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13/07/2005

Polícia diz que quatro britânicos executaram atentados

The New York Times
Alan Cowell e Don Van Natta Jr.,
Em Londres
A polícia britânica disse na terça-feira que um grupo de quatro homens nascidos na Grã-Bretanha realizou os ataques terroristas mortais de quinta-feira em Londres, incluindo pelo menos um que parece ser o primeiro atentado terrorista suicida do país.

Michael Kamber/The New York Times 
Policiais britânicos fazem revista em casas de Leeds (ao norte de Londres), que seriam de autores dos atentados
A polícia disse que o corpo de um homem foi encontrado nos destroços do metrô de Londres e que pertences de três outros foram encontrados nos locais das demais explosões. Faltou pouco para a polícia declarar que os ataques foram atentados suicidas.

O avanço nas investigações ocorreu enquanto a polícia revistava as casas deles na cidade de Leeds, no norte, encontrando explosivos em uma casa e em um carro abandonado estacionado na estação de trem de Luton, ao norte de Londres. A polícia também prendeu um homem em West Yorkshire, cujo nome não foi revelado.

Em Leeds, os moradores disseram que vários homens jovens --cujas famílias inicialmente emigraram do Paquistão para o Reino Unido-- viajaram para Londres no final da semana passada e não foram mais vistos.

A polícia identificou os quatro homens, com 20 e poucos anos ou menos, mas não divulgou seus nomes. Os quatro foram filmados pelas câmeras do circuito fechado de TV ao chegarem na estação de King's Cross, em Londres, carregando mochilas nas costas, às 8h30 da manhã de quinta-feira, apenas 20 minutos antes das três explosões terem atingido os trens do metrô. Uma quarta bomba explodiu às 9h47 da manhã no ônibus Nº 30 no centro de Londres. A polícia disse que 52 pessoas morreram nos quatro ataques.

Em uma coletiva de imprensa em Londres, Peter Clarke, o chefe da polícia antiterrorismo da Scotland Yard, anunciou que itens pertencentes aos quatro homens foram encontrados nos locais das explosões, o pior ataque a Londres desde a Segunda Guerra Mundial.

"Nós estamos tentando estabelecer seus movimentos antes do ataque da semana passada e particularmente se todos morreram nas explosões", disse Clarke.

Se os agressores forem homens-bomba suicidas, os eventos de 7 de julho certamente marcarão uma mudança dramática na natureza da ameaça enfrentada pelos europeus ocidentais, particularmente dada a sincronia das explosões --algo incomum na Europa.

A terça-feira foi a primeira vez em que a polícia, sob pressão para reduzir os temores de que os terroristas podem realizar novos ataques, apresentou um relato detalhado da investigação dos atentados. Ela anunciou as novas descobertas após um dia de desdobramentos rápidos em torno da cidade de Leeds, em West Yorkshire e em Luton.

Em Leeds e na vizinha Dewsbury, a polícia deu início a uma série de batidas em seis casas por volta das 6h30 da manhã, chamando o exército para ajudar a executar o que chamaram de explosão controlada, usando um dispositivo robótico para arrombar uma casa.

Os bairros são compostos de casas geminadas humildes de tijolos vermelhos com antenas parabólicas parafusadas nas paredes. Centenas de moradores foram evacuados, aparentemente por medo de explosões nas casas revistadas, e a polícia disse que "quantidades significativas" de explosivos foram encontradas.

Em Luton, a polícia realizou várias explosões controladas após isolar a estação de trem e o estacionamento onde encontraram o que descreveram como sendo um carro suspeito. Autoridades disseram posteriormente que acreditavam que o carro continha explosivos.

Um alto investigador de contraterrorismo europeu, que está trabalhando estreitamente com seus pares no Reino Unido, disse que a Scotland Yard agora acredita que pelo menos três dos terroristas morreram nos ataques. Mas o investigador alertou que isso ainda não foi provado de forma conclusiva. Um quarto terrorista continua desaparecido, acrescentou o investigador.

