UOL Notícias Internacional
 

26/07/2005

Transplante de rosto traz uma esperança para as pessoas com a face desfigurada

The New York Times
Mike Mason

Em Nova York
Em uma sala de emergência em um hospital finlandês, os médicos tentavam religar a mão de um homem, decepada horas antes enquanto cortava madeira. Os milagres da medicina assumem várias formas, mas poucos são tão vívidos e imediatos quanto esse: quando os minúsculos vasos sangüíneos foram suturados, a mão do paciente passou da cor de porcelana para rosa. Os tendões delicados da palma reviveram e sua aparência de granito começou a se suavizar.

Eustacio Humphrey/The New York Times 
Para a cirurgiã plástica Maria Siemionow, o transplante é esperança para desfigurados
A sorte do homem tinha virado, como também a de Maria Siemionow, residente de cirurgia que foi assistente na operação.

"Para mim foi um milagre ver que era possível restaurar uma parte perdida da pessoa e de fato vê-la voltar à vida. Nunca esqueci daquele dia", disse Siemionow, polonesa que estudou na Finlândia e nos EUA.

Trinta anos depois, a micro-cirurgia tornou-se uma maravilha comum, e Siemionow, 55, é uma grande praticante, diretora de cirurgia plástica da Clínica Cleveland.

Mas essa carreira que começou em um hospital de Helsinque levou a profissão a um ponto extraordinário. Uma equipe liderada por Siemionow está planejando fazer o que pode ser o procedimento médico mais chocante em décadas: um transplante facial.

Depois de anos de debate científico sobre a ética e a possibilidade técnica da cirurgia, a Clínica Cleveland tornou-se a primeira instituição a aprová-la no último outono. O grupo de Siemionow já está procurando seu primeiro paciente.

Fotógrafa amadora, Siemionow é extrovertida e alegre e não o tipo de pessoa que se espera encontrar no centro de uma dança médica macabra. Mas este não é um procedimento ordinário, e ela não é uma cientista ordinária.

"Esta é a área mais importante na pesquisa da reconstrução e é ela quem está levando a tocha", disse L. Scott Levin, chefe de cirurgia plástica e reconstrução do Centro Médico Duke. "Ela é incrivelmente humilde, mas internacionalmente respeitada e tem grande força moral. Ela realmente quer ajudar esses pacientes", disse Levin.

Siemionow foi criada em Poznan, que fica entre Varsóvia e Berlim. Poznan tem uma grande universidade médica com rica tradição acadêmica, que vem desde os tempos da Renascença. Ela se graduou ali em 1974.

"Até na escola nós aprendíamos que a medicina é uma prática humanista", disse ela. "Os médicos fazem parte das vidas dos pacientes, e deve haver um laço íntimo."

Poucas áreas de medicina têm maior necessidade de uma perspectiva humanista. Ninguém sabe exatamente como as pessoas lidam com a desfiguração causada por queimaduras, trauma, doenças ou defeitos de nascença.

Mas Siemionow viu muitos casos --a mulher que foi deixada pelo noivo depois que se queimou em um acidente de carro, o recluso solitário que perdeu o rosto para o câncer. Para esses pacientes, os médicos têm muito pouco a oferecer para restaurar sua aparência.

Os cirurgiões plásticos em geral cobrem o rosto danificado com pele retirada das costas, nádegas ou coxas da vítima. Os pacientes podem necessitar de até 50 operações para voltar a ter uma função limitada, e os resultados nem sempre são satisfatórios.

A recuperação da expressão facial normal, como as sobrancelhas levantadas e sorrisos tortos, tão essenciais para a interação social, é impossível. Freqüentemente, os pacientes não podem abrir ou fechar adequadamente as pálpebras e a boca, que são estruturalmente complexas. Mesmo depois de dezenas de operações, muitos pacientes desfigurados têm que se alimentar por tubos.

E o resultado estético, freqüentemente comparado com uma máscara ou uma colcha de retalhos, pode ser tão perturbador que alguns pacientes raramente saem de casa. Não é incomum desenvolverem depressão.

"Quando você menciona transplante facial, as pessoas pensam que você está falando de vaidade, que alguém saudável vai andar por aí com o rosto de outra pessoa", disse Siemionow. "Mas dentro da comunidade de cirurgiões, percebemos isso como um avanço para esses pacientes traumatizados."

O procedimento é uma possibilidade teórica desde 1999, quando cirurgiões da Universidade de Louisville executaram o primeiro transplante de mão da nação. A operação foi duplicada uma dúzia de vezes, e a experiência deu aos cirurgiões como Siemionow a coragem --excessiva, segundo os críticos-- de pensar o impensável.

