UOL Notícias Internacional
 

20/07/2005

Americanos patrulham a fronteira com México para fornecer auxílio aéreo aos migrantes

The New York Times
Simon Romero

Em Sunland Park, Novo México
O pequeno aeroporto nesta cidade nas imediações de El Paso, Texas, faz mais do que separar dois países. Segundo a visão de Armando Alarcon, piloto amador que engrossa as fileiras dos que procuram evitar que os migrantes morram de sede na odisséia através do Deserto de Chihuahua, ele separa dois mundos.

Michael Stravato/The New York Times 
O Cessna de 30 anos sobrevoa a fronteira entre EUA e México em busca de migrantes que precisam de ajuda
Um dos mundos pertence aos Learjets e Citations de propriedade dos magnatas industriais mexicanos de Ciudad Juarez, que mantém os seus aviões trancados, de forma discreta e segura, nos hangares do outro lado da fronteira.

O Cessna de 30 anos de idade de Alarcon, com a sua cabine apertada, captura uma outra realidade durante os seus vôos semanais sobre os arbustos de creosoto, vulcões extintos, uma modesta cerca que marca na terra batida a fronteira entre México e Estados Unidos, e, algumas ocasiões, sobre o movimento surrealista em câmera lenta de migrantes a pé, cambaleando devido à insolação.

Enquanto organizações armadas no estilo de milícias, como o Corpo de Defesa Civil Minutemen, chamam atenção para a fronteira porosa, Alarcon criou um grupo em El Paso denominado Paisanos al Rescate, que procura reduzir o número de mortes entre aqueles que arriscam tudo por uma chance de ter uma vida melhor nos Estados Unidos.

Cerca de doze voluntários em pequenas aeronaves jogam garrafas d'água de pára-quedas para os migrantes no deserto.

"Os Paisanos dão um pouco de dignidade e esperança a uma viagem que ninguém quer fazer", diz Eduardo Samano, 36, operário do Estado de Morelos que integra um grupo em uma praça suja em Palomas, uma cidade mexicana a cerca de 80 quilômetros de Sunland Park, na qual os migrantes se preparam com freqüência para suas jornadas.

Samano, que diz que espera trabalhar retirando esterco de currais no Texas, ouviu falar dos Paisanos al Rescate em reportagens na televisão mexicana.

"As pessoas nos Estados Unidos que nos detestam acham que estamos aqui para nos divertirmos?", pergunta Samano.

Os recipientes plásticos de água que Samano e os outros levam consigo quando deixam Palomas para iniciarem a sua jornada pelo deserto ficam facilmente vazios antes que atinjam o seu destino, muitas vezes Deming, no Novo México, cerca de 50 quilômetros adiante.

Pelo menos 262 migrantes que cruzavam a fronteira com o México foram encontrados mortos desde outubro passado, um aumento acentuado em relação aos 178 que morreram no mesmo período há um ano, diz Salvador Zamora, porta-voz da Patrulha de Fronteira dos Estados Unidos, em Washington. Com as temperaturas no verão ficando acima dos 38ºC, a maior parte das mortes é resultado de desidratação e de insolação.

Alarcon, 37, que mora em El Paso com a mulher e três filhos, é um radical incomum no mundo polarizado da política de fronteira. Um pouco rechonchudo e freqüentemente agarrado a um Pager BlackBerry, ele trabalha como gerente de venda para a Swift Transportation, uma das maiores companhias de transportes rodoviários de cargas do país. Alarcon fez engenharia na Universidade do Texas em El Paso.

Mas, assim como vários recém-ingressos na classe média de El Paso, uma cidade de 680 mil habitantes que faz divisa com Juarez, a vida de Alarcon é um pouco mais complicada.

Ele veio para os Estados Unidos quando criança nos braços da mãe, quando esta cruzou ilegalmente o Rio Grande, deixando para trás a sua casa em Sinaloa, no norte do México.

Ele se tornou cidadão americano com pouco mais de 20 anos, ao servir o exército na Guerra do Golfo Pérsico (1991). Oficiais militares apressaram o processo de concessão do seu passaporte dos Estados Unidos para que ele pudesse ser mandado para uma base na Arábia Saudita a fim de atuar como especialista em suprimentos.

O aumento da vigilância ao longo da fronteira depois dos ataques terroristas de setembro de 2001 obrigou os migrantes a realizarem travessias mais arriscadas.

Alarcon disse que decidiu formar os Paisanos três anos atrás, após a Patrulha de Fronteira ter encontrado o corpo de uma garota de oito anos que foi abandonada no deserto pelo contrabandista encarregado de levá-la aos Estados Unidos.

"Aquele foi o nosso momento decisivo", disse Alarcon, que fundou os Paisanos com vários outros voluntários no ano passado, após gastar mais de US$ 80 mil do próprio bolso para comprar o Cessna.