Na manhã de terça-feira, a polícia revistou a casa em West Yorkshire de um dos homens desaparecidos, Shehzad Tanweer, de 22 anos. Seus amigos disseram que ele está listado como desaparecido desde quinta-feira.

A polícia disse em uma coletiva de imprensa que os pais de um dos terroristas, presumivelmente Tanweer, telefonaram para a polícia logo após às 10 da manhã de quinta-feira para informar seu desaparecimento --minutos após a última explosão em Londres, em um dos ônibus vermelhos de dois andares da cidade, a 290 km ao sul.

Os vizinhos, que falaram na condição de anonimato porque não querem chamar atenção para si mesmos durante um momento de tensão, disse que Tanweer trabalhou na loja de fast-food da família vendendo peixe e batata frita. "Quando ele tinha 15 ou 16 anos, ele se tornou religioso, e começou a rezar cinco vezes por dia", disse uma mulher.

Os vizinhos disseram que Tanweer freqüentou duas escolas locais e era conhecido como um jogador de futebol e críquete. "É difícil ser mais britânico", disse uma das duas mulheres que se descreveram como vizinhas.

Funcionários de contraterrorismo disseram que o telefonema dos pais preocupados com o paradeiro do filho foi uma pista importante, ajudando a Scotland Yard a encontrar as imagens de vídeo dos quatro terroristas e levando a polícia a realizar as seis buscas na área de Leeds, na terça-feira.

Desde os ataques, a investigação da polícia parecia estar se movendo de forma lenta, possivelmente até de forma trôpega, com apenas alguns fragmentos de informação divulgados publicamente. A polícia foi forçada a rever seu anúncio público inicial de que 27 minutos separaram a explosão da primeira bomba da terceira no metrô, dizendo que na verdade elas foram separadas por apenas 45 segundos.

Até terça-feira, a polícia parecia evitar qualquer sugestão de que os agressores poderiam ser homens-bomba suicidas --uma idéia que certamente aumentaria a apreensão entre os britânicos, acostumados a perceber tais ataques como um fenômeno do Oriente Médio ou do Iraque.

Em Madri, em março de 2004, quando 191 pessoas morreram em ataques na hora do rush do sistema de transporte, como os de Londres, os terroristas detonaram as bombas à distância. Ataques anteriores por separatistas bascos na Espanha ou pelo Exército Republicano Irlandês em Londres freqüentemente incluíam um alerta codificado antecipado.

Em Casablanca, em maio de 2003, 14 marroquinos executaram um ataque a bomba suicida altamente coordenado em cinco locais diferentes, que matou 41 pessoas, incluindo 13 terroristas. Um dos homens-bomba acabou perdendo a coragem, e alguns investigadores se perguntavam na noite de terça-feira se o homem que explodiu a si mesmo no ônibus de Londres também teria fugido da operação planejada.

Várias testemunhas disseram que o homem no ônibus Nº 30 parecia agitado enquanto mexia em sua mochila momentos antes da explosão da bomba, cerca de 57 minutos depois das outras três bombas terem explodido no metrô de Londres.

Clarke, um vice-assistente do comissário de polícia da Scotland Yard, deu o relato mais detalhado de como os quatro suspeitos viajaram juntos para Londres e se reuniram primeiro na estação de King's Cross, onde foram filmados juntos pelas câmeras de circuito fechado de TV. Isso ocorreu aparentemente antes de partirem em suas missões separadas.

Clarke disse que a investigação está avançando em alta velocidade e disse que a polícia precisa concluir a perícia no metrô de Londres e nas casas revistadas na terça-feira em Leeds.

Uma área de investigação é se os quatro terroristas tiveram alguma ajuda de forasteiros altamente treinados.

Clarke disse que as batidas na área de Leeds foram direcionadas aos endereços de três dos quatro suspeitos de terem realizado os ataques.

"Nós sabemos que todos os quatro chegaram a Londres de trem na manhã de 7 de julho", disse ele. "Nós os identificamos as imagens do circuito fechado de TV que mostram os quatro homens na estação de King's Cross, pouco antes das 8h30 da manhã de 7 de julho."

