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17/07/2005

Os novos diários das babás estão na Internet

The New York Times
Helaine Olen
A nossa ex-babá, uma ex-professora de 26 anos com referências excelentes, gostava de tocar os seios enquanto lia a "The New Yorker", e acordava os seus amantes com freqüência durante a noite com mordidas. Ela tomava pílulas para dormir, fazia piadas sobre fantasias eróticas incomuns envolvendo Tucker Carlson e assegurava ter tido mais parceiras sexuais do que o seu namorado.

Como eu sei dessas coisas? Eu li o seu blog.

Ela não ficou muito tempo conosco quando descobrimos o seu diário online. Tudo o que ela revelara anteriormente sobre a sua vida privada foram os detalhes mais simples sobre namoros ocasionais, ou a discussão com o locador da sua residência, ou o fato de ter freqüentando um curso de pós-graduação no outono.

Mas dois meses depois de eu ter começado a ler os seus comentários, todo o nosso relacionamento se desfez. Não é que no blog houvesse apenas coisas que eu não desejava saber a respeito da pessoa que tomava conta dos meus filhos. As suas revelações online trouxeram à tona sentimentos meus que eu não gostaria de encarar tão cedo.

Eu não fui exatamente uma ignorante quanto às peripécias sexuais das nossas babás anteriores. Uma delas engravidou acidentalmente do seu namorado de longa data e me pediu conselho. Uma outra mantinha um relacionamento furtivo com um jogador de futebol americano da faculdade que estava comprometido com outra mulher. Mas esses foram problemas que me faziam sentir em um plano superior, e que me deixaram grata pela rotina linear do casamento e dos filhos.

Mas o caso mais recente foi algo inteiramente diferente.

Tudo começou em um dia do outono passado quando estávamos cuidando do meu bebê e ela murmurou para mim: "Criei um blog. Vou te dar o link para ele".

Escrevi o endereço na minha agenda mas não corri para o computador para ver o site. Foi só um mês mais tarde, após ela ter me dito que havia colocado no blog o poema de Sharon Olds, "Life With Sick Kids" ("A Vida com Crianças Doentes"), quando os meus dois filhos adoeceram, que eu decidi ser educada e dar uma olhada.

Li o poema e, a seguir, passei para o próximo assunto. E o próximo. Entre uma coletânea de poesias e uma análise fanática das "Gilmore Girls" havia uma doce cena de sexo com um novo namorado, relatos de casais semipromíscuos e histórias de bebedeiras demasiadamente excessivas para que eu me sentisse confortável.

O meu marido achou que a sua escrita era de uma precocidade talentosa, mas, não obstante, quis demiti-la. "Isso é inapropriado", disse ele. "Não precisamos saber que Jennifer Ehle a excita".

A princípio, eu a defendi. Será que ela não teria direito à livre expressão? Não era algo tão grave como beber garrafas de uísque ou dormir com vários caras, ou com uma garota ocasional, enquanto estava no emprego. Além disso, todos os recém formados na faculdade não mantinham registros na Internet?

Mas havia algo mais na minha defesa. De repente, com ela como empregada, senti que eu era jovem e moderna por proximidade. Eu podia ser uma entediante mãe de dois filhos, mas não a minha babá, que jantava nos mais badalados restaurantes de Williamsburg e classificava a energia sexual dos homens e mulheres com os quais se encontrava. Fiquei maravilhada - e senti mais do que um pouco de inveja.

Estava prestes a fazer 40 anos. Meu casamento durava 15 anos. A minha
capacidade de participar de eventos literários e de inaugurações de galerias de arte estava prejudicada por dois filhos pequenos, e a minha vida social ficou relegada ao circuito de festas de aniversários de bebês. Imaginei o festival de bocejos que ocorreria caso eu publicasse na Internet: "Passei a manhã na sala de diversões Templo do Garfield. Tentei ler Paul Krugman enquanto os outros pais me davam olhadas hostis porque o meu filho mais novo tentava roubar os caminhões de brinquedo dos seus filhos".

