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27/07/2005

Fuzileiro que voltou do Iraque candidata-se para o Congresso com discurso anti-Bush

The New York Times
James Dao

Em Cincinnati, Ohio
No 2º Distrito Congressual de Ohio, onde os republicanos se mantêm firmes nos últimos 30 anos, a rota mais rápida para o aniquilamento político deveria ser aquela escolhida por Paul L. Hackett: chamar o presidente Bush de um "falcão-galinha" por não ter servido no Vietnã e criticar duramente a decisão de invadir o Iraque.

Mark Lyons/The New York Times 
Militar Paul Hackett, candidato democrata ao Congresso, ataca ponto forte de Bush
Mas Hackett, o candidato democrata na eleição legislativa especial de 2 de agosto, não é um político comum. Até quatro meses atrás, ele servia no Corpo de Fuzileiros Navais, comandando uma unidade de assuntos civis no Iraque.

Se Hackett for eleito, algo que os democratas admitem ser difícil, ele se tornará o primeiro membro do Congresso que serviu na guerra do Iraque. Isso, por si só, ajudou Hackett, um advogado de 43 anos, a transformar a sua aventura eleitoral em uma concorrida disputa política.

"Quando alguém diz às pessoas que acabou de voltar do Iraque, elas param e ouvem", afirma Timothy Burke, diretor do Partido Democrata no condado de Hamilton. "Se não fosse por esse fator pouca gente estaria prestando atenção nele".

Mas a oponente republicana de Hackett, Jean Schmidt, não está dando chance ao azar. Schmidt despejou mais de US$ 200 mil do seu próprio bolso na sua campanha e tem viajado incansavelmente por todo o distrito. A sua campanha recebeu dezenas de milhares de dólares dos comitês nacionais republicanos, e Bush concordou em gravar uma mensagem telefônica para ela que será colocada no ar no final de semana anterior à eleição especial.

"Sou uma corredora, e sei que é quando você está superconfiante que vê surgir a sombra do seu concorrente", afirma Schmidt, 53, que já participou de 54 maratonas. "E eu não vejo a sombra dele".

Os candidatos estão disputando a cadeira ocupada durante 12 anos por Rob Portman, que renunciou para se tornar o representante de Comércio de Bush. Portman venceu rotineiramente no distrito, que se estende das comunidades pobres ao longo do Rio Ohio até os afluentes subúrbios de Cincinnati, com mais de 70% dos votos.

O Partido Democrata nacional inicialmente ignorou a disputa. Mas Hackett modificou algumas mentes, e o partido começou a despachar a campo alguns dos seus militantes jovens, esperando transmitir a mensagem de que Bush está fraco em um dos distritos que lhe é mais leal.

Além disso, o estrategista democrata James Carville foi a atração em um evento em Cincinnati nesta terça-feira (26/07), que arrecadou quase US$ 100 mil para Hackett. Até o momento, o democrata só arrecadou um terço da verba conseguida por Schmidt. Na quinta-feira, Max Cleland, ex-senador democrata da Georgia e veterano do Vietnã, fez campanha com Hackett, chamando a sua decisão de ir ao Iraque como voluntário de "um ato de consciência".

"Alguém que liderou no campo de batalha. É esse o tipo de gente que queremos ver no Congresso dos Estados Unidos", disse Cleland em um comício na quinta-feira em Blue Ash.

Hackett, filho de um caixeiro-viajante, ingressou no Corpo de Fuzileiros Navais durante a faculdade e foi para a reserva com honras em 1999. Ele voltou à força em 2004, comandando uma unidade de assuntos civis em Ramadi e em Fallujah. Magro e com 1,93 m de altura, ele é tagarela e gosta de contar piadas. Ele é casado e tem três filhos de um, quatro e oito anos.

Hackett diz que se perder a eleição, provavelmente retornará ao Iraque no ano que vem.

Schmidt é filha de um banqueiro local bem conhecido que era dono de equipes de carros de corrida de Indianápolis. Baixa, forte e intensa, ela transpira seriedade e gosta de fazer longas pausas antes de responder a perguntas. Ela é casada com um assessor de investimentos e tem uma filha de 27 anos.

