UOL Notícias Internacional
 

14/07/2005

Polícia britânica busca homem treinado em explosivos

The New York Times
Alan Cowell,
Em Londres
Os investigadores britânicos montaram uma busca mundial por um homem visto em um vídeo com os quatro suspeitos de serem homens-bomba na manhã de quinta-feira passada, na estação de trem de Luton, informou uma autoridade americana nesta quarta. Os quatro suspeitos de terrorismo são vistos no circuito fechado de TV partindo de trem para Londres, mas o quinto homem, suspeito de ser o fabricante das bombas, fica para trás.

Os investigadores disseram que o homem é um cidadão britânico, assim como os quatro suspeitos de terrorismo. Apesar de não ser "anglo", ele não é de descendência paquistanesa, disse uma autoridade americana, que falou na condição de anonimato para não passar por cima do Reino Unido no caso em que os dois países estão cooperando. A autoridade acrescentou que os investigadores da polícia britânica sabem o nome do homem, mas decidiram não divulgá-lo e nem sua imagem.

Esse quinto é suspeito de ser o líder e possivelmente o fabricante das bombas usadas nos ataques ao metrô de Londres e a um ônibus de dois andares, que mataram pelo menos 52 pessoas, disse a autoridade americana. Os investigadores o descreveram como uma pessoa altamente treinada.

Na quarta-feira, várias autoridades americanas identificaram um dos supostos homens-bomba como um britânico nascido na Jamaica chamado Lindsey Germaine. Os outros suspeitos seriam descendentes de paquistaneses e viveriam em bairros operários de Leeds.

Na noite de quarta, a polícia britânica disse que as autoridades revistaram uma casa em Aylesbury, a 64 km a noroeste de Londres e perto de Luton, mas não disse se alguém foi preso.

Os desdobramentos ocorreram enquanto Charles Clarke, ministro do Interior, apresentava os primeiros indícios oficiais de que as autoridades britânicas acreditam que os quatro agressores eram homens-bomba suicidas.

Para os britânicos, os ataques representam o primeiro ataque suicida cometido por terroristas nascidos no Reino Unido, aparentemente oriundos da massa de muçulmanos descontentes e aparentando imitar os ataques que a maioria dos britânicos vê apenas no Iraque ou em Israel pela TV.

Segundo relatos da polícia, os quatro homens, com idades entre 18 e 30, reuniram-se na estação de King's Cross, no coração do sistema metroviário de Londres e se espalharam dali, detonando os explosivos em três trens e, quase uma hora depois, a bordo do ônibus Nº 30.

Uma teoria é que os homens visavam atacar as quatro direções da bússola das linhas do metrô, mas foram atrapalhados pelos atrasos na linha norte. As três bombas no metrô explodiram ao sul, leste e oeste de King's Cross.

"Nós não estamos lidando com um ato criminoso isolado", disse o primeiro-ministro Tony Blair ao Parlamento. "É uma ideologia extremista e maligna cujas raízes se encontram em uma interpretação errônea, pervertida e venenosa da religião do Islã."

Blair disse que seu Partido Trabalhista planeja abrir negociações com outros partidos para novas leis antiterror.

"Nós analisaremos urgentemente como fortalecer os procedimentos para impedir a entrada no Reino Unido de pessoas que possam incitar o ódio ou agir de forma contrária ao bem público e como deportar tais pessoas mais facilmente, caso venham para cá", disse Blair.

Muçulmanos e cristãos recuaram diante da noção de que os suspeitos do terrorismo saíram dentre os 1,6 milhão de muçulmanos do Reino Unido, que correspondem a cerca de 3% da população.

"O que sabemos agora é estarrecedor de contemplar", disse Michael Howard, o líder da oposição conservadora. "Levará muito tempo para entendermos o fato de que tais atrocidades parecem ter sido cometidas por aqueles que nasceram e foram criados entre nós."

Mohammed Sarwar, o membro trabalhista e muçulmano do Parlamento, disse: "nós estamos profundamente chocados por terem sido terroristas nascidos aqui, e a vasta maioria da comunidade muçulmana condena esses ataques bárbaros".

Os investigadores disseram que as autoridades estão preocupadas de que, apesar das batidas de sexta-feira em seis casas na área de Leeds e da apreensão de um carro cheio de explosivos em Luton, alguns dos altos explosivos usados no ataque podem não ter sido encontrados. A polícia disse na terça que apreendeu explosivos em uma das casas de Leeds e na noite de quarta levantou andaimes e cobertura de plástico em torno de todas as seis e não permitiu que centenas de moradores voltassem para as casas próximas.

Os investigadores, que falaram na condição de anonimato porque não são autorizados oficialmente a conversar com a imprensa, disseram ser preocupante o fato de os terroristas de Londres terem tido acesso a explosivos tão poderosos, possivelmente explosivos plásticos altamente sofisticados vindos dos Bálcãs.

Os investigadores estavam tentando urgentemente descobrir se os terroristas tiveram contato com agentes da Al-Qaeda, possivelmente no Norte da África.

