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26/07/2005

Total de mortos poderia ser maior, aponta Egito

The New York Times
Mark Landler e Greg Myre*

Em Sharm El-Sheik, Egito
As autoridades egípcias, dando seu primeiro relato detalhado de um ataque terrorista mortal neste resort no Mar Vermelho, disseram nesta segunda-feira (25/07) que todas as três explosões foram atentados suicidas e sugeriram que as barreiras policiais podem ter forçado dois dos terroristas e detonarem seus explosivos antecipadamente, antes de chegarem aos alvos lotados de turistas ocidentais.

Como resultado, a maioria das vítimas dos atentados de sábado foi egípcia. Das 64 pessoas que foram mortas, pelo menos 44 eram do Egito, disse o governador do sul do Sinai, Mustafa Afifi.

Até 17 estrangeiros foram mortos, a maioria europeus. Uma americana estava entre os mortos, segundo a Embaixada dos Estados Unidos no Egito, e relatos na imprensa a identificaram como sendo Kristina Miller, 27 anos, de Las Vegas, que estava em férias aqui com seu namorado britânico. As nacionalidades de três dos mortos não puderam ser determinadas, apesar da crença de que sejam egípcios, disse o governador.

"Era óbvio que queriam atacar o turismo", disse Afifi em uma coletiva de imprensa aqui.

O governador não apresentou novos detalhes sobre quem planejou os ataques, que apresentavam forte semelhança com os três atentados a bomba coordenados em outubro passado, em Taba e arredores, um resort no canto nordeste da península do Sinai.

Um alto oficial de segurança, falando sob a condição de anonimato devido a restrições políticas, disse que a polícia acredita que os terroristas vieram para Sharm El Sheik por estradas remotas das montanhas em duas picapes Isuzu. As principais estradas costeiras que chegam e saem de Sharm El Sheik possuem muitas barreiras policiais.

"O preparativo e execução foram locais", disse o oficial de segurança. "Mas talvez o planejamento tenha tido elementos estrangeiros."

A crescente evidência de que os atentados visavam principalmente os turistas estrangeiros complica a tarefa das autoridades egípcias, que se preocupam com os danos à crescente indústria do turismo do país. Um ataque de metralhadora contra turistas europeus em Luxor, no Rio Nilo, em 1997, matou 62 pessoas e afugentou turistas por muitos anos.

"Este é um terrorismo internacional que não tem religião, etnia ou valores", declarou Afifi. "Eles estão tentando matar pessoas inocentes e arruinar o ganha-pão das pessoas daqui."

Enquanto os egípcios ampliavam sua busca, a polícia circulava fotos no aeroporto de Sharm El Sheik e em outros lugares de cinco paquistaneses, que chegaram no Cairo há cerca de um mês e desapareceram poucos dias depois.

A polícia quer interrogar os homens, apesar das autoridades de segurança egípcias, incluindo o oficial de segurança de Sharm El Sheik, terem enfatizado que não há evidência de que os homens que vieram do Cairo para cá estão vinculados aos atentados.

Os alvos não teriam sido atingidos

Apesar dos três atentados parecerem ter sido bem planejados, apenas um parece ter atingido o alvo.

A polícia argumenta que o primeiro atentado, no qual uma pequena picape explodiu no meio de uma rua larga do lado de fora do Mercado Velho, na verdade visava um hotel próximo cheio de hóspedes europeus.

Entre três e cinco minutos depois, um segundo terrorista colidiu uma picape semelhante no saguão de seu alvo planejado, o hotel Ghazala Gardens, e detonou seus explosivos, destruindo grande parte da fachada do prédio, que estava lotado, principalmente de europeus.

A última das três explosões, cerca de três minutos depois da segunda, foi detonada por um terrorista a pé em um estacionamento, e matou relativamente poucas pessoas.

Mas a menos de 50 metros ficava um passeio público repleto de bares e restaurantes. Ele estava cheio de ocidentais apesar da explosão ter ocorrido por volta da 1 hora da madrugada, porque os turistas saem tarde, após a diminuição do forte calor do dia.

O oficial de segurança que investiga o caso disse que uma pessoa carregava cada bomba, e expressou confiança de que todos os três terroristas morreram. Ele também disse que acha que eram egípcios.

Outras autoridades e algumas testemunhas disseram previamente que achavam que um ou mais dos terroristas podem ter escapado. O investigador disse que é possível que os três corpos não identificados possam ser os dos terroristas.

