UOL Notícias Internacional
 

28/07/2005

Nasa suspende o programa de ônibus espaciais

The New York Times
John Schwartz

Em Houston
A Nasa suspendeu novos vôos dos ônibus espaciais nesta quarta-feira (27/07), após determinar que um grande pedaço da espuma isolante se desprendeu do tanque de combustível externo do ônibus espacial Discovery, durante seu lançamento na manhã de terça-feira --o mesmo problema que condenou a Columbia e seus sete astronautas na última missão, dois anos e meio atrás.

A espuma não parece ter atingido a Discovery, de forma que não afetará a missão de 12 dias e meio do ônibus espacial na Estação Espacial Internacional, disseram os diretores. Mas como a Nasa fracassou em corrigir o problema, apesar de centenas de milhões de dólares e dois anos e meio de testes, novos vôos serão adiados por tempo indeterminado.

"Até consertarmos isto, nós não estamos prontos para voar de novo", disse William Parsons, diretor do programa do ônibus espacial, em uma coletiva de imprensa no Centro Espacial Johnson aqui, na noite de quarta-feira.

A detecção do desprendimento de outro grande pedaço da espuma isolante é um revés potencialmente devastador para a Nasa e um contraponto amargo para o júbilo do lançamento aparentemente perfeito da Discovery, um retorno das missões dos ônibus espaciais saudado como uma volta inspiradora para o programa espacial.

"Nós decidimos que era seguro voar desta forma", disse Parsons. "Obviamente, estávamos errados." O incidente da espuma ocorreu dois minutos após o lançamento, onde a atmosfera é tão rarefeita que o pedaço de espuma se afastou. O acidente da Columbia ocorreu em parte porque a espuma caiu do tanque cerca de 82 segundos após o lançamento, quando o ar ainda é mais denso e fez com que ela atingisse o ônibus espacial com maior força.

N. Wayne Hale, vice-diretor do programa do ônibus espacial, disse que se a espuma da Discovery tivesse se desprendido um pouco antes, "nós achamos que teria sido realmente ruim".

Tenso e grave, Parsons reconheceu estar "decepcionado". Hale soou resignado. "Nós estamos no ramo de voar no espaço --é um negócio muito difícil", disse ele, acrescentando: "Não é desanimador. É apenas a natureza do negócio".

Outros estavam mais desanimados. Um engenheiro da Nasa que esteve envolvido no esforço de retomada dos vôos disse: "É uma história ruim. É uma droga". O engenheiro, que falou sob a condição de anonimato por causa da sensibilidade das questões envolvidas, acrescentou: "Todos estão realmente, realmente decepcionados".

O anúncio coloca em questionamento o esforço de dois anos e meio da Nasa para reduzir o tamanho e a quantidade dos destroços que se desprendem do tanque externo do ônibus espacial durante a turbulenta punição, semelhante a um túnel de vento, do lançamento, como parte de seus esforços para melhorar a segurança após a tragédia da Columbia.

A Columbia e sua tripulação foram perdidas na reentrada na atmosfera porque um pedaço de espuma isolante, de 0,75 quilo, se desprendeu do tanque externo e colidiu com a borda dianteira da asa esquerda do ônibus espacial.

Tal pedaço caiu de uma área de espuma aplicada à mão chamada rampa bipé. A espuma isolante da rampa cercava as estruturas que conectam o tanque ao ônibus espacial, e foram projetadas para impedir a formação de gelo e que o desprendimento deste se torne um risco. Mas a Nasa notou que a rampa bipé tendia a desprender a espuma e decidiu redesenhá-la, considerando-a um risco potencial. Eles planejavam substitui-la após o vôo da Columbia.

Após o acidente da Columbia, os investigadores, que consideraram a espuma desprendida como sendo a causa física, exigiram que a Nasa encontrasse formas de limitar a quantidade de espuma desprendida do tanque externo. Igualmente importante, determinou a comissão de investigação, uma "cultura de quebra de segurança" tendia a não dar importância aos riscos.

Em resposta, a Nasa testou extensivamente a espuma e a forma como é aplicada, e modificou o tanque para reduzir a probabilidade de desprendimento, além de substituir a rampa de espuma por um aquecedor.

Espuma perdida

No caso anunciado aqui na quarta-feira, o novo pedaço de espuma --um pedaço em forma de chapéu com 83 centímetros de largura na parte mais larga e 35 centímetros na parte mais estreita-- se desprendeu de outra rampa no tanque externo.

Ela é conhecida como rampa de protuberância de entrada de ar, que a Nasa abrevia como rampa PAL, e foi projetada para minimizar o fluxo cruzado de ar e a turbulência ao redor dos cabos usados para pressurizar o tanque externo. O novo pedaço é ligeiramente menor do que o pedaço do tamanho de uma pasta que atingiu a Columbia, disse Hale.

