UOL Notícias Internacional
 

24/07/2005

O que o amor tem a ver com trabalho?

The New York Times
Mireya Navarro

em Los Angeles
A bela analista financeira recém saída do curso de administração parece chamar a atenção do chefe. Ela está passando muito tempo no escritório dele. Logo começa a especulação: eles estão jantando juntos? Ele colocou a mão no braço dela? E de repente a analista está recebendo tarefas cobiçadas e eventualmente uma promoção.

Em torno deles todos observam e sussurram. Fazer o quê? Não é assim que o mundo funciona?

Bem, não na Califórnia, pelo menos desde 18 de julho.

Em uma decisão que expande significativamente a lei sobre assédio sexual no local de trabalho, a Suprema Corte da Califórnia determinou que os trabalhadores podem processar quando uma colega que está dormindo com o chefe estiver recebendo tratamento preferencial repetido.

Sindicatos e advogados que representam trabalhadores comemoraram, alegando vitória para um grupo que chamam de "os não amados". Phil Horowitz, presidente da Associação dos Advogados do Trabalho da Califórnia, disse que os empregados não podem mais ser "tratados como cidadãos de segunda classe por não se envolverem sexualmente".

Mas aqueles encarregados de administrar os funcionários na Califórnia correram atrás de antiácidos. Não apenas a administração terá que se preocupar com quem está dormindo com quem, mas também com quem entre eles conseguiu a sala maior, a tarefa mais cobiçada, uma promoção. E quem poderia estar se ressentindo com isto.

Cynthia Hopkins, uma vice-presidente de recursos humanos de uma organização que administra asilos, disse que já lida regularmente com queixas sobre relacionamentos no trabalho entre supervisores e subordinados. Um dia alguém se queixa de uma enfermeira que está tendo um relacionamento com o supervisor e recebeu um aumento sem avaliação. Outro dia é a namorada de um supervisor diferente à qual não é possível confiar queixas ligadas ao trabalho, porque ela poderia contar para o namorado.

Hopkins disse que apesar de tais relacionamentos serem desencorajados, impedi-los totalmente é impossível entre funcionários que trabalham longos turnos juntos e socializam após o trabalho em bares e partidas esportivas.

"O que vou fazer? Espioná-los?" ela perguntou.

De fato, algumas empresas proíbem os relacionamentos entre gerentes e seus subordinados em uma tentativa de se protegerem de processos de assédio sexual quando as coisas não dão certo.

Na Califórnia, o local de trabalho acabou de se tornar um ambiente mais difícil de navegar, concordaram representantes tanto de empregados quanto empregadores. Eles esperam que a direção vigie os supervisores mais atentamente para avistar quaisquer padrões de favoritismo. Enquanto isso, colegas de trabalho acabaram de receber licença para espionar.

"Alguns vão dizer: 'Eu suspeito, então vou descobrir'", disse Gloria Allred, uma advogada que representa mulheres em casos de assédio sexual há décadas e que disse que a decisão é muito abrangente. "As pessoas envolvidas em um relacionamento poderão descobrir que grande parte de sua vida privada será exposta."

No caso julgado pela Suprema Corte do Estado, Edna Miller e Frances Mackey, duas funcionárias da Presídio Estadual Feminino do Vale, em Chowchilla, a 56 quilômetros a noroeste de Fresno, na região central da Califórnia, processaram o Departamento Correcional Estadual em 1999, após o diretor ter transformado a prisão em um cenário da série "Desperate Housewives", ao ter casos sexuais simultâneos com três funcionárias.

Uma das mulheres se gabou de seu poder de extrair benefícios do diretor, Lewis Kuykendall, segundo a descrição dos relacionamentos no presídio na decisão da Suprema Corte Estadual. As três mulheres "brigavam por ele, às vezes em cenas testemunhadas por outros funcionários".

Quando Miller estava competindo com uma das amantes do diretor por uma promoção, a mulher disse para Miller que derrubaria o diretor com seu conhecimento "de cada cicatriz no corpo dele" caso não fosse promovida.

Os juízes da Califórnia decidiram que tal caso de favoritismo sexual disseminado eleva o grau de assédio sexual porque cria um ambiente "no qual é transmitida uma mensagem degradante às funcionárias, a de que são vistas pela administração como sendo 'objetos sexuais' e que a forma exigida para progredirem no trabalho é se envolvendo em conduta sexual com seus supervisores ou diretores".

Apesar do caso Miller ter descrito um comportamento particularmente ofensivo, relacionamentos entre funcionários e supervisores estão longe de ser raro, como mostram algumas pesquisas.

Uma pesquisa neste ano da Vault Inc., uma editora de livros sobre êxito profissional, revelou que 58% dos funcionários já mantiveram relacionamento com alguém no trabalho, um aumento em comparação a 46% dois anos atrás. Entre os 600 pesquisados, a pesquisa revelou que 14% já saíram com um chefe ou superior, enquanto 19% já saíram com um subordinado.