O grupo depende de doações, cerca de US$ 3.000 até o momento, para cobrir os custos da gasolina de aviação e das garrafas d'água. Pedro Zaragosa, um proeminente empresário mexicano que possui uma companhia de laticínios e bebidas em Juarez e franquias da Krispy Kreme em El Paso e Juarez, doou a água e o combustível.

A maioria dos cheques é referente a pequenas quantias, como os US$ 25 doados por Gail Ann Schultis, de Parkville, Missouri. "Prezados membros do Paisanos al Rescate, li a respeito das suas recentes iniciativas durante uma visita a El Paso", escreveu a doadora. "Morei na cidade de 1979 a 1989 e gostaria de elogiar o trabalho de vocês".

O principal piloto do grupo é Mario Luna, que trabalha pilotando um jato empresarial de uma companhia distribuidora de cerveja com sede em El Paso. Assim como Alarcon, Luna, 39, entrou ilegalmente em El Paso quando criança, vindo do México.

O grupo possui cerca de doze voluntários ativos. O seu nome é derivado do Hermanos al Rescate, a organização cubano-americana que voou sobre o Estreito da Flórida nos anos 90 para ajudar as pessoas que fugiam de Cuba em balsas.

Mas, enquanto os Hermanos al Rescate se transformaram em um emblema da política anti-Castro no sul da Flórida, o grupo Paisanos procura evitar a política. Alarcon se esquiva de apoiar ou criticar políticas específicas de imigração, afirmando que o principal objetivo do grupo é conduzir missões humanitárias dentro de um sistema imperfeito que resulta em centenas de mortes a cada ano.

Alguns ativistas vêem o grupo de Alarcon mais como um sintoma dos problemas da fronteira do que como uma solução.

"Eles estão realizando um ato de fé, e isso é algo que devemos reconhecer, mas isso não vai à raiz do problema", afirma Fernando Garcia, diretor da Rede de Fronteira pelos Direitos Humanos, em El Paso.

"Não há sinal de que os Estados Unidos estejam preparados para modificar as suas políticas que estão matando gente na fronteira. Há uma crise de morte que é resultado da recusa em reconhecer a contribuição dada pelos imigrantes à sociedade".

A abordagem de Alarcon, embora demasiadamente discreta para alguns, gerou críticas daqueles que a consideram equivocada. "Temos sentimentos mistos a respeito daquilo que ele está fazendo", afirma Richard N. Azar, 84, co-proprietário de uma escola de pilotagem em Sunland Park.

"A Estátua da Liberdade recebe bem essas pessoas, mas elas estão infringindo a lei ao entrar neste país, e isso não está certo".

Uma integrante declarada do grupo Minutemen, no Texas, Wanda Schultz, de Houston, diz que os migrantes não deveriam depender da assistência dos Paisanos. "Se você não quer morrer, não venha", disse Schultz, 68, em uma entrevista por telefone. Ela acrescentou que daria água aos migrantes se eles estivessem sofrendo de desidratação, e a seguir os entregaria à Patrulha de Fronteira.

Os Paisanos não delatam as pessoas que encontram, a menos que migrantes desesperados lhes peçam para agir de tal forma. Essa política geralmente não lhes traz problemas com a Patrulha de Fronteira.

Doug Mosier, encarregado de relações públicas da patrulha no setor de El Paso, disse que não tem motivos para acreditar que os Paisanos al Rescate estejam fazendo algo mais do que fornecer um serviço humanitário.

"Nós lhes demos um número de telefone para o qual eles podem discar se encontrarem alguém em apuros", disse Mosier.

As primeiras garrafas d'água lançadas no ano passado no deserto, embaladas em plástico bolha, se romperam ao atingirem o solo, fazendo com que alguns migrantes praguejassem contra o Cessna. Alarcon resolveu o problema com o auxílio de um engenheiro voluntário da Califórnia, que sugeriu que eles utilizassem o pequeno excedente de pára-quedas que o exército usa para tochas de iluminação noturna. Os pára-quedas brancos trazem agora uma mensagem em espanhol --"Deus te abençoe"-- e os números telefônicos dos consulados mexicano e salvadorenho.

Certas noites Alarcon dirige até o México para conversar com os migrantes que se preparam para a viagem que é um jogo de gato e rato.

"A falta de sentido de tudo isso pode te abalar. Todo o dinheiro gasto para perturbar pessoas que querem apenas ser empregadas domésticas e jardineiros", diz Alarcon.

"É como se a Guerra Fria estivesse sendo travada novamente e tivesse os mexicanos como os vilões. Se as tragédias aqui não fossem tão comuns, eu me sentiria como se estivesse vivendo a minha própria versão do cartum Spy vs. Spy". Grupo Paisanos al Rescate tenta reduzir mortes durante a travessia Danilo Fonseca

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