Após o acidente da Columbia, a Nasa estudou a substituição da PAL, já que também é formada de espuma aplicada à mão e foi reconhecida como fonte potencial de desprendimento de destroços. Mas a pesquisa e a discussão não levaram a uma solução, e o programa espacial desistiu de fazer quaisquer mudanças, optando por modificá-la apenas ligeiramente.

Um documento da Nasa de agosto de 2004 declarava: "O Escritório do Projeto do Tanque Externo continuará avaliando os novos projetos e, após concluir testes abrangentes e os programas de análise das opções, selecionará um para implementação".

Graças a outros esforços para reprojetar o tanque externo, os engenheiros da Nasa estimaram que não se desprenderia nenhum pedaço do tanque externo com mais de três centésimos de libra, e disse que esperava não ver nenhum destroço de espuma maior do que um centésimo de libra.

Na quarta-feira, Parsons, que liderou a comissão de controle das exigências do programa, que analisou todas as modificações, disse: "Nós tínhamos dados suficientes que mostravam poucos problemas com a rampa PAL". A rampa, eles descobriram, tinha uma função de proteção aerodinâmica valiosa, ele disse; sem nenhuma outra opção óbvia, eles decidiram que era seguro voar.

Enquanto os dois outros ônibus espaciais, Atlantis e Endeavour, permanecem impedidos de voar, terá início o trabalho de resolver o problema da rampa PAL. "Nós colocaremos nosso melhor pessoal cuidando disto", disse Parsons, "e pensaremos em algo a fazer".

"Eu não sei se levará um mês, eu não sei se levará três meses", ele prosseguiu. "Nós temos muito trabalho diante de nós."

Mas antes disso, disse Parsons, há ainda uma missão para ser concluída e sete astronautas no espaço. Usando a designação numérica oficial do vôo, ele disse: "No momento, esta equipe está concentrada no STS-114 e em trazer a tripulação de volta para casa em segurança".

Isto significa prosseguir com o trabalho intencionado para a atual missão: um extenso exame do sistema de proteção térmica do ônibus espacial em busca de quaisquer danos, usando uma série de novas câmeras e sistemas laser.

Parsons e Hale disseram que ocorreram outros exemplos surpreendentes de espuma perdida --incluindo vários pedaços de vários centímetros de comprimento que se desprenderam da "espuma extensa", que é aplicada por robôs e foi considerada livre de problemas de desprendimento.

Eles também mostraram fotos da perda de um pedaço de 3,8 centímetros de ladrilho isolante acima da porta do trem de aterrissagem, no cone do nariz, que sugeriram que pode ter sido avariada devido a um reparo anterior. Hale disse que o ladrilho receberá maior exame, mas não é considerado um problema crítico a esta altura.

"Nós estamos preocupados com isto? Nós estamos tratando disto muito seriamente", disse ele. "Nós estamos perdendo o sono por causa disto? Ainda não."

Os diretores de missão disseram que discutiram brevemente a notícia do pedaço de espuma com os astronautas durante a tarde, e transmitiram imagens para a Discovery no início da noite, após o horário de dormir dos astronautas.

Os astronautas do ônibus espacial --a comandante, a coronel Eileen M. Collins; o piloto, o coronel James M. Kelly; o engenheiro de vôo, Stephen K. Robinson; e os especialistas da missão, Soichi Noguchi, Andrew S.W. Thomas, capitã Wendy B. Lawrence e Charles J. Camarda-- passaram grande parte do dia usando o braço robô do ônibus espacial e um sensor para inspecionar o nariz da nave e as bordas dianteiras das asas, e preparando para atracar na Estação Espacial Internacional.

Durante os escaneamentos lentos e próximos das estruturas de carbono reforçado com uma câmera de televisão de alta definição e scanners de laser, nenhum dano óbvio foi detectado.

Apesar dos testes preliminares parecerem promissores, disse Hale, ocorreram problemas na visão em algumas áreas que terão que ser analisadas novamente, de forma que "hoje ainda não podemos dizer sem sombra de dúvida que temos um atestado pleno de saúde" para os painéis.

Os astronautas acordaram para seu primeiro dia inteiro no espaço com a canção "I Got You, Babe", na versão que apareceu no filme "Feitiço do Tempo". O filme, que trata de reviver um mesmo dia repetidas vezes, foi uma brincadeira com a série aparentemente infindável de dias de quarentena pré-lançamento enquanto a tripulação aguardava sua chance de voar. Motivo é o desprendimento de destroços de espuma do Discovery George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,28
    3,182
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,29
    64.676,55
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host