UOL Notícias Internacional
 

17/07/2005

Adolescente gay provoca tempestade

The New York Times
Alex Williams

em Memphis, Tennessee
É o tipo de confissão que há uma década poderia ter sido escrita no diário de um adolescente e depois tranqüilamente guardada numa gaveta. "Pouco tempo atrás contei aos meus pais que eu era gay", escreveu um menino que se identificou somente como Zach, 16, do Tennessee, em sua página pessoal na web.

Ele continuou: "Não pegou muito bem" e "eles me disseram que há algo psicologicamente errado comigo, e que 'me criaram errado'". Mas o que chamou a atenção dos amigos de Zach, e depois de ativistas gays e cristãos fundamentalistas de todo o mundo que viram esse registro, feito em 29 de maio, não foi a intimidade da confissão.

Os adolescentes vêm-se revelando há anos na rede mundial, e muitos amigos de Zach já sabiam que ele era gay. Foi outra frase no blog: "Hoje minha mãe, meu pai e eu tivemos uma longa 'conversa' no meu quarto, na qual eles me informaram que eu devo me inscrever em um programa cristão fundamentalista para gays". "É como um campo de treinamento militar", Zach acrescentou no dia seguinte. "Se eu sair 'hetero', ficarei tão instável mentalmente e deprimido que não terá importância."

O acampamento em questão, Refuge, é um programa para jovens do Love in Action International, um grupo de Memphis que dirige um programa baseado na religião cujo objetivo é mudar a orientação sexual de homens e mulheres homossexuais. Muitas vezes chamados de terapia reparadora ou de conversão, esses programas se firmaram nos círculos cristãos fundamentalistas nos anos 70, quando as principais entidades psiquiátricas rejeitaram a antiga classificação da homossexualidade como distúrbio mental, e ganharam terreno rapidamente no final dos anos 90.

Programas como o Love in Action sempre foram polêmicos, mas as anotações de Zach chamaram ampla atenção para um aspecto menos conhecido deles: sua aplicação a adolescentes. Embora Zach tenha escrito apenas alguns registros sobre o programa do Refuge, todos publicados antes de ele chegar lá, num subúrbio de Memphis, em 6 de junho, suas palavras foram retransmitidas pela Internet, inspirando debates, reportagens, protestos de rua e uma investigação do Love in Action pelo Departamento de Serviços à Infância do Tennessee, depois de uma denúncia de abusos contra crianças.

A investigação foi abandonada quando a denúncia se mostrou infundada, disse uma porta-voz do órgão. Para alguns, Zach, cujo sobrenome não é revelado no blog e não apareceu em relatos na imprensa, é a personificação da vulnerabilidade adolescente gay, afastado dos amigos que o aceitavam por adultos que não o aceitam.

Para outros ele é um menino cuja identidade sexual confusa e em formação está sendo explorada por ativistas políticos gays. Em sua última entrada no blog antes de iniciar o programa, às 2:33 de 4 de junho, Zach escreveu: "Eu rezo para que isto exploda", acrescentando que se seus pais o apanhassem online ele teria problemas. O garoto descreveu discussões que havia tido com os pais, especialmente sua mãe. "Não consigo suportar isso", dizia sua anotação. "Ninguém consegue. Não sou um suicida. Acho isso idiota, na verdade. Mas não consigo evitar, não, não vou cometer suicídio, tudo em que consigo pensar é em matar minha mãe e a mim mesmo. É horrível".

O reverendo John J. Smid, diretor-executivo do Love in Action, não quis discutir os detalhes da experiência de Zach, citando as regras de confidencialidade do programa. Em uma entrevista no início do mês em sua sede, um prédio mal-conservado dos anos 60 que até recentemente foi uma igreja episcopal, Smid explicou que os participantes adolescentes do Love in Action são proibidos de falar com qualquer pessoa que o programa não aprove. Pedidos feitos através de Smid para entrevistar os pais de Zach foram recusados.

Fundado na Califórnia em 1973, o Love in Action se mudou para Memphis 11 anos atrás. É um dos 120 programas nacionais listados pela Exodus International, que se declara a maior rede de informação e referência do que é conhecido entre os cristãos fundamentalistas como movimento "ex-gay". Em 2003 o Love in Action lançou o primeiro programa especificamente estruturado para adolescentes, que teve a participação de 24 pessoas, disse Smid. As duas semanas iniciais custam US$ 2 mil, e muitos participantes ficam mais seis semanas, como Zach.

