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19/07/2005

Autor de ataque a clínica de aborto é condenado

The New York Times
Shaila Dewan

Em Birmingham, Alabama
Esta era a primeira chance que Emily Lyons tinha de se dirigir a Eric R. Rudolph, o terrorista cujo ataque perpetrado contra uma clínica de aborto, aqui em Birmingham, em 1998, a deixou parcialmente cega e mutilada. E ela tinha muito a dizer.

Emily Lyons, que era a diretora de enfermagem da clínica New Woman All Women Health Care (Nova Mulher, Cuidados com a Saúde para Todas as Mulheres), chamou Rudolph de covarde por ele ter lançado mão de um estratagema jurídico neste processo, que lhe permitiu evitar ser condenado à pena de morte.

Ela também acrescentou, num tom determinado e agressivo, que as clínicas que ele fez explodir ainda estão em operação atualmente e que o seu ataque a havia transformado numa figura pública que havia arrecadado milhares de dólares em benefício dos serviços de aborto.

E ela prosseguiu, dizendo a Rudolph, durante a sessão em que seria anunciado seu veredicto pela Corte do Distrito Federal, na manhã desta segunda-feira (18/07): "Eu tenho mais fibra e coragem no meu dedo mindinho mutilado do que você no seu corpo inteiro".

Eric Rudolph, que se confessou culpado, em abril, do atentado com bomba em Birmingham e de três outros ataques semelhantes em Atlanta, foi condenado por duas sentenças, à prisão perpétua, sem direito a suspensão de pena, pelo atentado com bomba em Birmingham.

O juiz C. Lynwood Smith também o condenou a pagar a soma de US$ 1,2 milhão (R$ 2,8 milhões) a título de perdas e danos, para ressarcir suas vítimas, apesar de reconhecer que Rudolph não tem recursos financeiros.

Em agosto, ele será condenado a duas outras pesadas penas de prisão em Atlanta por ter perpetrado atentados com bomba contra uma outra clínica de aborto e um clube gay, e a mais uma por um ato similar cometido durante os Jogos Olímpicos de 1996.

Por sua vez, Rudolph mostrou que não se arrependeu de nada durante o seu primeiro depoimento extenso em público desde que ele foi preso, após ter levado uma existência de fugitivo durante cinco anos, quando ele afirmou que a violência contra todos os que prestam serviços de aborto é "um dever moral".

"Neste momento em que eu vou passar o resto da minha vida na prisão, eu sei que 'o combate que travei é um combate justo, eu concluí o meu percurso, eu mantive a minha fé"', disse, citando um versículo da Bíblia.

Os quatro atentados com bomba feriram 150 pessoas e mataram duas, Alice Hawthorne, no parque do Centenário Olímpico de Atlanta, e Robert Sanderson, um oficial de polícia reformado, em Birmingham. Nesta segunda-feira, foi a primeira vez que as vítimas ou membros da sua família puderam se ver confrontadas a Rudolph diretamente.

Depois da sentença, Emily Lyons declarou que ela havia esperado por sete anos e meio para falar com Rudolph, e que ela estava satisfeita. "Ao menos, eu sei que ele estava escutando", disse.

Os procuradores de justiça haviam concordado em não exigir a pena de morte, caso Rudolph os ajudasse a recuperar mais de 115 quilos de explosivos que ele havia escondido na região oeste da Carolina do Norte, e que estavam enterrados na mesma área deserta onde ele permaneceu durante todo o período em que ele ficou se escondendo.

Os funcionários de justiça anunciaram o acordo em abril, depois de agentes do departamento de luta contra o crime terem encontrado os explosivos.

Os procuradores de justiça declararam que o fato de os explosivos terem sido encontrados validou o acordo com a defesa do acusado, uma vez que esses explosivos representavam um grave perigo para toda pessoa que se aventurasse a acampar naquela área.

Ao ver a sua estratégia de defesa dar certo, Eric Rudolph divulgou uma nota na qual ele se gabava de ter "derrotado o governo, cujo principal objetivo era condenar-me à morte".

