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17/07/2005

Vidas diversas e promissoras perdidas nos atentados

The New York Times
Sarah Lyall

em Londres
Um dos mortos foi um balconista que adorava futebol e sonhava em viajar para a Austrália. Outra era uma assistente de dentista que se mudou da Romênia para Londres 20 anos atrás. Uma terceira era uma jovem mulher muçulmana que freqüentava a mesquita local para as orações de sexta-feira e adorava música pop.

A maioria estava na faixa dos 20, 30 e 40 anos. A maioria estava a caminho do trabalho. Eram a filha de um bispo anglicano, o filho de uma executiva do petróleo da Nigéria, a mãe imigrante de dois adolescentes. Alguns eram muçulmanos. Os nomes dos mortos - Shahara Islam, Anthony Fatayi-Williams, Jamie Gordon, Ganze Gonoral e tantos mais - refletem a diversidade de suas origens e a natureza indiscriminada dos atentados que atingiram Londres uma semana e meia atrás.

O número de mortos nos atentados de 7 de julho - em três trens do metrô e um ônibus de dois andares - é até o momento 55, dos quais 41 já foram oficialmente identificados pelas autoridades.

A identificação das vítimas tem demorado na maioria dos casos. Parte do problema é que os procedimentos britânicos são lentos, e investigação criminal deve ser realizada quando as mortes são violentas ou não naturais. As dificuldades são ampliadas pelo fato de que muitos corpos foram misturados e severamente mutilados nas explosões.

A Comissão de Identificação, um grupo de médicos, policiais e cientistas forenses formado em resposta aos atentados, está empregando uma série de métodos, incluindo exames de arcada dentária, impressões digitais, DNA -e até dispositivos médicos internos como marcapassos com números de série - para completar a tarefa.

Para amigos e parentes, a agonia da incerteza parece quase tão ruim quanto a devastação de saber. Muitas famílias se encontram em um limbo desagradável, sabendo em seus corações que seus parentes perdidos estão mortos, mas incapazes de realizar o luto apropriado.

Um destes parentes é Marie Fatayi-Williams, cujo filho, Anthony, ainda estava oficialmente perdido na segunda-feira passada, quatro dias após o atentado. Marie Fatayi-Williams estava no Upper Woburn Place, perto do local da explosão do ônibus Nº30, naquele dia e fez um discurso sobre ele, dizendo que está "destruída" pela morte certa dele. A família não tem notícia dele desde as 9h41 da manhã de 7 de julho, disse ela, quando ele telefonou para o escritório para dizer que o metrô tinha sido evacuado e que encontraria outra forma de chegar ao trabalho.

"Quantos corações maternos precisam ser mutilados?" perguntou Marie, em um discurso angustiado que se tornou um forte símbolo do pesar das famílias.

Anthony Fatayi-Williams, 26 anos, era de muitas formas uma personificação da Londres moderna, pós-colonial - um "cidadão do mundo", como sua mãe o descreveu. Nigeriano por herança, ele cresceu em Londres e se formou na Universidade de Bradford. Mas ele era profundamente ligado às suas raízes nigerianas e pretendia trabalhar na Nigéria algum dia.

Morador de Hendon, Anthony Fatayi-Williams era um executivo de engenharia, adorava música rap e esperava algum dia abrir uma gravadora. Sua mãe é católica e uma executiva de companhia de petróleo; seu pai, um muçulmano, é um médico. "Basicamente sua meta era se tornar um político e consertar a Nigéria", disse sua prima, Sadie Williams, para o jornal "The Evening Standard".

Sua mãe disse que Anthony foi seu "primeiro filho, meu único filho", e que ele prometeu cuidar dela na velhice. "Na sociedade africana, nós nos agarramos aos filhos", disse ela.

Mas na sexta-feira, o filho dela foi declarado morto.

À medida que os nomes eram divulgados, aos poucos, surgiam retratos das vítimas. Muitos eram jovens e estavam apenas começando suas vidas. Shahara Islam, por exemplo, era uma caixa de banco de 20 anos, uma imigrante bengali de segunda geração que circulava com facilidade entre o mundo de religiosidade rígida de seus pais e o mundo secular britânico. Ela morreu no ônibus Nº 30, e seu corpo ficou tão mutilado que ela teve que ser identificada por exames da arcada dentária.

Jamie Gordon, 30 anos, outro passageiro do ônibus, passou seus primeiros anos no Zimbábue, trabalhou no setor financeiro e estava planejando se casar com sua namorada há sete anos, Yvonne Nash. Shauna Parathasangary, também de 30 anos, era natural do Sri Lanka, trabalhava no serviço postal e também morreu no ônibus.

Outras vítimas, como Gladys Wyndowa, 50 anos, tinham a vida mais estabelecida. Uma imigrante de Gana, Wyndowa tinha dois filhos adolescentes. Ela trabalhava das 5 às 9 horas da manhã como faxineira da University College London e em 7 de julho deixou seu trabalho, como de costume, para ir para uma aula de administração doméstica em Shoreditch. Incapaz de pegar o metrô, ela pegou o ônibus Nº30.

Michelle Otto, 46 anos, também era uma imigrante - ela era da Romênia - e morreu no trem da linha Piccadilly. Ela estava a caminho da casa que dividia com a família de sua irmã em Mill Hill para o emprego de assistente de dentista em Knightsbridge.

James Adams, 32 anos, gostava de manter contato. Às 7h30 da manhã de 7 de julho, ele telefonou para sua mãe para dizer que estava na estação de King's Cross a caminho do trabalho. Ele também enviou uma mensagem de texto para uma amiga, Amanda Garatty.

