UOL Notícias Internacional
 

19/07/2005

Bush diz que demitirá qualquer um que 'cometer o crime' de revelar informação sigilosa

The New York Times
David E. Sanger e Richard W. Stevenson*

Em Washington
Diante do crescente questionamento sobre o papel de seu principal conselheiro, Karl Rove, no caso de vazamento da CIA, o presidente Bush disse nesta segunda-feira (18/07) que demitirá qualquer membro de seu staff que tiver "cometido um crime".

Stephen Crowley/The New York Times 
Bush muda o discurso conforme fica clara a participação de Karl Rove (à esq.) no caso
Estes foram os primeiros comentários de Bush sobre Rove desde que ele despontou nos últimos dias como a principal fonte para os dois repórteres que escreveram sobre a identidade de uma agente da CIA, Valerie Wilson.

Ela é esposa de Joseph Wilson IV, que questionou publicamente as evidências por trás da acusação de Bush, no discurso do Estado da União de 2003, de que Saddam Hussein estava tentando obter urânio na África.

A resposta do presidente a uma pergunta durante uma coletiva de imprensa na segunda-feira, apesar de breve, apresentou um padrão para manutenção ou demissão de membros de seu staff que parece divergir de algumas declarações anteriores feitas tanto por Bush quanto pelo porta-voz da Casa Branca.

A certa altura no ano passado, Bush disse "sim", quando questionado se qualquer um envolvido no vazamento da informação sobra a agente da CIA seria demitido. Em outra oportunidade, em 2003, ele disse que qualquer um que tenha violado a lei contra tais vazamentos "responderia".

À medida que as revelações sobre o papel de Rove com os repórteres envolveram a Casa Branca na semana passada, os funcionários adotaram a posição de não comentar, por causa da investigação do grande júri em andamento sobre se alguém vazou ilegalmente o nome de Valerie Wilson e possivelmente se perjúrio ou obstrução da Justiça ocorreram durante a investigação.

Os defensores de Rove, incluindo líderes do Partido Republicano, argumentaram que não há evidência de que ele tenha identificado Wilson pelo nome ou que sabia que ela era uma agente secreta. Eles disseram que ele não cometeu nenhum crime quando falou com Matthew Cooper, da revista "Time", e Robert D. Novak, um colunista de jornal.

Um grande júri federal está investigando tais conversas e acredita-se que esteja se concentrando em se, ao falar aos repórteres, qualquer funcionário da Casa Branca tenha violado a Lei de Proteção de Identidades da Inteligência, de 1982.

Até o momento, o grande júri não fez nenhum indiciamento, e o advogado de Rove tem dito que ele recebeu garantias do promotor de que Rove não é "alvo" da investigação, o que geralmente significa que é improvável que ele seja acusado de crime.

Crime, falha e demissão

Mas até Bush ter falado na segunda-feira, não estava claro se o presidente esperaria pelo veredicto final do julgamento para decidir se agiria contra qualquer membro de seu governo envolvido no vazamento, ou agiria de forma branda, como o governo freqüentemente faz ao decidir se mantém ou demite políticos nomeados e funcionários.

Em uma breve coletiva de imprensa na Casa Branca com o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, Bush pareceu levemente incomodado quando foi indagado por um repórter: "Você ainda pretende demitir qualquer um que esteja envolvido no caso de vazamento da CIA?"

Bush pediu paciência até o término da investigação, dizendo que ele, também, quer saber dos fatos. Então ele acrescentou: "Se alguém tiver cometido um crime, ele não mais fará parte do meu governo".

O porta-voz da Casa Branca, Scott McClellan, insistiu na coletiva subseqüente com os repórteres que Bush não estabeleceu um padrão mais elevado para demitir alguém no caso.

Ao ser questionado sobre se Bush agora estava adicionando novas condições para definir o que seria considerado uma ofensa passível de demissão, McClellan acrescentou: "Não, eu discordo".

"Eu acho que vocês não devem ler qualquer coisa nisto além do que o presidente disse a esta altura", disse ele.

As declarações da Casa Branca sobre o assunto, que remonta os mais de dois anos do caso Wilson, variam. Em 30 de setembro de 2003, Bush usou termos que lembraram o que ele disse na segunda-feira.