"Você já viu uma pessoa severamente desfigurada? Algumas vezes eu tenho que me forçar a olhar nos olhos do paciente. Somos animais sociais, e o rosto é importante para quem somos como seres humanos", disse John Barker, diretor de pesquisa em cirurgia plástica da Universidade de Louisville.

(Barker e colegas da Universidade de Utrecht e Louisville também estão pedindo permissão para fazer um transplante facial experimental na Holanda. As propostas de cirurgiões no Reino Unido e na França foram negadas.)

A cirurgia e seus desafios

Divulgação 
No agora visionário "A Outra Face", Nicholas Cage (dir.) e John Travolta trocam tiros, identidades e as próprias faces
Os desafios médicos nos transplantes são incríveis. Segundo Siemionow, a série de operações vai requerer equipes alternadas de médicos especialistas que poderão ser empregados em mais de uma sala de cirurgia.

A face a ser transplantada deverá ser removida de um cadáver, provavelmente incluindo a epiderme, a camada de gordura abaixo, nervos e vasos sangüíneos, mas nenhum músculo. Os cirurgiões também removerão o tecido facial danificado do paciente. Depois, ligarão os vasos sangüíneos e nervos ao rosto transplantado. Os procedimentos levarão 15 horas ou mais.

Os meses seguintes poderão ser ainda mais angustiantes. Os pacientes que recebem órgãos transplantados devem tomar drogas a vida toda para suprimirem seu sistema imunológico e impedirem a rejeição do tecido.

As drogas são caras, chegando a US$ 1.000 (em torno de R$ 2.500) por mês, e nem sempre funcionam. Mesmo quando funcionam, a imunossupressão de longo prazo aumenta o risco de a pessoa desenvolver infecções fatais e câncer.

Assim, antes de cada transplante, os médicos devem pesar o grau de necessidade de um novo órgão contra a possibilidade de rejeição e de uma vida mais curta.

A pele implantada provoca uma resposta imune poderosa, ainda mais do que no caso de transplante de fígado e rim. Então, apesar de muitas páginas de pesquisa, os riscos dos primeiros pacientes de Siemionow são uma incógnita; a cirurgia, um passo no escuro.

Apesar de muitos pesquisadores considerarem a proposta um avanço, os críticos descrevem a idéia como um caso alarmante de excesso científico.

Especialistas em ética médica acreditam que ainda há questões demais a serem respondidas, especialmente para um procedimento que não salva vidas, mas as ameaça.

Quais são as perspectivas do paciente se o novo rosto for rejeitado? Quais são as ramificações psicológicas para a família do recipiente, e do doador, se o recipiente de fato se parecer com o doador?

Isso é improvável, mas não impossível: apesar dos ossos faciais serem diferentes, pode-se gerar semelhança se a musculatura facial do doador também for transplantada.

"Essa idéia precisa ser mais bem avaliada. Em alguns casos, os riscos claramente excedem os benefícios; em outros, não podem ser quantificados. Veja que muito na ciência é ilusão. As pessoas sempre acham que vão ser curadas com novos tratamentos e que a vida voltará ao normal, mas em geral não é assim", disse Karen Maschke, assessora de política cientifica e ética do Centro Hastings, instituto de pesquisa bioética em Garrison, NY.

Siemionow é contra a noção de que pacientes desfigurados não devem decidir se correrão os riscos. Ela pergunta: "Como as pessoas normais podem decidir pelas vítimas de queimaduras? Como podem dizer: 'Isso não é bom para você'?"

Em uma série de experimentos inovadores com ratos de laboratório, a equipe da médica conseguiu induzir a tolerância de longo prazo com um regime de drogas de apenas sete dias.

Se resultados similares puderem ser alcançados em humanos (muitos esforços anteriores fracassaram), o avanço alterará a matemática por trás dos transplantes, tornando-os possíveis para um número maior de pacientes, inclusive os que perderam o rosto.

Mas esse dia pode não chegar e, por enquanto, a verdadeira batalha pode nem ser científica.

A Outra Face

Hollywood já adotou a noção de que os rostos algum dia poderão ser trocados.

Desde o momento que Siemionow propôs a cirurgia pela primeira vez, ela vem ouvindo falar de "Face/Off" (A Outra Face), filme de 1997 com John Travolta e Nicolas Cage, que são um agente do FBI e um criminoso cujos rostos são cirurgicamente trocados.

Certa noite, antes da primeira análise de sua proposta por colegas da clínica, ela alugou o filme para julgar a possível reação do público à cirurgia.

"Era bom, se você gosta de Travolta", disse. "Mas era apenas ficção científica." "A Outra Face": uma cirurgiã corajosa, para uma cirurgia inusitada Deborah Weinberg

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