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17/07/2005

Museus estão colocando tudo à venda, de suas obras de arte até sua autoridade

The New York Times
Michael Kimmelman

em Nova York
O que é notável na exposição do rei Tut no Museu de Arte do Condado de Los Angeles, para a qual o museu na prática vendeu seu bom nome e espaço de galeria para uma empresa com fins lucrativos, é as pessoas ainda considerarem este arranjo chocante.

Ultrajante? Certamente. É uma abdicação de responsabilidade, integridade e padrões. Mas está se tornando a norma.

O dinheiro manda. Sempre mandou, é claro. Mas nas instituições culturais de hoje, ele parece cada vez mais estar corrompendo a ética e minando as metas fundamentais como a preservação das coleções e a defesa do interesse público. Os curadores não estão mais tomando decisões. Colecionadores ricos, diretores míopes e interesses comerciais externos estão. Quando a Biblioteca Pública de Nova York negociou um dos grandes tesouros cívicos da cidade, "Kindred Spirits" de Asher B. Durand, em um leilão fechado por US$ 35 milhões, os curadores da biblioteca só souberam da venda horas antes do público ler a respeito no jornal.

Enquanto isso, o Museu do Condado de Los Angeles entrou em um arranjo ainda mais problemático do que o da exposição do Rei Tut. Tut, afinal, veio e irá embora. Mas o museu está fazendo planos mais duradouros com o bilionário e colecionador de arte contemporânea Eli Broad, permitindo que construa um museu que possa supervisionar, com seu nome nele, em propriedade do museu - em terreno público, isento de impostos. O condado de Los Angeles então pagará para mantê-lo.

A aposta é que algum dia o museu herdará as obras de arte. "Por que eu gastaria cerca de US$ 60 milhões se minha coleção fosse para outro lugar?", ele perguntou para a repórter do "The New York Times", Susan Freudenheim, antes de acrescentar: "Não há promessas". Quando correu a notícia no mundo das artes, nesta primavera, de que Broad estava considerando seus próprios candidatos para a posição de vice-diretor para arte contemporânea, Andrea L. Rich, a diretora do museu, anunciou que estava se aposentando.

Eu acho que o termo de negócios mais adequado é "leveraged buyout" ("aquisição alavancada").

Negócios também estão por trás do aluguel pelo Museu de Belas Artes de Boston de pinturas impressionistas para a Academia Real de Londres e para uma subsidiária de uma galeria comercial, PaceWildenstein, que tem uma filial no Bellagio Hotel and Casino em Las Vegas.

O arranjo pode parecer uma forma inofensiva de gerar renda. Mas o aluguel é complicado. Toda vez que uma obra de arte cai na estrada, há uma chance dela ser danificada ou perdida. Como guardiões de tesouros públicos, os museus deveriam decidir que exposições valem a pena o risco - com base em conhecimento público, não lucro a curto prazo. Ao menos este é o princípio.

O modelo também depende da noção de benevolência coletiva. Os museus e bibliotecas compartilham coleções e conhecimento porque, no final, o público é dono da arte e paga pelo conhecimento. No mundo real, os museus e bibliotecas mais ricos comandam os melhores empréstimos e termos mais rígidos, e troca de favores (viagens, bens e serviços de curadoria). Mas compartilhar, para o fim de desenvolvimento cultural mútuo, continua sendo a meta.

O dinheiro altera a equação. No ano passado, Boston alugou 21 Monets para o Bellagio. Agora está alugando arte para uma exposição em Londres e também para outra exposição no Bellagio, "A Paisagem Impressionista de Corot a Van Gogh", administrada pela PaceWildenstein. Ingresso: US$ 15 (que, se você olhar pelo lado positivo, é metade do valor do ingresso para a exposição do rei Tut). Quando as coleções se tornam ativos, passar do aluguel para a venda é um passo curto. Não se trata de descartar um pouco de detrito, mas remover das coleções quadros multimilionários para capitalizar em um mercado aquecido, como os porta-estandartes estão fazendo no momento.