"Se há um vazamento em meu governo, eu quero saber quem é o responsável", disse ele na época. "E se a pessoa tiver violado a lei, a pessoa será responsabilizada."

Mas em outros momentos, os termos de Bush foram menos precisos. Em Sea Island, Geórgia, em junho de 2004, Bush foi indagado se demitiria qualquer um envolvido no vazamento do nome de Wilson --o que poderia ou não violar a lei, dependendo das circunstâncias. Sem hesitação, Bush disse "sim".

Os democratas insistiram nesta segunda-feira que Bush mudou de posição, o acusando de dar espaço para manobra para acomodar as ações de Rove.

Os democratas afirmaram que há outras linhas a serem traçadas. "O padrão para manter uma alta posição na Casa Branca não deveria simplesmente não ter cometido um crime", disse o senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York.

O próprio conhecimento dos fatos por Bush continua incerto. O presidente nunca expôs publicamente se Rove lhe revelou ou não as conversas com Cooper ou Novak, apesar de ele falar com seu principal conselheiro constantemente.

Novak nunca discutiu publicamente suas fontes, mas uma pessoa informada sobre os detalhes do caso disse, na semana passada, que Rove disse aos investigadores que Novak o procurou já sabendo dos fatos. Rove aparentemente indicou que ouviu relatos semelhantes, mas não podia se lembrar de quem.

Cooper, que testemunhou perante o grande júri na semana passada, escreveu na "Time" que até a conversa com Rove ele não estava ciente do envolvimento de Valerie Wilson no caso, incluindo alegações de que ela teve um papel chave na indicação de seu marido para a missão em Níger, para descobrir se Saddam Hussein realmente buscou comprar urânio na África.

Enquanto isso, a investigação também envolve outras possíveis fontes de vazamentos a Novak, Cooper e Judith Miller, a repórter de The New York Times que está na cadeia por se recusar a revelar os nomes de suas fontes, apesar dela nunca ter escrito um artigo sobre o assunto.

Uma pessoa que esteve envolvida na investigação e falou sob a condição de anonimato, porque o promotor tem desencorajado comentários públicos, disse que um registro telefônico de Ari Fleischer, o secretário de imprensa da Casa Branca de Bush até o ano passado, indicava que ele recebeu um telefonema de Novak no início da tarde de segunda-feira, 7 de julho, um dia depois da publicação do artigo de opinião de Wilson.

Mas não está claro se ele retornou a ligação, ou em caso de tê-lo feito, o que disse. Detalhes do registro telefônico apareceram na manhã de segunda-feira no "The Los Angeles Times".

Fleischer partiu naquela noite para a África com Bush. Ele tem se recusado a discutir o caso e, recentemente, se recusou a nomear um advogado para representá-lo em comentários sobre a investigação.

A insistência de Bush, na segunda-feira, de que aguardará pelo veredicto final sobre os membros de seu staff, pareceu estabelecer um padrão de responsabilidade para Rove diferente do aplicado em outras áreas do governo, segundo alguns especialistas.

Elaine D. Kaplan, que de 1998 a 2003 chefiou o Escritório Jurídico Especial, uma agência federal independente que investiga queixas de práticas proibidas de funcionários, disse: "Funcionários do governo e autoridades que são negligentes com informação confidencial podem perder seu emprego por imprudência. Eles não precisam ser condenados por divulgar informação intencionalmente. Crime nunca foi o referencial. Este não é o padrão aplicado para os funcionários federais comuns. Eles podem ser demitidos por conduta indevida que não configura crime".

Beth S. Slavet, uma ex-presidente da Junta de Proteção dos Sistemas de Mérito, uma agência independente que julga casos de funcionários federais, disse:

"O governo pode demitir um funcionário público se puder demonstrar, pela preponderância da evidência, que 'promoverá a eficiência do serviço' ao fazê-lo. A pessoa não precisa ser culpada de um crime. Você pode ser demitido porque não submeteu documentos a tempo, não seguiu instruções, chegou atrasado ao trabalho repetidas vezes ou gritou com supervisores ou companheiros de trabalho".

*Colaborou Robert Pear com reportagem. Seu principal assessor é suspeito de revelar identidade de agente George El Khouri Andolfato

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