As amplas medidas de segurança de Sharm El Sheik podem ter atrapalhado os ataques e provavelmente salvo vidas.

No caso do atentado no mercado, a polícia estabeleceu uma barreira no fim de uma rua de mão única, bloqueando o caminho do terrorista até o hotel Iberotel, nas proximidades, que se acredita ser o destino do terrorista. Estas chamadas barreiras de emboscada são parte permanente da segurança antiterrorismo de Sharm El Sheik.

O Iberotel é semelhante ao Ghazala, com um saguão próximo da rua, apesar de cada hotel ter guardas e barreiras fixas, como no caso de virtualmente todos os hotéis na cidade. O Iberotel e o Ghazala estavam lotados de turistas ocidentais.

O terrorista estava dirigindo pelo mercado a caminho do hotel e provavelmente parou quando viu a barreira policial, disse Afifi. A polícia especula que a bomba podia ser um dispositivo com temporizador, programada para explodir quando a picape chegasse ao hotel, a cerca de 150 metros de distância.

Atrapalhado ou não, o atentado foi brutalmente eficiente, matando e ferindo dezenas de egípcios, já que muitos estavam tomando chá em cafés ao ar livre. A explosão abriu uma enorme cratera na rua, incinerando carros e ônibus nas proximidades, e dando um banho de estilhaços de vidro nas lojas de camisetas e bancas de souvenires. Relativamente poucos ocidentais estavam nestas lojas no momento.

A terceira bomba poderia ser igualmente devastadora. O terrorista, que aparentemente carregava seus explosivos em uma sacola ou amarrados na sua cintura, estava caminhando na direção do passeio público, que possui uma série de cafés e restaurantes, incluindo o Hard Rock Cafe, Kentucky Fried Chicken, Pizza Hut e McDonald's.

"Nosso estabelecimento estava lotado, a maioria estrangeiros", disse Ayman Naseem, o gerente de marketing do Hard Rock Cafe.

Naseem disse que policiais protegiam a entrada do passeio naquela noite, como sempre. Ele especulou que o terrorista pode ter se assustado à medida que se aproximava e se desviou para o estacionamento.

Não se sabe por que a bomba explodiu lá. Afifi, o governador, disse acreditar que o terrorista morreu e que a polícia encontrou restos de tecido, possivelmente da sacola que o terrorista estava carregando.

Naseem não escutou a primeira bomba explodir no mercado porque, segundo ele, "nossa música estava muito alta". Mas após ouvir a segunda, no hotel Ghazala Gardens, ele saiu para investigar. Em questão de três minutos, ele foi ensurdecido pela explosão no estacionamento, a menos de 200 metros de distância.

A polícia traçou vários paralelos entre este ataque e os três atentados a bomba coordenados de outubro passado, em Taba e arredores, um resort no canto nordeste da Península do Sinai. Ela citou especificamente a execução, equipamento e os tipos de explosivos usados. O oficial de segurança não descreveu as bombas usadas em Sharm El Sheik exceto dizer que o material explosivo foi "feito localmente, em grande quantidade, mas de forma amadora".

Isto voltou a suspeita contra beduínos que vivem no deserto do Sinai, que também são suspeitos dos atentados em Taba. A polícia deteve várias dezenas de beduínos para interrogatório sobre os atentados daqui, apesar de muitos terem sido liberados e as autoridades não ligarem nenhum deles aos ataques.

Enquanto isso, Sharm El Sheik está fazendo o melhor que pode para voltar à normalidade, limpando os locais atingidos e tranqüilizando os turistas de que a cidade é segura. A presença da polícia já era considerável antes dos atentados.

A maioria dos hotéis possui múltiplos guardas e detectores de metal na entrada da frente, e barreiras que impedem a aproximação de carros dos prédios. Vários hotéis agora possuem placas que dizem: "Somos contra o terrorismo".

Investidores locais proeminentes estão se mobilizando para declarar sua confiança no futuro do resort. Para demonstrar solidariedade com seus funcionários, os hotéis da cidade prometeram não demitir nenhum, mesmo se houver uma forte queda nas reservas provocada pelos atentados.

"Nós tivemos muitos lucros nos últimos anos e agora é nossa vez", disse Hussein Salem, um investidor que é dono do amplo Jolie Ville Hotel, próximo do destruído Ghazala Gardens.

*Colaborou Mona El Naggar. Esquema de segurança teria atrapalhado os terroristas no balneário George El Khouri Andolfato

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