UOL Notícias Internacional
 

14/07/2005

Aumenta o papel de avós como fonte de estabilidade financeira da família

The New York Times
Tamar Lewin
Quando voltou para casa, depois de um acampamento escolar de três dias no último inverno, Schuyler Duffy, que cursa o ensino médio no Seminário Friends, disse aos pais que tinha gostado muito. Ele aproveitou para agradecer pela escola particular de Manhattan.

Os pais, porém, lembraram-no que quem merecia os agradecimentos eram seus avós.

"Queremos que Schuyler entenda que, se meu pai não tivesse pagando a escola, provavelmente não conseguiríamos pagar", disse sua mãe, Christine Wade.

Os avós de Schuyler, que moram em Oakland, Califórnia, facilitam a vida do neto de várias formas, pagando pelo curso de francês durante o verão na Nova Escócia e ajudando com a compra de um apartamento, quando sua família foi despejada de um apartamento em Tribeca.

Na última década, tornou-se comum os avós criarem milhões de crianças americanas cujos pais se perderam com as drogas, doenças mentais ou prisão. O que é menos conhecido --e menos estudado-- é que até quando os pais estão presentes e operantes, os avós estão tendo papéis importantes nas vidas dos netos. Alguns, como os pais de Wade, cobrem os custos escolares e prestações imobiliárias. Outros pagam por colônias de férias e aparelhos dentários. Alguns cuidam das crianças um dia ou mais por semana, já que é mais comum as mães trabalharem fora.

Para muitas famílias americanas, hoje há mais ajuda entre as gerações. "Há 30 ou 40 anos, o dinheiro subia: você ajudava seus avós, comprava coisas para eles, eles iam morar com você. Hoje, porém, todo o dinheiro desce. A maior parte dos idosos hoje estão em melhor situação do que imaginavam, com a subida do mercado de ações nos anos 90, o valor crescente dos imóveis e as mudanças na segurança social. Enquanto isso, seus filhos estão piores do que pensavam. Então os avós ajudam", disse Timothy M. Smeeding, professor de política pública a Universidade de Syracuse.

Vern Bengtson, sociólogo e gerontologista da Universidade da Califórnia do Sul, diz que o envolvimento crescente dos avós tem sido uma mudança tão dramática na vida familiar americana em relação à degradação do núcleo familiar. Enquanto os sociólogos em recentes décadas lamentaram o alto nível de divórcio e a porcentagem de filhos nascidos de mães solteiras, a maior parte não percebeu a emergência dos avós como recurso importante para o apoio da família e estabilidade financeira, disse Bengtson.

"Para muitos americanos, os laços de várias gerações estão se tornando mais importantes para o bem-estar do que o núcleo familiar", disse ele.

Evidentemente, não há nada de novo em avós ajudarem a sustentar as famílias de seus filhos; de uma forma ou de outra, eles sempre colaboraram. Mas, com as mudanças demográficas e as modificações nos caminhos de vida dos mais velhos e seus filhos adultos, a influência dos avós cresceu.

Como a cultura americana coloca tanta ênfase na independência, muitas pessoas expressam desconforto ao discutir a ajuda dada ou recebida. Em dezenas de entrevistas, os avós disseram que não queriam que seus nomes fossem usados, porque temiam que isso incomodasse seus filhos ou porque não queriam que seus netos soubessem o que estavam pagando.

"Você terá que perguntar a meu filho se ele se sentiria à vontade com isso nos jornais", disse uma avó de Manhattan, entrevistada no programa de terceira idade da 92nd Street.

Seu filho disse que não; como muitos na geração do meio, ele não quis que todos soubessem que não era o único provedor da família.

O assunto quase tabu indica que há uma lacuna cultural, disse Bengtson, quando as normas e atitudes ficam distantes do que de fato está acontecendo.

A própria presença dos avós nas vidas dos netos é muito mais comum do que costumava ser. A probabilidade de uma pessoa de 20 anos hoje ter uma avó viva (91%) é mais alta do que era de uma pessoa de 20 anos ter sua mãe viva (83%) em 1900, de acordo com uma análise de Peter R. Uhlenberg, professor da Universidade da Carolina do Norte. E, quase 40 anos atrás, 29% dos americanos com mais de 65 anos vivia abaixo da linha da pobreza; em 2003 a pobreza entre os idosos declinou em quase dois terços. O índice de pobreza infantil, por outro lado, continua inalterado, em 18%.

Ao mesmo tempo, essa geração de 20 e 30 e poucos anos está demorando mais a atingir a auto-suficiência do que seus antecessores, levando mais tempo para terminar seus estudos e estabelecer uma carreira que sustente uma família.

"Nossa cultura mudou. Hoje, a educação custa tão caro e é tão longa que esse fenômeno de dependência financeira dura muito mais", disse Bengtson, que é avô e vai a Santa Barbara toda semana passar um ou dois dias com sua neta de um ano, Zoe Paloma Lozano.

Bengtson pôde medir o aumento do envolvimento dos avós entre seus alunos universitários. Há 20 anos que ele distribui um questionário entre os alunos sobre como estão custeando seus estudos; nos últimos poucos anos, as contribuições dos avós chegaram ao terceiro lugar, ultrapassando o trabalho e o empréstimo, depois de ajuda dos pais e bolsas.