O objetivo do programa, segundo Smid, que disse que já foi gay mas hoje renuncia ao comportamento homossexual, não é necessariamente transformar os gays em heterossexuais praticantes, mas "colocar barreiras" em seus impulsos sexuais. "Na minha vida eu estou fora da homossexualidade há mais de 20 anos, e para mim é realmente uma questão vazia", disse Smid. "Eu posso ver um homem e pensar: ele é bonito, é atraente, e isso poderia tocar uma parte de mim que é diferente de outra pessoa", ele disse. "Mas realmente não é um problema. Puxa, estou casado há 16 anos e sou fiel no casamento em todos os sentidos. Quer dizer, acho que não conseguiria suportar tanto tempo de tensão."

Smid soube que um de seus participantes adolescentes era uma causa célebre quando manifestantes surgiram diante de seu quartel-general durante vários dias no início de junho, carregando placas que diziam "Isso é abuso infantil" e "Jesus não é desculpa para o ódio". Ele foi bombardeado por telefonemas da imprensa, segundo disse, assim como por cem mensagens de e-mail por dia de lugares tão distantes quanto a Noruega.

Os textos de Zach que apareceram em sua página em www.MySpace.com foram divulgados por um de seus conhecidos da rede, E.J. Friedman, um músico e escritor de Memphis que leu a anotação no blog de Zach em 29 de maio: "O mundo parou de repente". Friedman, 35, sentiu-se perturbado pelo que leu e enviou uma mensagem instantânea. "Eu disse: 'Você deveria fugir de casa. Existem pessoas que o ajudarão'", lembra Friedman. "Ele disse: 'Não posso fazer isso. Eu quero ter minha infância. Se precisar passar por isso para tê-la, passarei'." Friedman publicou em seu próprio blog uma mensagem revoltada sobre a futura internação de Zach no Refuge.

Os amigos de Friedman se interessaram pela história e começaram a divulgá-la em seus próprios blogs. Logo, um cineasta local, Morgan Jon Fox, que havia conhecido Zach através de amigos comuns, uniu-se aos outros para criar um grupo chamado Queer Action Coalition [Coalizão de Ação Gay], que organizou os protestos no Love in Action. "Queríamos demonstrar apoio", disse Fox, 26, que dirigiu um filme de ficção sobre adolescentes gays em 2003, filmado no colégio secundário White Station, onde Zach estuda. "Então a coisa explodiu."

Links para o site de Zach se espalharam pelo país. A página da web de Friedman teve tanto tráfego que "estourou minha banda", ele disse. Smid também foi inundado com tráfego na Internet, na maior parte de revolta contra as tentativas de mudar a orientação sexual de Zach. "De repente, 80 mil acessos da Internet em nosso site depois, o mundo decidiu que ele deve ser libertado", disse Smid. "Talvez ele não tenha pedido isso. Talvez realmente não tenha a personalidade de alguém que realmente vai conseguir enfrentar isso. Eles falam sobre nós termos abusado dele."

O programa da Love in Action tem semelhanças com os programas de recuperação em etapas. Os participantes, chamados de "clientes", estudam a Bíblia, se reúnem com conselheiros e fazem um "inventário moral", um diário em que explicam sua luta contra a tentação do mesmo sexo ao longo dos anos, que eles lêem em reuniões de grupo pouco emotivas, segundo antigos clientes. Jóias ou roupas da moda em excesso são proibidas, assim como assistir televisão, escutar música secular (até Bach) e ler livros ou revistas não aprovados.

"É como estar na prisão", disse Brandon Tidwell, 29, que terminou o programa para adultos em 2002 mas acabou rejeitando os ensinamentos e conciliou suas crenças cristãs com o fato de ser gay. O contato físico entre os clientes além de um aperto de mão é proibido, assim como conversas ou comportamentos "exagerados", segundo as regras do programa que Zach publicou em seu blog pouco antes de começar no Refuge.

De vez em quando, lembra Jeff Harwood, 41, que se formou no Love in Action e ainda se considera gay, alguns participantes zombavam dos jogos de futebol obrigatórios. "Você mal conseguia fazer um passe frouxo antes que outro cliente o agarrasse", ele disse, sentado em um sofá rasgado num café chamado Java Cabanas no bairro central de Memphis. Como os adolescentes voltam para casa à noite, ao contrário dos clientes adultos, os pais são solicitados a mantê-los afastados da televisão e, mais importante, do computador. Zach não atualizou seu blog desde que entrou no programa.

Para Smid e seus seguidores, oferecer o Love in Action aos adolescentes é vital para combater o que eles consideram uma crescente tolerância da homossexualidade entre os jovens. "Nós realmente acreditamos que a mensagem para os adolescentes em nossa cultura é: pratique o que você quiser, faça sexo como e quando e com quem quiser", ele disse. "Eu acredito profundamente que isso é prejudicial. Acho que explorar a sexualidade pode levar um adolescente a ter diversos problemas durante toda a vida."