Contei aos meus amigos sobre o blog, e até aqueles que não tinham filhos se interessaram. Eles ligaram, implorando por mais detalhes. "Ela usou o roupão cor-de-rosa, a combinação transparente ou o vestido púrpura?", perguntou um deles após ler uma mensagem a respeito da vestimenta apropriada para a primeira relação sexual. "Ela não disse".

Mas eu não me sentia tão confortável quanto pretendia com a situação. O blog trouxe à tona estranhas similaridades. Não quero supervalorizar o caso: não sou bissexual e não vim de uma família estritamente religiosa, como a minha babá.

Mas tínhamos coisas suficientes em comum - se eu acreditasse totalmente nas suas declarações - para me deixar intranqüila. Quando tinha pouco mais de 20 anos, eu, também, fui tomada por um interesse apaixonado pela literatura do século 19, algo que há muito tempo abandonei. Hoje mal sou capaz de me concentrar em "The New York Times", e o que dizer de Henry James. Eu, também, fiz um aborto naquela época. E quanto a problemas de depressão? Também. Sentimento de superioridade moral e auto-imagem inflada? Afirmativo.

Quando a nossa babá pediu permissão para trazer o laptop para o trabalho, para que pudesse lidar com o seu processo de inscrição para o curso de pós-graduação enquanto o bebê dormisse, eu disse que sim. Depois, fiquei me perguntando se ela não estaria passando o tempo com mensagens eletrônicas de paquera - algo que, segundo o que revelara no blog, às vezes fazia. E quando ela chegou com uma virose estomacal por duas vezes em um período no qual nós ficamos doentes apenas uma vez, fiquei pensando nas suas confissões sobre as noites de bebedeira, seguidas de ressacas no trabalho. Paranóia, talvez, mas o fato de ler o blog pareceu encorajar tais pensamentos.

Mas eu não a confrontei. Em parte, senti empatia e tristeza pela versão mais jovem de mim mesma. Mas também temi que ela julgasse a minha vida e a achasse incompleta.

Quando lia as suas palavras, eu era transportada de volta a minha própria juventude, e passava por aqueles sentimentos de estranheza, medo, bravatas e autovalorização exagerada. Eu poderia lhe ter dito que entendia mais a sua vida do que ela poderia supor, que eu nem sempre fora a dona de casa chata que ela via. Poderia ter dito, também, que eu já fiquei fora de casa até tarde, que bebi demais e que dormi com as pessoas erradas. Eu, também, já vi as minhas obrigações de trabalho como uma distração entediante dos projetos criativos e me achei superior com relação ao ambiente ao meu redor, assim como ela relatava.

Mas a minha consciência sobre essa vida anterior e o fato de saber que a
havia superado não me impediram de passar pela intensa sensação de dúvida quanto a minha vida atual, de pensar nas vezes em que fiquei convencida de ter feito as escolhas erradas, dos dias em que meu marido e eu passamos horas discutindo sobre qual de nós deveria lavar a banheira, depois que um dos nossos filhos a confundiu com o vaso sanitário. Por outro lado, eu também me senti extremamente alegre naqueles dias que amei tanto a minha vida e os meus filhos que tal sentimento chegou a machucar.

Mas havia um outro elemento nas suas mensagens eletrônicas que me enervava. A maioria dos pais não gosta de pensar que a pessoa que toma conta dos seus filhos está lá por causa de um salário. Nós freqüentemente criamos uma mitologia de amizade com as nossas babás, fingindo que elas nos admiram e que amam tanto as nossas crianças que continuariam nos prestando serviços sem receber nada.