Apesar da tempestade em torno de "Kindred Spirits", a Biblioteca Pública está se preparando para leiloar mais obras de sua coleção de arte americana neste outono, incluindo pinturas de Gilbert Stuart. E o Museu de Arte Moderna (MoMA) de Nova York vendeu, entre outras coisas, um Picasso, um De Chirico, um De Kooning e um Pollock, artistas com os quais tem um compromisso histórico. No mês passado, ele causou espanto ao dispensar uma paisagem do de US$ 5,4 milhões de Henri-Edmond Cross, o pintor francês do século 19 e colega de Seurat e Signac.

O diretor do museu, Glenn D. Lowry, explicou que Cross (diferente de Picasso e Pollock?) não era um artista com o qual o museu tinha algum compromisso em particular, e ele disse que o quadro nunca foi exibido, como se gostos futuros fossem previsíveis. Isto após o MoMA ter justificado seu novo prédio (ingresso: US$ 20) dizendo que fornecia mais espaço para exibir uma maior variedade de arte.

O Museu de Arte Moderna e a Biblioteca Pública apontam que vendem para poder comprar - para atualizar suas coleções. Talvez. Mas museus cometeram erros no passado, os gostos mudam e o que parece irrelevante em um momento se torna desejável em outro. Além disso, quando as coleções se tornam fungíveis, seus membros do conselho podem não mais se sentir compelidos a levantar dinheiro eles próprios.

Boston e Los Angeles dizem que as exposições em Vegas e a exposição do rei Tut dão às pessoas comuns uma chance de ver o que caso contrário não poderiam. É um argumento pão e circo, que também ignora o ponto maior: quem controla a propriedade pública? Uma corrosão constante da fé na integridade das instituições será o preço de longo prazo para os negócios de curto prazo.

Com a fé desaparece o ecossistema delicado das contribuições de caridade e dos privilégios de isenção de impostos. Por que, perguntará o público, instituições como estas podem colher os benefícios do status de serem sem fins lucrativos se atendem interesses privados que moldam o conteúdo do que está em exposição e/ou colhem recompensas em dinheiro?

Broad pode continuar comprando e vendendo seus próprios quadros enquanto estes ganham o prestígio devido à associação com o museu. Com Tut, é difícil dizer o que é pior: o museu ter concordado em ceder a autoridade de curadoria sobre uma exposição em suas próprias galerias ou não estar ganhando muito dinheiro em troca. Esta é "a forma como o negócio está estruturado", Rich informou ao "Los Angeles Times".

O que o museu espera é ganhar novos membros. Mas o ingresso de novos membros, ocasionado por exposições de sucesso ou pela abertura de novos prédios, é notoriamente volúvel. Ele evapora assim que o evento que o provocou passa. É outro caso de pensamento fiscal de curto prazo.

Esta é a mentalidade de relatórios trimestrais de lucros de Wall Street e a forma como muitos membros de conselhos de museus e bibliotecas estão se acostumando a pensar. Eles vêem entidades sem fins lucrativos como equilibradas. As coleções guardadas são bens subutilizados; o "boom" do mercado de arte é uma oportunidade de ouro; o sucesso deve ser julgado por números. A freqüência e a filiação estão em alta? O museu está expandindo? Seu orçamento está crescendo? O museu está obtendo manchetes suficientes para novas aquisições e exposições?

Mas museus e bibliotecas não são empreendimentos comerciais. O crescimento não é necessariamente bom. Ampliação não é sempre sábia. Freqüentemente é o oposto. O verdadeiro sucesso é medido por intangíveis difíceis de quantificar: a qualidade da pesquisa e educação; o estudo, cuidado e manutenção das coleções; o nível de confiança pública.

Talvez confiança soe agora como um daqueles chavões que os puristas antiquados latem enquanto a caravana passa. Então chame de responsabilidade. O público deve exigir mais disto, juntamente com maior transparência. Os procuradores gerais também.

Na Europa, os museus são administrados pelo governo. Aqui, o capitalismo impera. Então os museus devem competir por dinheiro, colecionadores, visitantes. No todo, o sistema funciona.