Críticos de programas que tentam mudar a orientação sexual dizem que os próprios programas podem causar problemas duradouros em uma pessoa, incluindo culpa, vergonha e até impulsos suicidas. Os riscos são maiores para os adolescentes, que já lutam com profundas questões de identidade e sexualidade, dizem especialistas em saúde mental. "Suas identidades ainda estão fluidas", disse o dr. Jack Drescher, presidente do comitê sobre questões gays, lésbicas e bissexuais da Associação Psiquiátrica Americana, que em 2000 rejeitou formalmente regimes como terapia reparadora ou de conversão por não serem cientificamente comprovados. "Um risco sério que o pai deve considerar é que a maioria das pessoas que passam por esses tratamentos não muda. Isso significa que a maioria das pessoas que passam por essas experiências em geral sai delas sentindo-se pior do que quando entrou."

Duas semanas atrás o Departamento de Saúde do Tennessee mandou uma carta para o Love in Action dizendo que a associação era suspeita de oferecer serviços terapêuticos para os quais não era licenciada, disse uma porta-voz do departamento. Smid insistiu na entrevista que seu programa é um centro espiritual, e não de aconselhamento, e que ele está retirando de seu site as referências a terapia. Ele disse que não computa seu índice de sucesso. Harwood, que se formou no programa adulto em 1999, disse que de 11 colegas clientes que ele acompanhou oito voltaram a se considerar gays.

Embora os críticos digam que esses programas ameaçam a psique adolescente, pelo menos um adolescente que se considera um formando de sucesso discorda. "Em minha experiência, as pessoas que enfrentam sua sexualidade são mais maduras em geral", disse Ben Marshall, 18. Ele lembrou que se sentia num turbilhão, crescendo em uma família cristã conservadora em Mobile, Alabama. Em 2004 seus pais o mandaram para o Love in Action. "Eu fui para Memphis gritando e dando pontapés", ele disse. "Eu havia passado a odiar a igreja por causa da mensagem militante que ela transmitia contra a homossexualidade."

Enquanto esteve matriculado, ele passou dias escutando histórias de sofrimento que a homossexualidade tinha causado aos clientes e a suas famílias. Aos poucos sua atitude mudou, ele disse. Acabou decidindo continuar no programa adulto do Love in Action durante nove meses. Enquanto o programa tem um "alto índice de fracasso", segundo ele, "há casos suficientes de sucesso para saber que eu não sou o único".

Mas até os êxitos só ocorrem através de uma luta contínua. Embora ele pretenda sair com mulheres no futuro, Marshall disse que está evitando relacionamentos românticos por enquanto. "Com toda a honestidade, estou apenas tentando descobrir como lidar normalmente com os homens antes de começar a lidar com as mulheres", ele disse.

Os pais de Zach não responderam a um pedido para participar desta reportagem. Na semana passada o pai dele, falando à Rede de Emissoras Cristãs, disse: "Estamos contentes por Zach vir para cá. Para que ele veja por si mesmo o estilo de vida destrutivo que terá de enfrentar no futuro".

No caso de Zach não há indícios de que ele tivesse problemas especiais sobre sua identidade sexual. Embora seu colégio fique numa cidade do Cinturão da Bíblia, os alunos são bastante tolerantes com os colegas homossexuais, segundo alguns estudantes, particularmente aqueles que, como Zach, não chamam atenção para sua tendência.

"Digam que sou estereotipado, se tiverem coragem", foi o lema que Zach escolheu para seu blog, onde ele cita "Edward Mãos de Tesoura" e "Garota Interrompida" como seus filmes preferidos e Brandon Flowers, o vocalista da banda de rock alternativo Killers, como a pessoa que ele mais gostaria de conhecer.

Como conta seu blog, enquanto Zach só se assumiu diante dos pais recentemente, muitos de seus amigos sabiam que ele era gay há mais de um ano, disse um colega. Zach abertamente se identificava como gay em seu blog, que tem links para 213 blogs de amigos listados em uma caixa Espaço dos Amigos no site. Zach deverá sair do programa na próxima semana.

Sua mensagem de 4 de junho expressava agradecimento pelas mais de 1.700 mensagens que recebeu em sua página, muitas delas de apoio. "Não se preocupem", ele escreveu. "Vou superar isto. Eles me prometeram que as coisas vão melhorar, quer esse programa tenha algum efeito ou não. Só espero que eles não estejam mentindo." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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