Os investigadores disseram que analisaram mais de 2.500 fitas de circuito fechado de TV desde os atentados de quinta-feira, assim como várias centenas de depoimentos de testemunhas, e receberam mais de mil pistas da população.

As imagens de vídeo de King's Cross colocam os homens na estação apenas 20 minutos antes das explosões quase sincronizadas atingirem os trens de metrô em três locais entre King's Cross e Russell Square, no túnel profundo da linha Piccadilly e em dois locais na mais superficial linha circular, a primeira entre as estações de Liverpool Street e Aldgate e o segundo em Edgware Road. O ônibus explodiu em Tavistock Square, não longe da estação Russell Square.

Clarke disse que pertences dos homens foram encontrados nos locais.

"Nós já encontramos documentos pessoais com os nomes de três dos quatro homens perto dos assentos de três das explosões", disse ele, referindo-se aos atentados no metrô. Ele disse que pertences do quarto homem "foram encontrados nas bombas de Aldgate e Edgware Road". Esses dois locais estão situados em partes diferentes do centro de Londres.

Este não seria o primeiro envolvimento de britânicos em planos de atentados terroristas suicidas. Richard C. Reid, o chamado homem do sapato-bomba, tentou explodir um vôo de Paris aos Estados Unidos em dezembro de 2001. Dois britânicos com explosivos amarrados em seus corpos atacaram um clube noturno em Tel Aviv, em abril de 2003.

Inicialmente, várias autoridades britânicas disseram aos seus pares europeus que acreditavam que provavelmente a célula dormente de terroristas tinha se originado dentro do Reino Unido. Essa teoria se baseava no fato de os investigadores saberem há muito tempo da existência de várias centenas de simpatizantes da Al-Qaeda. Os investigadores também sabiam que nenhum dos extremistas conhecidos, que estão atualmente sob vigilância, tinha participado dos ataques.

As autoridades disseram que as bombas foram feitas com menos de 4,5 kg de altos explosivos militares. Devido à qualidade dos explosivos, a Scotland Yard está tentando determinar se os terroristas tiveram ajuda, seja na montagem das bombas ou na obtenção do material para construí-las, disseram as autoridades. Uma possibilidade é que a ajuda pode ter vindo de fora do país, disseram os investigadores na noite de terça-feira.

O carro encontrado em Luton pode ter sido usado pelos quatro homens antes de terem tomado o trem para Londres. Também é possível que os três terroristas de West Yorkshire se encontraram com o quarto homem em Luton, uma cidade operária que é lar de uma comunidade muçulmana fechada desde os anos 60.

A polícia disse que eles pegaram um segundo carro envolvido na investigação em Leighton Buzzard, a cerca de 80 km ao norte de Londres.

A polícia britânica planeja interrogar Zeeshan Haider, 25 anos, um britânico preso em maio perto de Peshawar, na turbulenta província da fronteira noroeste, onde está detido pelas autoridades paquistanesas, segundo autoridades de contraterrorismo.

Dois grupos separados alegando filiação à Al-Qaeda assumiram a responsabilidade pelos ataques, causando preocupação entre as autoridades britânicas de que os muçulmanos possam ser alvo da ataques vingativos.

O segundo grupo a reivindicar responsabilidade, as Brigadas de Abu Hafs Al Misri, postou uma mensagem em 29 de maio em um site islamita que pedia às células dormentes na Europa que realizassem os ataques planejados. "Nós pedimos a todos os mujahedeen que aguardam, onde quer que estejam, que executem os ataques planejados", disse a mensagem.

Um motivo para os ataques, disse a mensagem, era a suposta profanação do Alcorão na prisão militar americana em Guantánamo, Cuba, onde mais de 500 combatentes inimigos estão detidos.

(Contribuíram para a reportagem Jonathan Allen, em Leeds, Stephen Grey, em Londres, Heather Timmons, em Luton, e Elaine Sciolino, em Paris) Um terrorista foi encontrado nos destroços causados pelas explosões, que podem ser o primeiro atentado suicida da história do Reino Unido George El Khouri Andolfato

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