UOL Notícias Internacional
 

27/07/2005

Medir danos com precisão é o desafio para Nasa

The New York Times
John Schwartz

No Cabo Canaveral, Flórida
Agora que a Discovery está em órbita, o exame tem início. Sua missão de 12 dias e meio será a mais fotografada na história do programa do ônibus espacial, com todos os olhos voltados para a nave para ver se sofreu o tipo de dano causado pelos destroços do lançamento que derrubaram a Columbia, em fevereiro de 2003.

NASA/The New York Times 
Seqüência de imagens mostra o Discovery ejetando o tanque externo de combustível
Havia câmeras na plataforma de lançamento, câmeras montadas em aviões monitorando a ascensão, câmeras na nave checando pedaços perdidos de espuma do tanque de combustível externo e uma câmera no próprio tanque.

Um câmera registrou uma imagem de um objeto misterioso caindo do ônibus espacial durante o lançamento; o radar detectou outro, a cerca de dois minutos de vôo. As câmeras a bordo da nave e da Estação Espacial Internacional monitorarão a Discovery intensamente até o final de sua missão.

Mas toda esta inspeção pode ter um resultado ambíguo. Inevitavelmente, disseram engenheiros e outros especialistas, quanto mais a Nasa procurar por danos, mais ela os encontrará. E os riscos de reação exagerada aos sinais de dano enquanto o ônibus espacial está em órbita poderão ser tão grandes quanto o risco de minimizá-los.

"Como você distingue --discrimina-- entre dano que é crítico e dano sem maior importância?" perguntou David Wolf, um astronauta que passou quatro meses a bordo da estação espacial russa Mir. "Nós poderemos nos ver diante de decisões muito difíceis, em parte por causa de toda esta informação adicional que nos será apresentada."

O programa do ônibus espacial conviveu com danos de escombros desde seu primeiro vôo, em 1981; em 113 missões, as naves foram atingidas por destroços cerca de 15 mil vezes, grande parte disto no lançamento. A Nasa substitui cerca de 100 ladrilhos isolantes após cada vôo e repara um número muito maior que este, disse Stephanie S. Stilson, diretora de veículo da Nasa para a Discovery, em uma entrevista na segunda-feira.

Mas agora será muito mais fácil avistar tais danos enquanto a nave ainda está em órbita. Graças a um sistema de câmera laser de US$ 15 milhões, desenvolvido por uma empresa canadense, a Neptec, por exemplo, a Nasa pode detectar uma rachadura de apenas dois centésimos de polegada --a espessura de dois cartões de visita pressionados juntos.

Na borda dianteira da asa da nave, tal rachadura poderia permitir a entrada de quantidades perigosas de gás superaquecido durante a reentrada. Uma rachadura semelhante em outras partes não.

Mas se uma rachadura for detectada, perguntou Iain Christie, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Neptec, "como a Nasa irá explicar que isto não é um problema?"

Nem está claro como poderia ser consertado. Os esforços da Nasa para criar um kit de reparos para ladrilhos e painéis na borda dianteira --uma recomendação da comissão independente que investigou o acidente da Columbia-- não foram bem-sucedidos.

Apesar de algumas técnicas que serão testadas em amostras de ladrilhos e painéis durante uma caminhada no espaço, nos próximos dias, elas ainda não estão prontas para um reparo de emergência de fato, e os astronautas da Discovery disseram que não confiariam em qualquer remendo em uma volta para a Terra.

Outra opção, o plano de "refúgio", envolveria abandonar o ônibus espacial de US$ 2 bilhões e fazer com que os astronautas aguardassem na estação espacial por uma missão de resgate. Para tal plano funcionar, outro ônibus espacial teria que ser lançado em questão de poucas semanas.

Isto é teoricamente possível, mas cheio de riscos próprios: a terrível possibilidade, por exemplo, de os astronautas em órbita ficarem sem alimento, água ou oxigênio antes que a missão pudesse ser montada.

"Há risco em tudo o que você faz", disse Kyle Herring, um porta-voz da Nasa. "Permanecer na estação é arriscado."

A intensa análise da missão da Discovery é um esforço para compensar décadas de ignorância. Até o desastre da Columbia, os engenheiros e diretores da Nasa acreditavam que algo tão leve quanto uma espuma de isolamento não poderia danificar o ônibus espacial.

A Columbia, cuja borda dianteira foi arrebentada por um pedaço de espuma de 0,75 quilos, colocou a Nasa em uma luta de dois anos para descobrir quão frágil era o sistema de proteção térmica da nave e como detectar danos em futuros vôos.

Grande parte do esforço foi dedicado a determinar que tipo de dano precisa de ação imediata e qual pode esperar pelo retorno do ônibus especial.

A busca por uma série de golpes permitidos de escombros envolveu milhões de simulações de computador e testes físicos com túneis de vento, jatos e mais, disse Herring, o porta-voz da agência.

A história também serve de guia. "Nós temos este banco de dados de 15 mil danos nos ladrilhos", disse Herring, "e sabemos de que tamanho são". Os diretores de missão realizaram exercícios nos quais tiveram que decidir se traziam o ônibus de volta com tipos e graus diversos de danos.

Mas Edward Tenner, um autor e especialista em questões de tecnologia, alertou que usar tecnologia para analisar sistemas complexos pode ser uma faca de dois gumes. Apesar de tais análises poderem "dar uma visão verdadeira" de um problema, ele disse, elas podem "fazer parecer melhor do que realmente é". Ele chamou isto de "a ilusão do controle".

Wolf, o astronauta, que tem diploma de medicina, comparou o problema ao dos médicos de hoje, com suas ferramentas de diagnóstico cada vez mais poderosas. "Torna difícil para o médico saber o que é esperado e quais são males de fato", disse ele.

O dr. H. Gilbert Welch, um professor de medicina da Universidade de Dartmouth e um administrador do Centro Médico dos Veteranos, em White River Junction, Vermont, concordou.

"Muito daquilo que chamamos de doença agora nunca se torna clinicamente aparente durante a vida do paciente", disse ele. "Tudo o que você encontra é menos ameaçador, mas você nunca pode dizer que qualquer coisa não representa ameaça nenhuma."

E agora que a Nasa enfrenta um desafio semelhante, ele continuou, acrescentando: "Meu coração está com eles --estou certo que querem fazer o melhor que podem. Mas quanto mais olharem, mas coisas eles encontrarão." Maior observação do ônibus espacial Discovery traz riscos próprios George El Khouri Andolfato

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