Desde os atentados, a polícia deu a impressão de que os terroristas eram o que Clarke referiu-se na quarta-feira como sendo "soldados de infantaria", cujo anonimato ajudou a escaparem da rede de serviços de segurança.

Mas, após uma reunião de ministros do Interior da União Européia em Bruxelas, o francês Nicholas Sarkozy disse: "parece que parte dessa equipe foi sujeita a prisão parcial" na primavera de 2004. Clarke negou que qualquer um dos homens-bomba foi preso e libertado.

Os assessores de Sarkozy se esforçaram posteriormente para dizer que ele estava se referindo às prisões entre o movimento islâmico mais amplo, não aos terroristas de Londres.

Antes da reunião, Clarke disse que as nações européias precisam defender os valores da sociedade "contra aqueles que querem destruí-la".

Sem usar o termo "homem-bomba suicida", ele disse: "isso significa nos levantarmos contra, de maneira muito forte, qualquer um que pregue o tipo de fundamentalismo, como eu digo, que pode levar quatro jovens a explodirem a si mesmos e outros no metrô em uma manhã de quinta-feira".

"Nós precisamos extirpar os elementos de dentro de nossa comunidade que desejam destruí-la. Isso coloca fardos diferentes sobre todos nós."

"Nós temos que entender", ele continuou, "que aqueles soldados de infantaria que fizeram isso são apenas um elemento de uma organização que está provocando esse tipo de caos em nossa sociedade".

"E nós temos que atacar as pessoas que estão guiando, organizando, manipulando essas pessoas."

O ministro do Interior do Paquistão, Aftab Ahmed Khan Sheparo, disse na quarta que seu país deu "informação" para o Reino Unido sobre um possível ataque antes das eleições britânicas em maio, mas não elaborou.

Com ministros de governo alertando para a possibilidade de mais terroristas estarem à solta, muitos britânicos demonstraram estoicismo, apesar da onda de alarmes falsos por toda a capital, enquanto a polícia investigava pacotes aparentemente suspeitos.

"Agora prefiro pegar um ônibus em vez do metrô, a menos que esteja desesperadamente com pressa", disse David Ellis, 45 anos, um funcionário de escritório que aguardava na estação de metrô de Saint James Park. "Provavelmente daqui pouco tempo esquecerei isso. Pode soar terrível, mas você precisa seguir com a vida."

Em programas de rádio e e-mails para canais de TV, os britânicos pareciam confusos --e incomodados-- com as causas do ataque. Alguns expressaram frustração com a aliança estreita do governo com os Estados Unidos e sua campanha contra o terrorismo, que levou a duas guerras.

"Nós temos que olhar para o raciocínio por trás dessas coisas", disse Saraj Qazi, 25 anos, uma muçulmana dona de butique em Luton, ao norte de Londres, onde a polícia disse que os terroristas se reuniram para sua última jornada à capital britânica em 7 de julho.

"Não há como negar que é um troco pelo que aconteceu no Iraque e no Afeganistão", disse ela. "Você tem bombardeado pessoas nos últimos dois a quatro anos, de forma que terá uma retribuição."

"A Inglaterra é um grande país, e nós a amamos, mas nós amamos esse governo? Não", disse Qazi. "Hoje morreram 24 muçulmanos no Iraque; morrerão mais nesta noite e mais amanhã."

A identificação dos agressores como sendo muçulmanos nascidos no Reino Unido aprofundou a ansiedade entre os líderes muçulmanos com a possibilidade de um revide. Já ocorreram incidentes de mesquitas sendo atacadas.

Blair, que se encontrou com os legisladores muçulmanos na quarta-feira, prometeu imediatamente "debater a forma certa de agir" com os líderes muçulmanos.

Mas, referindo-se ao extremismo islâmico, ele disse: "no final, isso só pode ser tratado e derrotado pela própria comunidade".

No Parlamento, Shahid Malik, um legislador trabalhista da mesma área de West Yorkshire que era lar dos terroristas, disse que a condenação dos extremistas "não foi suficiente e que os muçulmanos britânicos devem, acredito, estar preparados para confrontar as vozes do mal de frente".

A noção de leis antiterror mais draconianas levantou preocupações de que o Reino Unido abrirá mão de seu antigo compromisso com a tolerância e os direitos civis em nome de uma guerra contra o terror modelada segundo a dos Estados Unidos.

Mas Clarke, o ministro do Interior, argumentou que os direitos civis precisam ser pesados contra as necessidades da segurança.

"Eu argumento que é uma liberdade civil fundamental dos povos da Europa ser capaz de ir trabalhar em seu sistema de transporte pela manhã sem serem explodidos, estarem sujeitos a um ataque terrorista ou conduzirem suas vidas sem correr risco de sofrerem um crime sério e organizado", disse ele. "A questão das liberdades civis precisa ser tratada de forma proporcional."

(Colaboraram para a reportagem Helene Fouquet em Bruxelas; Douglas Jehl em Washington; Sara Lyall em Luton; William K. Rashbaum em Nova York; e Don Van Natta Jr., Pamela Kent e Stephen Grey, em Londres) Quinto suspeito dos atentados, que teria descendência paquistanesa, foi filmado por câmeras de estação de trem George El Khouri Andolfato

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