Isto não era incomum, disse Tony Garatty, que é casado com Amanda e que faz parte de um grupo unido de amigos de Adams da Igreja Batista de Bretton, em Peterborough, Cambridgeshire.

"Ele escrevia para minha esposa toda vez que via algo na televisão", disse Garatty em uma entrevista. "Eu vou sentir muito quando começar a temporada de futebol, porque quando ele via algo sobre o Manchester United ele me escrevia dizendo, 'O que acha disto?'"

Adams, um consultor hipotecário com humor sarcástico, tinha muitos amigos: David Lammy, um membro do Parlamento que o conhecia desde a escola; o reverendo John Boyers, o capelão do time do Manchester United, que o conheceu após Adams lhe enviar uma carta se apresentando; e Garatty, 47 anos e pai de dois filhos, que era seu companheiro em concertos de rock e jogos de futebol.

Os dois passaram recentemente um sábado juntos no concerto Live 8 pela África, no Hyde Park. Adams chegou atrasado para pagar Garatty -ele também era conhecido por isto- mas ele mais que compensou ao trazer não apenas binóculos, mas também dois bancos dobráveis para o caso de ficarem cansados.

Não ficaram. Adams ficou em pé durante todo o concerto e ficou extremamente feliz quando Annie Lennox apareceu. "A certa altura ele disse: 'Eu espero que ela cante'. Então ela começou a tocar a introdução de 'Sweet Dreams Are Made of This'", disse Garatty.

"Nós dissemos: 'Uau, nós estamos aqui e isto é histórico'", disse ele.

Adams, que supostamente estava no trem atacado da linha Piccadilly, ainda está oficialmente desaparecido.

Ciaran Cassidy era uma combinação incomum, um fanático pelo time do Arsenal que também parecia ser um dos balconistas mais felizes da face da Terra. Ao longo da Chancery Lane, onde ele trabalhava na papelaria Bridge & Co., Cassidy, 22 anos, era conhecido como um jovem que podia conversar sobre qualquer coisa com qualquer um, e que fazia com entusiasmo até mesmo cópias dos documentos mais tediosos, e que invariavelmente convidava os clientes a pegarem as balas gratuitas no pote no balcão.

Assim, a notícia da sua morte afetou este pequeno bairro no distrito legal de Londres, onde Cassidy se tornou, de forma fugaz, parte da vida cotidiana. Seu chefe, Mike Harris, colocou a disposição um livro de condolências, e dezenas de pessoas pararam para assiná-lo e para compartilhar lembranças de Cassidy.

Cassidy, filho de um funcionário dos correios e de uma professora assistente que se mudaram da Irlanda para Londres quando ele nasceu, estava economizando para a viagem dos seus sonhos: um ano de férias na Austrália. Ele passou a noite anterior à sua morte discutindo seus planos com sua irmã.

"As pessoas costumavam dizer que era impossível caminhar com ele na rua porque ele conhecia tantas pessoas e sempre parava para falar com elas", disse Lisa ao "The Standard". Este certamente parecia ser o caso em Chancery Lane.

"Eu me lembro de quando ele começou", disse Angela Thomson, que trabalha em uma agencia de turismo próxima e que parou para assinar o livro de condolências, em uma entrevista. "Era um garoto adorável. Ele era uma destas almas doces da vida - ele realmente queria ser de ajuda."

"Ciaran - aqui é a Rita!" dizia um dos registros no livro, de uma cliente regular. "Eu sempre virei aqui e me lembrarei de você. Vou sentir saudades."

O corpo de Cassidy foi encontrado nos destroços do trem atacado da linha Piccadilly. Sua morte se tornou oficial na terça-feira.

Giles Hart, 55 anos, era de Hornchurch e tinha uma família grande - três filhos, uma esposa, uma mãe de 85 anos que morava com eles, uma irmã - e trabalhava como engenheiro para a British Telecom em Islington. Mas havia muito mais a respeito dele. Um ex-membro da Campanha da Grã-Bretanha do Solidariedade polonês, Hart conheceu sua futura esposa, Danuta Gorzynska, que fugiu da Polônia quando a lei marcial foi imposta lá, em Londres há mais de 20 anos.

Ele também adorava livros, particularmente os de Lewis Carroll - ele era um grande fã de "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas" - e de H.G. Wells. Ele foi presidente da divisão local da H.G. Wells Society. Na noite de 7 de julho, ele faria uma palestra intitulada "As Obras Menos Conhecidas de Lewis Carroll".

Ele era um humanista - um de seus muitos cargos voluntários era de vice-presidente da divisão local da Associação Humanista Britânica - fazia campanha pela paz, era membro da Sociedade Antiescravidão, um combatente contra o preconceito e contra violações dos direitos humanos. "É trágico ele ter se tornado vítima do próprio mal que combatia", disse a família em uma declaração.

Como muitas das famílias, a de Hart pediu para não ser contatada pela mídia. "Nós esperamos que seus muitos amigos e colegas mantenham as campanhas dele pela liberdade e pela justiça, para tornar o mundo um local mais justo e mais verde onde se viver", disse ela. "Que ele descanse em paz e que seus ideais eventualmente triunfem."

Hart costumava tomar a linha Norte para trabalhar. Mas devido ao fechamento do metrô, ele pegou o ônibus Nº30. Ele foi declarado morto na sexta-feira. George El Khouri Andolfato

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