Mas isto se apóia na fé de que decisões fundamentais (o que adquirir, o que vender, o que expor e como expor) pertencem não a interesses privados e comerciais, mas a especialistas, curadores e estudiosos, servindo ao público e à posteridade. Quando filantropos vêem um museu ou biblioteca canibalizando sua coleção, eles podem pensar duas vezes antes de aumentar sua contribuição. Quando os museus alugam suas obras e pagam em dinheiro por exposições cujo conteúdo é posteriormente subcontratado, outros museus podem decidir que emprestar é ingenuidade. Eles alugarão para aqueles que pagarem mais, sem se importar se outros museus desejam arte emprestada por razões melhores.

E quando os colecionadores vêem algumas instituições virando do avesso para agradar um doador, eles esperarão o mesmo. O MoMA ganhou as manchetes há pouco tempo ao receber de presente cerca de 2.600 desenhos que um conselheiro, Harvey S. Shipley Miller, reuniu em quase dois anos de compras. Miller é o único membro da Fundação Judith Rothschild, uma pintora que morreu em 1993, que a estabeleceu para "estimular o interesse em pintores, escultores e fotógrafos americanos mortos recentemente, cuja obra é da mais alta qualidade mas que carecem de um maior reconhecimento".

Miller, que supervisionou anteriormente a doação pela fundação de mais de 1.100 livros avant-garde russos e obras relacionadas ao MoMA, decidiu gastar milhões (incluindo US$ 140 mil em viagens, segundo um recente artigo na revista "Art on Paper") visitando galerias com um curador privado, comprando desenhos de mais de 640 artistas, vivos e mortos, famosos e desconhecidos, americanos e estrangeiros. Foi amplamente noticiado que ele informou às galerias que estava comprando em nome do MoMA; para um repórter da revista "New York" ele disse que o museu não poderia rejeitar nenhum artista; seria pegar ou largar toda a coleção. Os marchands ficaram ansiosos em ajudar o comprador entusiasta com um prazo auto-imposto.

"Eu duvido que tenha havido alguma aquisição no museu que tenha sido melhor analisada do que esta", disse Lowry, defendendo o presente. Grande coleções são historicamente formadas ao longo de muitos anos. O conhecimento, o mais alto padrão que o Museu de Arte Moderna deve manter, envolve discriminação, e discriminação geralmente leva tempo. Lowry disse que o curador de desenhos do museu, Gary Garrels, esteve "envolvido na concepção e conclusão, e prestou ajuda o tempo todo, o que não quer dizer que Harvey não tenha tomado suas próprias decisões". O diretor do MoMA apontou que os membros do comitê encarregado do departamento de desenhos tinham o direito de aceitar nenhum, alguns ou toda a coleção, o que significa que decidiram especificamente ficar com todos as obras.

Mas quão meticulosamente e responsavelmente eles poderiam, ou alguém poderia, analisar 2.600 desenhos? Como Lowry descreveu o processo, os membros do comitê - aqueles que decidiram fazer viagens até um depósito em Long Island City, Nova York, onde a coleção estava guardada - tiveram uma semana ou duas para avaliar as obras, que incluíam grandes compras de desenhos de artistas jovens, obscuros. O MoMA se recusou no passado a vender quadros de artistas vivos para não minar o ganha-pão deles. Armazenamento e conservação custam caro. Há centenas de artistas envolvidos neste caso. O compromisso de preservar suas obras durará, a menos que o Museu de Arte Moderna mude sua prática, por mais de uma geração. "Com o tempo, haverá uma seleção", disse Lowry. "Inevitavelmente haverá certos artistas que não se transformarão em fundamentais para a coleção." Como Cross, presumivelmente.

Milhões adoram Tut. A população de Las Vegas adora Monet. Outros museus considerariam o opulento presente de Miller como uma dádiva dos céus, apontou Lowry. E sobre o acordo com Broad, Rich apresentou um argumento
semelhante: "Eu me pergunto o que pior poderia ocorrer? Nós não receberemos a arte, mas ficaremos com um ótimo prédio".

Esta é uma forma de colocar. Mas outra é que os museus, ao desvalorizarem seus princípios para ganhos de curto prazo, podem ganhar o desrespeito do público a longo prazo. George El Khouri Andolfato

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