UOL Notícias Internacional
 

26/07/2005

Queixas de recrutas causam queda nos casos de abusos em campos de treinamento

The New York Times
Erik Eckholm

Em Fort Knox, Kentucky
Até recentemente, o sargento Michael G. Rhoades era treinador do Exército em Fort Knox. Ele diz que estava apenas fazendo seu papel, lapidando civis para se tornarem fortes soldados, que não se quebrariam sob as pressões da guerra.

Kenneth Dickerman/The New York Times 
Sargento Lemont K. Gray (dir.) ajuda recruta em exercício; ofensas e agressões deixam de fazer parte do treinamento
Segundo os investigadores, os métodos de Rhoades incluíam socar o recruta no estômago, bater em seu peito e jogá-lo no chão e chamá-lo de "gordo nojento".

Anos atrás, essas acusações, se expressadas, não geravam nada além de uma reprimenda ou uma transferência do treinador.

Mas Rhoades, com 16 anos de serviço, enfrentou corte marcial em maio e foi considerado culpado por crueldade e por impedir uma investigação. Ele foi demitido sem honras. Dois outros sargentos em sua unidade foram rebaixados por maltratar recrutas e um quarto está aguardando a corte marcial. O capitão de sua unidade está servindo seis meses de prisão, por abandono do posto.

Rhoades diz que está sendo punido injustamente por técnicas que há muito fazem parte do treinamento básico. "É sabido que todos os treinadores trabalham em uma zona cinzenta", disse ele. "Se não, não estão fazendo seu papel."

Oficiais no Pentágono rejeitam a noção de que a humilhação e os maus tratos ajudam no treinamento. E agora, em tempos de guerra, os militares lutam para conseguir recrutas, e os comandantes parecem estar mais sensíveis às acusações de abuso. Suas respostas rápidas e públicas nos casos de Fort Knox refletem um esforço para demonstrar ao público e aos treinadores que tal comportamento não será tolerado.

"Vamos encontrar e processar os que maltratarem recrutas", disse o coronel Kevin Shwedo, chefe de operações o comando de recrutamento e treinamento do Exército.

"Se não fizermos isso, não vamos ter o apoio das mães e pais", disse Shwedo em uma entrevista telefônica de Fort Monroe, Virgínia. "Não vamos atrair o tipo certo de pessoas."

O general Terry L. Tucker, comandante do Fort Knox, disse que os procedimentos para expor abusos foram reforçados nos últimos dois anos.

"Isso pode ter resultado em um aumento no número de acusações desde 2003", disse Tucker em mensagem eletrônica. "Aumentamos as vias para os recrutas exporem suas preocupações", inclusive dando-lhes acesso aos oficiais de maior patente, disse ele.

A corte marcial em Fort Knox atraiu elogios e lamentos de soldados e veteranos. Depois que um dos treinadores, o sargento David H. Price, foi rebaixado em abril por mandar um recruta engolir seu vômito, arrastar outro pelos tornozelos e bater em um terceiro com um jornal enrolado, a soldado Kirstin Clary escreveu ao "The Army Times" que, quando estava em treinamento em 1988, "os sargentos tinham permissão de fazer muitas coisas. Agora, se olham para o recruta da forma errada, têm problemas. Na época, ainda era o Exército de verdade, e não uma farsa".

Mas outros escreveram que, apesar de entenderem o estresse dos instrutores, a punição era justa, ou até leve demais. O major John E. Niamtu, aposentado, escreveu que o processo de moldar recrutas deve ser feito "pelo exemplo, não pela brutalidade".

Altos oficiais e especialistas independentes concordam que, desde a Guerra do Vietnã, a cultura do treinamento básico mudou.

"A humilhação não é nem útil nem necessária. Não é possível criar, pelo uso da brutalidade, pessoas disciplinadas, seguidoras da lei, que vão aderir ao coleguismo", disse David M. Brahms, general Marine que se aposentou em 1988 como alto membro do setor jurídico e que hoje é advogado na Califórnia.

Os sargentos de treinamento ainda se excedem, dizem os comandantes, mas não tão freqüentemente. Em cada um dos dois últimos anos, o Exército, que é o maior braço militar, treinou quase 180.000 recrutas com 2.600 instrutores. Em 2003, recebeu 99 reclamações de abuso e 109 no ano passado. Segundo as investigações, 86 reclamações de 2003 eram fundamentadas e 76 em 2004, com a maior parte envolvendo abuso físico, má conduta sexual ou abuso verbal, disse o Exército.