Com a anuidade próxima de US$ 30 mil (cerca de R$ 72 mil) por ano, muitas escolas particulares de Manhattan também observaram o aumento do apoio dos avós. Na Trevor Day School, Donald D. Mordecai, diretor de finanças e operações, disse que a escola estava recebendo mais cheques de avós nos últimos anos.

"Diria que nos últimos três anos, com o aumento das anuidades, começamos a ver mais avós mandando cheques", disse Mordecai. "Talvez 15% a 20% das crianças, especialmente as mais jovens, têm suas escolas pagas pelos avós."

Para os mais ricos, os pagamentos das anuidades podem ser um bom instrumento de planejamento. Sob os planos chamados 529, Martin L. Greenberg, contador da Rosen, Seymour, Shapss, Martin & Co., disse que um avô pode doar entre US$ 55 mil e US$ 110 mil (entre R$ 132 mil e R$ 264 mil) para um casal para pagar a escola de um neto sem gerar imposto sobre doação. Não importa qual a quantia, a anuidade escolar paga diretamente à escola não conta como doação. "Meu pai paga a escola das meninas, e sou eternamente agradecida. Acho que isso é incrivelmente comum. Você tem todas essas pessoas que cresceram em Nova York quando não era tão ridiculamente caro, e agora estão em carreiras nas artes ou organizações sem fins lucrativos, que não pagam muito, e não podem dar aos filhos o tipo de vida que tiveram, sem alguma ajuda", disse Sunny Bates, que tem uma filha na Dalton School em Manhattan e outra que vai entrar neste ano.

Nas duas gerações, alguns dos entrevistados confessaram certa infelicidade com a situação. Poucos avós admitiram sentir que sua ajuda financeira tinha estragado seus filhos e os deixado com uma noção absurda de que é seu direito.

"Estou ouvindo falar mais sobre meu neto, e sei que é porque eles vão me pedir para pagar sua faculdade", disse uma avó de Manhattan, cansada. "Vou pagar, como sempre. Fiz tudo por eles. Mas não acho que foi tão bom para eles."

Alguns filhos adultos também podem se sentir invadidos quando uma avó que vem cuidar do bebê dois dias por semana critica a educação que a mãe está dando ou quando os avós que pagam a prestação da casa dão sugestões obrigatórias de como decorar o apartamento.

"Pego o dinheiro, sou agradecida, mas sinto que isso me mantém sob o seu domínio, de uma forma que não é legal. Fica difícil dizer não quando eles querem vir nos visitar ou pedem alguma coisa. De alguma forma, eles mandam em nossas vidas", disse uma mulher cujos sogros pagam a escola de seu filho de 10 anos, além da colônia de férias e de aulas particulares.

Mesmo assim, em muitas famílias, os avós são o ingrediente secreto que faz a diferença entre uma vida de dificuldades e uma vida relativamente fácil.

No ano passado, em um site da Web da Berkeley Parents Network, uma mãe perguntou por que o salário de seu marido de US$ 80 mil (cerca de R$ 192 mil) não parecia suficiente para ter o tipo de vida que seus vizinhos tinham. "De onde vocês estão tirando tanto dinheiro??" perguntou.

"Pergunta interessante que me fiz muitas, muitas vezes", disse uma das repostas. "O que todos que conheço estão fazendo [para ter carros bons, casas caras, férias, melhores escolas etc.] é usar o dinheiro dos pais e avós. A entrada para o imóvel vem da vovó e vovô, assim como a escola das crianças. Quando entendi isso [porque uns amigos deixaram escapar], tudo passou a fazer mais sentido para mim."

Em Nova York, Sid Whelan e Lisa Waller e suas filhas, Genevieve, 6, e Gabrielle, 2, recebem diferentes tipos de ajuda --dos quatro avós.

Os pais de Waller, George e Lula Nunley, mudaram-se de Chicago para Nova York pouco depois do nascimento de Genevieve. Em princípio, os Nunley tinham seu apartamento próprio, no mesmo prédio que a família Whelan/Waller. Mas havia um fluxo constante entre os apartamentos, então Whelan, agente imobiliário e músico, sugeriu que comprassem uma casa no Harlem grande o suficiente para todos.

Os pais de Whelam, que são divorciados, ajudaram na compra.

"Meus pais nos deram um empréstimo", disse Whelan. "Eles ajudaram com a escola e as lições de música." Os pais de Waller, que mantiveram sua casa em Chicago para as férias, hoje moram no andar de cima, junto com o filho, Steven. De todos os ângulos, a situação funciona bem.

"Obviamente, no fundo, sinto que deveria ser capaz de fazer tudo sozinho", diz Whelan, "e às vezes me sinto culpado por ter ajuda demais. Mas, ao mesmo tempo, acho que é tão bom para as crianças conhecerem os avós e saberem o que estão fazendo por elas". Aumento do valor imobiliário e a reforma previdenciária aumentam o poder aquisitivo dos idosos, enquanto a nova geração demora cada vez mais para ser auto-suficiente Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h59

    0,40
    3,159
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h04

    -0,45
    68.285,16
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host