento.

"Estávamos cegos para o problema que causou a explosão", disse Kranz. "E ele aconteceu durante uma transição na Nasa, quando as pessoas que fundaram a agência estavam se aposentando e a geração seguinte não tinha experiência para lutar por suas batalhas."

John M. Logsdon, um especialista em política espacial da Universidade George Washington, acredita que as apostas na recuperação do mais recente desastre, a desintegração do ônibus espacial Columbia em 2003, podem ser mais altas que nunca.

Do resultado da primeira missão pós-Columbia, que deverá ser lançada nesta quarta-feira, poderá depender a conclusão da Estação Espacial Internacional e as perspectivas dos planos ambiciosos, mas incipientes, do governo Bush de novos vôos humanos à Lua e eventualmente a Marte.

"O futuro está pendente da balança em um grau muito maior do que em outros reinícios de vôos, depois de tragédias", disse Logsdon, que participou do conselho independente que investigou a perda da Columbia. "A diferença agora é que temos uma estação espacial semiconstruída e que não pode ser terminada sem o ônibus espacial, e sem a estação talvez não lancemos mais ônibus espaciais."

Um engenheiro que já trabalhou na linha de frente dos lançamentos, um ex-diretor de vôo e um cientista político familiarizado com os meandros de Washington --cada um deu perspectivas diferentes sobre a experiência de juntar os pedaços depois de um acidente espacial e as preocupações que acompanham o reinício das missões. Eles sabem que o primeiro lançamento depois de um desastre ou quase desastre encerra uma pesada carga de expectativas e temores sobre o próprio futuro do empreendimento espacial.

Faz dois anos e meio que a Columbia explodiu sobre o Texas, em fevereiro de 2003, matando sete astronautas. E nesta semana o peso do reinício está sobre outra equipe e outra espaçonave, a Discovery, e de todos os seus técnicos, controladores de vôo e gerentes da Agência Nacional de Aeronáutica e Espaço, conhecida pela sigla em inglês Nasa.

Já houve três dessas missões de reinício: depois que os astronautas morreram no incêndio da cabine na torre de lançamento em 1967, depois que a Apollo 13 danificada conseguiu voltar para casa em um resgate heróico, em 1970, e depois que a Challenger explodiu pouco depois do lançamento em 1986, matando todos os tripulantes. O choque do fracasso interrompeu as operações para uma sóbria reavaliação dos meios e objetivos.

Nesses momentos, houve muita preocupação e algumas dúvidas sobre o empenho que o país deveria dar à exploração espacial. Mas em cada caso as circunstâncias variavam, refletindo visões diferentes do lugar dos vôos espaciais na agenda nacional e na política mundial, e também em graus variáveis de apoio público.

Agora, os construtores do ônibus espacial dizem que seus técnicos trabalharam 24 horas por dia durante meses produzindo as modificações técnicas e administrativas exigidas pelos investigadores da Columbia. Segundo eles, o espírito está elevado, mas temperado pelo conhecimento de que nenhum vôo espacial é rotineiro e livre de riscos. Eles afirmam estar ocupados demais com o trabalho para contemplar as implicações da missão para futuros empreendimentos.

A Apollo 7, em outubro de 1968, seguiu-se ao incêndio fatal. Investigações do Congresso revelaram problemas de projeto na espaçonave e erros humanos na construção. O veículo teve de ser redesenhado e reconstruído.

O'Malley, que hoje tem 90 anos e ainda mora perto da base de lançamento, disse que encontrou "muita gente deprimida, realmente deprimida" quando chegou depois do incêndio. Algumas pessoas foram substituídas por técnicos mais qualificados.

Os três astronautas da Apollo 7 se queixaram das condições, e algumas autoridades da Nasa por alguns momentos pensaram em colocar a espaçonave redesenhada em um vôo de teste não-tripulado antes de arriscar a vida de astronautas.

Mas o ímpeto da corrida à Lua durante a Guerra Fria com a União Soviética --e o desafio do presidente John F. Kennedy de colocar homens na Lua e trazê-los de volta naquela década-- fez o programa superar a crise. O atraso levou ao primeiro questionamento sério sobre a meta lunar e a uma série de preocupações sobre as perspectivas da Nasa depois da Apollo. O entusiasmo do público estava desaparecendo, o Congresso não era mais tão generoso e a guerra no Vietnã e os tumultos nas cidades tinham tomado a posição de alta prioridade.

No entanto não se pensou seriamente em abandonar o objetivo. O vôo em órbita da Terra da Apollo 7 foi um sucesso, levando em rápida sucessão a outras três missões de teste antes de a Apollo 11 fazer história colocando os homens na Lua, em julho de 1969.

A caminho da Lua em agosto de 1970, a Apollo 13 sofreu uma explosão num tanque de oxigênio e teve de ser reconduzida à Terra. Um defeito de fabricação foi descoberto e reparado, e em janeiro do ano seguinte a Apollo 14 restabeleceu a confiança na segurança da espaçonave.

Segundo Kranz, o espírito na época era: "Tivemos uma dificuldade, sabemos qual é o problema, vamos continuar a exploração".

A explosão da Challenger em janeiro de 1986 foi o desastre mais chocante. Ela ocorreu 73 segundos depois do lançamento, à plena vista da multidão no Centro Espacial Kennedy e de milhões que assistiam pela TV.

O acidente levou a meses de dúvidas, novos projetos e mudanças drásticas na futura utilização dos ônibus espaciais. Eles tinham sido apresentados pela Nasa como veículos pé-de-boi, para todos os objetivos, científicos, comerciais e militares. Mas críticas sobre sua confiabilidade e custo-eficiência obrigaram a agência a começar a reduzir sua utilização em missões que poderiam ser realizadas por foguetes descartáveis.

A investigação do acidente também revelou falhas na administração do programa e má avaliação em decisões tomadas sob pressão para manter um calendário de lançamento irreal, e tudo isso ameaçava o sucesso e a segurança da tripulação.

Mas Kranz elogiou a reação do órgão ao acidente. "A equipe enfrentou o problema individual e coletivamente, reconhecendo que não havíamos dado tanta atenção quanto deveríamos ter dado", ele disse. "Foi a mesma coisa depois do incêndio da Apollo."

Em conseqüência, uma Nasa sob nova direção foi finalmente liberada para iniciar os vôos das naves espaciais em setembro de 1988, com o lançamento da Discovery, o mesmo veículo que agora está sendo preparado para seu segundo vôo de reinício.

Quando a Discovery passou da marca dos 73 segundos na decolagem, o momento da explosão da Challenger, a tensão no local de lançamento se transformou em um alívio perceptível. O mesmo será possivelmente verdade se a Discovery novamente tiver sucesso desde a contagem regressiva até o retorno da missão pós-Columbia.

Se houver "outro grande acidente", disse Logsdon, "toda a 'visão da exploração espacial' do governo Bush não seguirá adiante". Agência espacial tenta evitar o 5º acidente de sua história para preservar a política de George W. Bush de exploração do espaço Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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