A Careerbuilder.com, uma rede de emprego online, obteve resultados semelhantes em uma pesquisa realizada neste ano com 1.300 entrevistados, que também concordaram (75%) que os funcionários devem poder se relacionar com quem quiserem no trabalho. Mas 46% preferem manter tais relacionamentos em segredo, revelou a pesquisa.

Dado quão comum e aparentemente inevitável é o romance no local de trabalho, grande parte da América corporativa faz vista grossa ao romance entre funcionários porque os empregadores relutam em se intrometer nas vidas privadas das pessoas, disseram especialistas em trabalho. Todavia, a visão prevalecente é de que relacionamentos entre gerentes e seus subordinados nunca são uma boa coisa.

No pior cenário, "você sai por algum tempo e depois separa", disse Horowitz. "A mulher pode adotar a atitude de que se submeteu ao sexo por pressão do chefe."

Para evitar conseqüências negativas potenciais quando o romance entre funcionários azeda, alguns empregadores têm recorrido à elaboração de "contratos de amor" que, entre outras coisas, reconhecem o relacionamento, obtêm um compromisso de ambas as partes de que seguirão a política de assédio sexual da empresa e se submeterão a uma arbitragem obrigatória por quaisquer alegações que possam derivar do relacionamento.

E levadas em grande parte ao depoimento de Anita Hill, nas audiências do Senado para indicação de Clarence Thomas, seu ex-chefe, para a Suprema Corte dos Estados Unidos em 1991, muitas empresas realizam treinamento de assédio sexual para supervisores (na Califórnia isto é obrigatório por lei para empregadores com 50 ou mais funcionários).

Para aqueles na periferia, mesmo um relacionamento aparentemente consensual entre um chefe e uma colega de trabalho pode causar uma queda na moral.

"Há um ressentimento automático, e então as pessoas tentam ser politicamente corretas e não dizer nada a respeito, porque não querem ser caretas", disse Diana Peterson-More, uma consultora de recursos humanos que treina funcionários e supervisores sobre leis de assédio sexual. "As pessoas ficam agitadas ao redor."

Mas legislar sobre o comportamento pode estar além do controle de qualquer um. Muitos empregadores acreditam que a decisão do tribunal da Califórnia ignora as realidades ao expor as empresas a um maior risco de processos caso não consigam policiar de forma eficaz os assuntos do coração.

"É preciso lembrar das dinâmicas do local de trabalho", disse Allison R. Michael, uma advogada trabalhista da Jones Day, que representa os empregadores. "Há algo atrativo no seu chefe. Chefes e suas secretárias. Médicos e enfermeiras. Isto não vai desaparecer."

Setores não convencionais como a indústria cinematográfica, onde o clichê da troca de favores sexuais para ser escalado para uma produção ainda é relevante, poderá ficar particularmente vulnerável.

"Todo programa de televisão, toda produção cinematográfica, é basicamente um hotel com palco de som", disse Marshall Grossman, um advogado de entretenimento que representa artistas e empresas de entretenimento. "Há quartos privados para cada membro do elenco e há trailers privados e muito tempo ocioso. Coisas acontecem no set."

Grossman está entre aqueles que acreditam que a decisão da corte abrirá a porta para mais processos frívolos e elevará a fofoca ao patamar de espionagem metódica, mas outros disseram que isto é improvável devido ao temor de retaliação.

Ilyanne Morden Kichaven, uma porta-voz do Sindicato dos Atores, disse que as pessoas na indústria do entretenimento, na qual apenas 20% a 25% dos 120 mil membros da organização estão trabalhando em qualquer momento, abominam vir a público com queixas sobre sexo no local de trabalho por temerem cair no ostracismo.

"Nós temos muitas queixas, mas a investigação freqüentemente não avança porque as pessoas não deixam seu nome", disse ela. "O trabalho é de curta duração, com múltiplos empregadores, e você quer trabalhar com tais pessoas novamente. Você não quer cair em uma lista negra."

Uma executiva da indústria da música, que foi envolvida em casos de abuso sexual de grande notoriedade no início dos anos 90, disse: "Em nosso ambiente, você tenta deixar de lado".

"As pessoas ficarão sensíveis se virem muito tratamento preferencial", disse a executiva, que falou sob a condição de anonimato por estar falando de colegas e pessoas que supervisiona, "mas as pessoas tentam deixar seu drama do lado de fora do escritório".

Mas o drama agora pode resultar em restituição caso o funcionário prejudicado tiver uma queixa legítima. Glen Kraemer, um advogado trabalhista que representa empregadores como hotéis, hospitais e empresas de varejo e manufatura, disse que a primeira ordem executiva para muitos após a decisão da corte estadual será instituir proibições de relacionamentos entre supervisores e subordinados.

Michael, o advogado dos empregadores, disse: "Isto deixará mais pessoas mais nervosas sobre relacionamentos no escritório devido ao impacto negativo que poderá ter sobre outra pessoa, pelo menos o impacto negativo percebido. Isto definitivamente fará as pessoas buscarem ser mais sigilosas".

Mas Allred notou que até mesmo os segredos mais bem guardados acabam vindo à tona.

"Especialmente em caso de rompimento, quando quase isto é quase certo", disse ela. George El Khouri Andolfato

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