Hackett, que disse que nunca alimentou ambições políticas antes, entrou na disputa no dia em que retornou do Iraque, em março, quando um amigo lhe falou a respeito da nomeação de Portman. Schmidt, ex-deputada estadual, disse que formou um comitê exploratório, fez uma pesquisa de opinião informal e refletiu sobre a disputa durante uma semana antes de mergulhar nas tumultuadas eleições primárias republicanas.

Os candidatos são ainda mais diferentes com relação à maior parte dos assuntos. Schmidt é a favor de tornar as reduções de impostos de Bush permanentes, mas não oferece planos para acabar com o déficit fiscal, além de cortar a "gordura desnecessária" e reduzir a ineficiência burocrática. Hackett se opõe a tornar tais reduções permanentes, afirmando que as tropas no Iraque não estão recebendo suprimentos ou benefícios adequados.

Schmidt, líder do grupo Right to Life of Greater Cincinnati (Direito à Vida da Grande Cincinnati), deseja que o aborto seja banido. Hackett diz que se opõe ao aborto, mas acredita que o governo não deveria ditar normas relativas à saúde das mulheres.

Porém, os dois apóiam o direito amplo ao porte de armas. A sua oposição ao banimento das armas de assalto fez com que Hackett, que diz possuir fuzis militares e autorização para porte não ostensivo de armas, entrasse em atrito com vários democratas.

"O Partido Democrata está equivocado quanto a isso", afirma. "Não queremos que o governo se envolva no direito de escolha da mulher. Então como vamos dizer as pessoas que o governo pode se meter na questão do direito da posse de armas?".

Bush também acabou sendo uma questão da campanha. Schmidt afirma que 64% dos eleitores do distrito votaram em Bush no ano passado. Segundo ela, a sua única discórdia com relação ao governo diz respeito à proposta de Bush para a criação de contas privadas no Social Security, algo que segundo ela seria arriscado.

Hackett critica Bush duramente, afirmando que os Estados Unidos deveriam ter se concentrado na captura de Osama Bin Laden, em vez de invadirem o Iraque tão rapidamente. Em um fórum público, ele disse que Bush é a maior ameaça com a qual os Estados Unidos se deparam, uma afirmação que, segundo os republicanos, enfureceu muitos eleitores.

Mas Hackett também procurou explorar a popularidade de Bush aqui, abrindo a sua única propaganda eleitoral televisiva com uma imagem na qual o presidente diz: "Não existe ocupação mais elevada do que o serviço nas nossas forças armadas". Os republicanos disseram que a propaganda é hipócrita. "Eu quero vencer", retrucou Hackett.

Os democratas também estão esperando que a repulsa ao escândalo envolvendo a administração do governador republicano, Bob Taft, acusado de ter embolsado irregularmente US$ 13 milhões de um fundo de compensação aos trabalhadores estaduais, reduza o comparecimento dos eleitores republicanos às urnas.

Mas Schmidt é uma competidora calejada, tendo suplantado vários candidatos mais conhecidos, incluindo Pat DeWine, filho do senador Mike DeWine, nas primárias. Ela alega que, embora os eleitores respeitem o serviço militar de Hackett, isso não será um fato decisivo.

Na feira do condado de Warren, onde Schmidt comprou um porco de 103 quilos de uma garota de nove anos e assistiu a uma corrida de carros de batida, Charles Hartman, ex-democrata que se filiou ao Partido Republicano, concordou.

"É algo de positivo para ele", afirmou Hartman, especialista em dependência de drogas que trabalha para um grupo sem fins lucrativos, após ter conhecido Schmidt. "Só que nós aqui não estamos em guerra".

Mas Todd Schulte, um republicano, afirmou que o serviço militar de Hackett fez com que pensasse em votar nos democratas em 2 de agosto. Schulte, um empresário de 40 anos, esteve no comício de Hackett em Blue Ash e ficou impressionado com a decisão do candidato de seguir como voluntário para o Iraque.

"Ele tem uma mulher, filhos e um bom emprego, mas não quis ficar sentado na fileira de trás", disse Schulte. "Isso foi algo que me deu o que pensar". O democrata Paul L. Hackett tenta ser eleito em reduto republicano Danilo Fonseca

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