UOL Notícias Internacional
 

15/07/2005

Loja de classe alta se torna símbolo da desigualdade no Brasil

The New York Times
Todd Benson

Em São Paulo
Uma revista brasileira a saudou como sendo "a maior loja de alto consumo da América Latina". Os jornais locais a chamaram de "templo do luxo", "Disneylândia dos ricos" e "shopping-bunker".

O objeto do excesso é a Daslu, uma loja de departamentos de luxo que há muito tempo é a meca de São Paulo para os ricos e famosos. É nela que o astro brasileiro do futebol e louco por moda, Ronaldo, e supermodelos como Naomi Campbell e Gisele Bundchen, fazem compras quando visitam esta agitada área metropolitana de 17 milhões de habitantes, onde arranha-céus dão vista para favelas.

Mas a Daslu é mais do que apenas uma indulgência aos abastados. Desde que se mudou no mês passado para um novo prédio, altamente protegido, de US$ 50 milhões situado entre uma grande via e uma favela, ela se tornou um símbolo de consumo extravagante em um país que possui uma das maiores desigualdades de renda do mundo.

Apenas dias antes da Daslu se mudar para seu novo endereço, um estudo do governo disse que a desigualdade entre ricos e pobres no Brasil só perdia para a de Serra Leoa. O salário mínimo no Brasil é de US$ 125 por mês e quase um terço da população vive com menos de US$ 2 por dia.

O novo endereço da Daslu a tornou um estopim para um debate sobre as desigualdades sociais do Brasil. Na inauguração da loja em junho, os convidados consumiram 2.680 garrafas gratuitas de champanhe Veuve Clicquot, gerando dezenas de artigos e colunas de opinião sobre a Daslu na imprensa local -alguns a elogiando como um grande sucesso, outros a criticando como uma metáfora para as injustiças sociais do Brasil.

"Uma loja como esta é uma absoluta afronta em uma sociedade injusta como a nossa", disse Maria Luiza Marcílio, uma professora de história da Universidade de São Paulo que estuda as questões sociais do Brasil. "É revoltante ver os super-ricos gastando desta forma com pessoas vivendo ao lado na pobreza."

Duas semanas após a inauguração, cerca de 250 estudantes universitários protestaram contra a Daslu marchando de uma favela até os portões da butique, pedindo dinheiro quando os clientes entravam.

Na quarta-feira, na mais recente de uma série de operações policiais de destaque contra crimes de colarinho branco no Brasil, mais de uma centena de policiais armados com metralhadoras invadiram a Daslu e detiveram brevemente sua dona, Eliana Tranchesi, por suspeita de evasão fiscal. As autoridades alegaram que a butique foi responsável pela sonegação de pelo menos US$ 10 milhões em impostos ao longo dos últimos 10 meses, usando empresas falsas no exterior para subfaturar o valor de seus importados, uma acusação negada pelos advogados da Daslu.

Tranchesi, que foi liberada no mesmo dia e não foi formalmente acusada, não pôde ser contatada para comentários sobre as alegações.

Mas em uma entrevista dois dias antes da batida policial, ela defendeu a Daslu, que foi fundada em 1958 por sua mãe, Lúcia Piva de Albuquerque, a esposa de um advogado abastado que vendia roupas para suas amigas e doava parte dos lucros para caridade. A Daslu agora emprega perto de 1.000 pessoas, das quais 85% mulheres.

"Eu estou ciente dos problemas sociais deste país, mas nós estamos fazendo nossa parte gerando empregos para brasileiros e pagando impostos", disse Tranchesi, 49 anos, uma mãe divorciada de três filhos. "Eu não criei este mercado. Ele já existia."

Apesar da maioria dos brasileiros lutarem para viver com o que ganham, as classes endinheiradas do país estão entre as mais esbanjadoras do mundo. A classe alta do Brasil pode voar até Nova York ou Paris para um fim de semana de compras, às vezes seguida por paparazzi.

O Brasil tem um próspero mercado de bens de luxo de US$ 2,3 bilhões por ano - o maior na América Latina - que está crescendo cerca de 35% ao ano, segundo a MCF Fashion, uma firma de consultoria de São Paulo que atende varejistas de bens de luxo. São Paulo, a maior cidade do Brasil e sua capital financeira, representa mais de 75% deste mercado.

Em nenhum outro lugar a queda pela boa vida da elite brasileira está mais aparente do que na Daslu. Em seu novo endereço, um palácio italiano neoclássico de quatro andares e 20 mil metros quadrados que abriga 120 grifes, os clientes podem comprar de tudo, de um par de jeans Dolce & Gabbana por US$ 1.755 até uma Maserati conversível por US$ 306.250 - tudo enquanto bebem champanhe e uísque de graça. Como vários outros prédios em São Paulo, a loja tem heliporto no telhado que permite que sua clientela evite os notórios congestionamentos de trânsito da cidade e a criminalidade das ruas.

Dentro, os clientes são paparicados como realeza por um exército de vendedoras bronzeadas chamadas "Dasluzetes", que temperam suas conversas com frases em inglês, e serviçais silenciosas em uniformes pretos de criadas com gola e punhos brancos. Atendentes ajudam a carregar as sacolas de compras até o veículo do cliente ou ao helicóptero. Bares, cafés e lounges com sofás estão espalhados por toda a loja, fornecendo um ambiente aconchegante para que as socialites relaxem e conversem.

"O que é tão interessante na Daslu é que não se trata apenas de uma loja de luxo, mas de um fenômeno cultural", disse Carlos Ferreirinha, proprietário da MCF Fashion, a firma de consultoria. "É quase como um clube de elite onde um certo grupo de pessoas se reúne para compartilhar a mesma experiência."

"Eu não consigo pensar em qualquer outro lugar no mundo que seja comparável" , disse Ferreirinha, que já foi um alto executivo da Louis Vuitton na América Latina.

A obsessão da Daslu com o serviço impecável parece estar dando resultado. A clientela da loja é notavelmente fiel. Em média, os clientes voltam uma vez por semana para comprar em comparação a cada 21 dias em outros shoppings de classe alta daqui, segundo uma recente pesquisa.

Apesar da Daslu não divulgar dados financeiros, analistas de varejo estimam que ela tenha realizado mais de US$ 220 milhões em vendas no ano passado, quando ainda estava localizada em um espaço muito menor na Vila Nova Conceição, um bairro residencial perto do Parque do Ibirapuera, o principal de São Paulo.

A marca particular da loja, que representa 60% das vendas, também está pegando no exterior. Ansiosa para explorar a crescente popularidade da moda brasileira na Europa e nos Estados Unidos, a Daslu começou a se voltar para o mercado de exportação há três anos. Hoje, ela exporta para 60 lojas em 35 países, incluindo a Bergdorf Goodman e Scoop em Nova York.

Tranchesi está empolgada com o sucesso crescente da Daslu no exterior. Mas ela está ainda mais orgulhosa do que a loja realizou em casa, onde ela foi uma das primeiras a importar grifes como Chanel e Gucci quando o Brasil abriu sua economia para produtos estrangeiros no início dos anos 90.

"Desde cedo, eu percebi que minha vocação era a moda e o varejo de luxo, e foi o que busquei. Eu não deveria me sentir culpada por isto", disse ela. "Eu não estou roubando leite de crianças." George El Khouri Andolfato

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