Emily Lyons, que expressou alto e bom som a sua decepção ao tomar conhecimento de que Rudolph não enfrentaria a pena capital, leu uma declaração de sete páginas na qual ela recapitulou as inúmeras situações em que o seu agressor havia agido contra o seu próprio interesse.

Ele guardou o recibo da compra dos componentes para a fabricação da bomba que ele fez no Wal-Mart; ele deixou resíduos de material explosivo espalhados por todo o seu trailer; ele não se preparou o suficiente e não percebeu que o seu alvo principal em Birmingham, o médico que realizava os abortos, não utilizava a porta da frente da clínica; ele deixou a bomba à vista de todos em vez de escondê-la nos arbustos; ele escreveu a palavra "bomba" na margem do seu exemplar da Bíblia; e, acima de tudo, ele falhou em dissuadir as mulheres de recorrer ao aborto.

Ela disse acreditar que Rudolph havia utilizado o aborto como uma desculpa para matar. "O que o faz acreditar que você foi escolhido para ditar a todas as mulheres dos Estados Unidos o que elas devem ou não fazer?", perguntou Emily.

Ela também acrescentou que ele deve sua vida às famílias das suas vítimas, uma vez que a maioria delas concordou com acordo de defesa.

"Você assassinou seus entes queridos e ainda assim, eles evitaram que recebesse a injeção letal que esperava por você", disse. "Não foram os seus esforços que o salvaram, e sim, as famílias das suas vítimas".

"Você tem sido e sempre será um parasito para a sociedade, e você nos custou e nos custará milhões", disse ela. Rudolph, trajando um uniforme vermelho de detento, com uma camisa térmica de mangas compridas, ouviu-a atentamente, por vezes acenando com a cabeça em sinal de concordância, e outras vezes fazendo sinais negativos.

Felecia Sanderson, a viúva do oficial de polícia que morreu no atentado com bomba, raramente deu declarações públicas a respeito dos atentados. Mas ele se apresentou perante o juiz, dizendo que ela se dirigiria ao tribunal, e não a Rudolph. "Eu não tenho nada a dizer a esse monte de lixo que assassinou o meu marido", disse.

Sanderson apresentou um vídeo em que foram gravados os depoimentos de amigos homenageando seu marido durante o seu funeral. Um deles disse lembrar de que ele guardava balas para as crianças no seu carro de patrulha e, contou que certa vez, após ter atendido uma chamada de uma família cuja casa havia sido assaltada, ele deu um jeito para arrecadar dinheiro de modo a que eles pudessem repor seus presentes de Natal roubados. Felecia acrescentou que os seus dois filhos, enteados de Sanderson, foram impedidos por Rudolph de ter um pai.

"Ele foi responsável por cada lágrima que os meus filhos choraram e eu o desprezo por isso", disse ela. "Eu não tenho a menor vontade de perdoá-lo".

Ela também elogiou os oficiais de polícia em geral por sua coragem cotidiana, e os procuradores por estes terem trabalhado com afinco para provar a culpabilidade do assassino do seu marido.

"Em minha opinião, não existe uma punição que esteja à altura do crime que Eric Rudolph cometeu, mas, afinal de contas, trancá-lo numa cela de segurança máxima, é um bom começo", disse Felecia Sanderson, referindo-se à prisão de segurança máxima do Colorado onde Rudolph será mantido.

Quando foi a vez de Rudolph falar, ele comparou o aborto com o assassinato de crianças e disse que a sua legalização transformou o Estado "numa empregada doméstica do novo hedonismo". Num "moinho do aborto", precisou o réu, que é o "vomitório da modernidade".

"Aqueles que tentam salvar a vida de crianças não-nascidas e que gostariam de promover uma cultura que respeita a vida são agora tratados como fanáticos, como ameaças à liberdade da América", concluiu.

O procurador de justiça, Michael W. Whisonant, comparou Rudolph com "os extremistas religiosos que fazem explodir bombas dentro de metrôs e que precipitam aviões contra prédios".

O juiz Smith comparou-o com um nazista, dizendo-lhe: "Você fez um uso equivocado dos seus dons. Você se deixou dominar e transtornar pelo fanatismo e a intolerância". Procurador compara réu a "terroristas que atiram avião em prédios" Jean-Yves de Neufville

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