As denúncias levaram a seis cortes marciais em 2003 e oito em 2004. Os resultados dessas não foram divulgados. Outras punições incluíram aconselhamento, reprimendas ou remoção da posição.

Nos primeiros cinco meses deste ano, o Exército treinou 102.000 recrutas e registrou 59 denúncias.

As cortes marciais em Fort Knox, que abriga 14.000 recrutas por ano, todos homens, são as primeiras nos últimos anos, disse uma porta-voz da base, Constance H. Shaffery.

A preparação física ainda é extenuante, e isso fica evidente aqui em Fort Knox, um dos muitos centros de treinamento do Exército, onde se vêem recrutas suando nas corridas de obstáculo ou nas práticas de artes marciais, enquanto se ouvem tiros de rifles ao fundo.

Mas as tormentas gratuitas das lendas e filmes --as grosserias, as flexões de braço infinitas como punição por um sorriso não autorizado-- em grande parte acabaram.

"Algumas vezes, você tem que ser incisivo, mas não é preciso fazê-los chorar", disse um treinador, o sargento John Jennings.

"A velha filosofia ditava que você não estava pronto para o combate se não estivesse infeliz o dia todo", disse Jennings. Quando foi treinado em 1989, ele viu crueldades verbais e até contatos físicos que hoje seriam denunciados, disse ele.

De acordo com seu manual detalhado, os instrutores podem se dirigir aos recrutas somente como "soldado", ou pelo sobrenome. Com poucas exceções, eles devem pedir licença antes de tocar em um recruta; o uso de flexões de braço como "ação corretiva" continua comum, mas com limites.

Ao final de suas nove semanas de treinamento inicial básico, os recrutas podem discutir suas reclamações com o comandante, seja sobre a comida, os deveres de casa ou os exercícios, em sessões apropriadas.

Os Marines estão avaliando as denúncias contra um instrutor em Parris Island, Carolina do Sul, que não fez nada para impedir o afogamento de um soldado durante um teste em uma piscina. O caso foi enviado a uma audiência similar ao grande júri civil para determinar se a corte marcial seria justificável.

Mesmo assim, aspectos do caso geram questões preocupantes, disse Eugene R. Fidell, presidente do Instituto Nacional de Justiça Militar, um grupo sem fins lucrativos em Washington.

No dia anterior ao afogamento, o mesmo recruta tinha sido agredido fisicamente por um treinador, depois de se recusar a entrar na piscina. O treinador, que não registrou o incidente, foi disciplinado junto com um colega também presente. Fidell se perguntava se o desentendimento teria sido registrado se uma equipe de televisão em visita não tivesse capturado as imagens em fita.

Parris Island foi cena do caso mais infame de abuso militar, ocorrido em 1956, quando seis recrutas afogaram-se durante uma marcha forçada noturna pelo pântano. Essa tragédia gerou diretrizes mais estritas para os treinadores, chamados de DI.

"Casos substanciados de abuso pelos DIs são raros, porque o sistema foi criado com vários válvulas de alívio", disse o major Kenneth D. White, porta-voz de Parris Island, um de dois centros de treinamento de Marines. Ele disse ter conhecimento de apenas uma condenação em corte marcial por abuso nos últimos três anos, mas que a base não tinha estatísticas sobre reclamações.

Rhoades, um dos treinadores punidos em Fort Knox, disse que as acusações contra ele foram exageradas e que era injusto ele e seus colegas enfrentarem corte marcial.

"Havia um interesse do comando de fazer o que fosse necessário para evitar que a imagem do Exército fosse manchada", disse em uma entrevista telefônica.

Vários sargentos e oficiais de Fort Knox disseram em entrevistas que as ações recentes tinham gerado dúvidas entre os próprios treinadores. Mas se disseram capazes de diferenciar os métodos corretos dos errados.

"Não estamos aqui para mimá-los", disse o sargento Brian Schrank enquanto observava seus colegas empurrando os recrutas desnorteados para formarem linhas retas. "De vez em quando, você tira seu chapéu por um tempo e conversa com eles", disse Schrank.

Os treinadores têm um sistema de coleguismo formal. Eles observam uns aos outros para verificar se há sinais de estresse nervoso. "Lemos os outros; é um sistema interno de avaliações que usamos", disse o sargento Daniel Mendez.

Mesmo com maiores preocupações com a agressividade de suas técnicas, o treinamento continua emocionalmente e fisicamente intenso, para instrutores e recrutas. Comandantes cada vez mais punidos por ofensas físicas e verbais Deborah Weinberg

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