UOL Notícias Internacional
 

23/07/2005

Valorização da moeda chinesa, o yuan, não vai resolver os problemas americanos

The New York Times
Louis Uchitelle

Em Nova York
O dólar pode estar no momento seguindo um curso saudável, mas isso não silencia os profetas do apocalipse que temem um colapso da moeda norte-americana ou uma outra crise econômica global enquanto os norte-americanos continuam a comprar muito mais produtos no exterior do que vendem.

A questão é: aqueles que enxergam catástrofes à frente são Cassandras, que prevêem com exatidão o futuro, ou Chicken Littles (um franguinho, personagem de desenho animado, que semeia o pânico ao afirmar que o céu está caindo), que mais uma vez vaticinam erradamente os perigos de um dólar em queda?

O anúncio feito pela China na última quinta-feira (21/07) de que aumentaria, no longo prazo, o valor do yuan em relação ao dólar e permitiria que a moeda norte-americana se ajustasse gradualmente aquietou por ora os alarmistas.

Graças à valorização, ninguém pode alegar que o céu está caindo --pelo menos neste final de semana. "Os Chicken Littles estão de fato errados", afirma James Glassman, economista do J.P. Morgan Chase & Co.

Mas tal crítica não impediu que as Cassandras continuassem a fazer suas previsões. Mesmo a redução gradual do valor do dólar, segundo índices suficientemente altos --digamos entre 30% e 40%--, de forma que os norte-americanos finalmente se sentissem desencorajados a comprar produtos asiáticos cada vez mais caros, poderia ter conseqüências desastrosas.

E há o risco de que a China reduza as suas compras de títulos do governo norte-americano, contribuindo para um aumento drástico das taxas de juros de longo prazo.

As Cassandras que vêem as coisas dessa forma são uma nítida minoria, assim como a Cassandra original, na antiga Grécia. Mesmo assim, não é fácil ignorar as mais proeminentes dentre elas --como Paul A. Volcker, o ex-presidente do Federal Reserve Board.

"As circunstâncias parecem ser tão perigosas e intratáveis como qualquer outra da qual eu me lembre", afirmou Volcker na quinta-feira, repetindo uma advertência que fez em um discurso em fevereiro último.

"Se as pessoas perderem a confiança nos dólares como uma reserva de valor, ou na força política dos Estados Unidos em relação a outros países, haverá problemas. Não estou dizendo que uma crise seja inevitável ou que um ajustamento ordenado seja impossível, mas em algum momento grandes ajustamentos precisarão ser feitos".

Os problemas derivam do fato de os Estados Unidos comprarem persistentemente mais de outros países, especialmente da China e do Japão, do que os outros países compram dos Estados Unidos.

O pagamento das importações é feito em dólares, e devido ao fato de os estrangeiros não utilizarem todos os seus dólares para compras de compensação aqui, eles emprestam o excedente aos norte-americanos, que utilizam esses empréstimos para comprar mais produtos no exterior.

Isso satisfaz o desejo do país de consumir e o desejo da Ásia de incrementar a produção e o nível de emprego para a sua vasta população.

Mas o endividamento dos Estados Unidos para com o resto do mundo está aumentando segundo uma taxa anual que se aproxima dos US$ 700 bilhões. Todos concordam que esse endividamento não pode continuar aumentando indefinidamente. Os pessimistas dizem que esse desequilíbrio quase que inevitavelmente conduzirá a uma correção dramática e dolorosa. Os otimistas, integrantes de um campo que inclui o governo Bush e grande parte de Wall Street, argumentam que o atual arranjo é completamente sustentável.

"Os asiáticos não têm escolha, a não ser se apegarem aos nossos dólares", afirmou Glassman. "Caso se livrem da nossa moeda, estarão ameaçando o seu próprio desenvolvimento".

Ao que Stephen S. Roach, economista do Morgan Stanley --visto por muitos em Wall Street como demasiadamente pessimista-- retruca: "Como nada de ruim aconteceu ainda, existe uma crescente convicção de que nada de ruim acontecerá".

A valorização à qual os chineses deram início na quinta-feira, ainda que seja o primeiro passo daquilo que poderá acabar sendo uma desvalorização ordenada do dólar com relação ao yuan, não é por si só suficiente para resolver o desequilíbrio das contas internacionais dos Estados Unidos.

O desafio só virá quando o preço das importações começar a subir. Em tal momento, os norte-americanos terão que produzir para si muito mais do que consomem, ou pagar muito mais pelo privilégio.

Idealmente, o processo envolveria a transformação dos Estados Unidos em uma nação muito mais produtora, chegando mesmo a aumentar as suas exportações para a Ásia, enquanto que esta --e especialmente a China-- assumiria mais o papel de consumidor.

Essa é essencialmente a idéia do governo Bush, conforme delineada por Ben S. Bernanke, o recém-nomeado diretor do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bush.

"Provavelmente temos poucas escolhas, a não ser sermos pacientes e trabalharmos para criarmos as condições necessárias para uma reversão dos papéis", disse ele em um discurso recente.

Essa não é uma transformação fácil. Os norte-americanos atualmente produzem apenas 75% das mercadorias que compram, importando o restante. Isso é uma redução de cerca de 90% em uma década, segundo vários estudos.

A percentagem foi ainda maior no final dos anos 80, a última vez em que o dólar passou por um longo declínio, administrado de maneira similar --naquela era pré-euro--, em relação às moedas alemã, francesa e japonesa.

À medida que o dólar cai, a indústria manufatureira de fato revive nos Estados Unidos. As exportações saltaram e o déficit da balança comercial sofreu uma redução, mas a manipulação da taxa de juros envolvida no gerenciamento da moeda ajudou a fomentar a queda vertiginosa do mercado de ações em outubro de 1987, ou pelo menos é isso o que os economistas argumentam.

Desta vez, a bolha caseira poderia estourar, caso o fluxo de dólares emprestados pela Ásia sofresse uma redução abrupta. O resultado seria uma redução do dinheiro emprestado e um aumento das taxas de juros sobre as hipotecas, que estão vinculadas aos rendimentos dos títulos do tesouro norte-americano, que os japoneses e os chineses compram com freqüência.

Esse não seria um final feliz, mas Henry Kaufman, economista e gerente de capitais --refletindo o otimismo de Wall Street no sentido de que a valorização e o ajustamento gradativo acabarão por dar resultados--, argumenta que China e Japão se beneficiam de outras formas lucrativas do empréstimo aos Estados Unidos.

Para os chineses, adquirir títulos do tesouro norte-americano fortalece a base de capital do seu abalado sistema bancário.

Já o governo japonês obtém um lucro direto. "Ele tem um déficit de orçamento de, digamos, US$ 300 bilhões, que financia tomando dinheiro emprestado do povo japonês a juros de 1%", afirma Kaufman.

"Esse dinheiro é reinvestido nos títulos do Tesouro norte-americano a uma taxa de cerca de 3%, o que dá aos japoneses uma margem de lucro de 2%. Se o dólar se desvalorizar eles perderão dinheiro. E por que eles desejariam perder dinheiro?". China poderá comprar menos títulos dos EUA, que já têm déficit alto Danilo Fonseca

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