Quando a nossa babá se referiu à nossa casa no seu blog como um local de trabalho, de forma aparentemente sarcástica, ela quebrou o pacto. Quando mais escrevia, mas a vida no nosso lar se deteriorava. Era quase como e, à medida que ela criava a persona de uma feminista com pendores acadêmicos, isso começasse a afetar o seu desempenho. A mulher que era carinhosa, embora um pouco rígida, com relação às crianças, passou, na nossa visão, a ser grossa e impaciente, batendo portas e panelas quando meu bebê não dormia e suspirando profundamente quando lhe pedíamos para fazer alguma tarefa.

Ao invés de abrir um canal de diálogo, eu monitorei a sua vida online de
forma quase obsessiva. No segundo andar da casa, eu entrava no blog para ver se ela escrevia simultaneamente, abaixo de mim, no seu laptop, enquanto o bebê dormia. E muitas vezes era exatamente o que ela fazia.

Vendo mensagens arquivadas em uma tarde, li as suas reações a uma discussão que tive com o meu marido quando ela estava em casa. "Ouvi um casal brigando dentro dos limites de uma conversa de terapia de casais", disse ela. "E eu quis dizer, esbofeteie-o, morda-a".

A coisa prosseguiu assim por três páginas terríveis.

"Morri de raiva", acrescentou ela.

Bem, nós também ficamos com raiva. Mas acima de tudo me senti machucada. Os meus assuntos, meus problemas, meus compromissos, todo o meu ser pareciam ser vistos por ela como uma grande perda de tempo.

Mortificada e em silêncio, não disse nada ao meu marido sobre a mensagem. Tampouco disse a ela o quanto a situação estava se tornando perturbadora. Comecei a perceber que ou o blog ou o seu emprego teriam que acabar.

Poucos dias depois a sua fúria transbordou. "Tive o tipo de semana de trabalho que me faz pensar que seria bom ser um maligno advogado de uma corporação", escreveu. "Sério. Ontem pensei em fazer uma cirurgia de esterilização".

Quaisquer que fossem os seus motivos ou as suas frustrações, isso era
inaceitável. Ela finalmente cruzara o meu limite de tolerância.

O meu marido a demitiu na segunda-feira seguinte, enquanto o meu filho mais novo e eu assistíamos a uma atividade escolar. Mesmo tendo escrito mensagens sobre como se sentia descontente, estando em nossa casa e com os nossos filhos, e sabendo que havia uma boa chance de que eu leria os comentários, ela pareceu bastante chocada. O meu marido não mencionou a questão do blog, tendo citado outros motivos para a sua demissão. Ele me disse que não se deu ao trabalho de encontrar para si um personagem online.

Ela não escreveu que nós a despedíramos. Em vez disso, colocou no blog uma mensagem sobre o seu "dia de más notícias", incluindo o fato de não ter sido aceita para um programa de pós-graduação, acrescentando que os seus maiores temores quanto a outras pessoas haviam se confirmado.

Quanto ao fato de ela ter me informado sobre o seu blog, creio que nunca
saberei o motivo. Às vezes suspeito que ela estivesse insatisfeita na minha casa, e esperasse que as nossas almas aparentemente burguesas ficassem tão chocadas que a mandassem embora. E foi exatamente o que fizemos. Outras vezes acredito que ela quis que eu assumisse um papel mais maternal, e que eu a desapontei. Mas talvez eu esteja me achando mais importante do que sou.

Eu ainda leio o seu blog, embora não com tanta freqüência. A sua vida se
estabilizou. Ela escreve sobre noites passadas em casa com a sua cara-metade e coloca menos mensagens sobre coito. (Bem, ok, eles fizeram sexo no chão da sua nova moradia, um sótão no Brooklyn). Em breve ela deixará Nova York para fazer a pós-graduação. É uma vida de paixão e incerteza, na qual os encontros acidentais podem levar a situações ainda inimagináveis.

De várias maneiras, essa costumava ser a minha vida. Eu ainda sinto saudade daquela vida. E também não sinto. Danilo Fonseca

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