UOL Notícias Internacional
 

29/07/2005

IRA renuncia a violência em mudança profunda

The New York Times
Brian Lavery e Alan Cowell

Em Belfast, Irlanda do Norte
O Exército Republicano Irlandês (IRA) declarou o fim da campanha de violência de 36 anos contra o Reino Unido que se destinava a unificar a Irlanda do Norte com a República da Irlanda, nesta quinta-feira (28/07).

O anúncio há muito esperado foi visto em Londres e Dublin como uma transformação profunda que poderia trazer um fim a um capítulo sangrento e doloroso de sua história, afastando a Irlanda do Norte da luta sectária de oposição dos republicanos ao domínio britânico que tomou mais de 3.500 vidas dos dois lados.

"Este pode ser o dia no qual, finalmente, depois de todos os falsos amanheceres e desapontamentos, a paz substituiu a guerra e a política substituiu o terror na ilha da Irlanda", declarou o primeiro-ministro Tony Blair do Reino Unido à televisão em Londres.

Enquanto outros líderes falavam da necessidade de ações pelo IRA para provar sua intenção, Blair disse que o anúncio "cria circunstâncias" para a retomada do governo local compartilhado, que foi estabelecido no acordo de paz de 1998 mas suspenso em 2002, em parte pelo não desarmamento do IRA.

"Este é um passo de magnitude sem paralelos na história recente da Irlanda do Norte", disse ele. A Casa Branca disse: "Essa declaração do IRA deve ser seguida de ações demonstrando o compromisso inequívoco do movimento republicano com o Estado de Direito e a renúncia de todas atividades paramilitares e criminosas."

A declaração do grupo dizia: "Todas as unidades do IRA receberam ordens para deixar as armas". Ela foi lida em um DVD por Seanna Walsh, membro que passou 21 anos na cadeia por atividades do IRA.

A declaração também prometeu "completar o processo de destruição das armas de forma verificável" --uma referência aos supostos vastos esconderijos de armas do IRA. O IRA também convidou dois religiosos independentes, um católico e um protestante, para "testemunharem" o desarmamento.

A mudança havia sido prevista em 1994, quando o IRA iniciou cessar-fogo que pôs fim à tradição de republicanismo irlandês militante saído dos subúrbios de Londonderry e Belfast para o território britânico.

A declaração do IRA dizia que seus líderes tinham "formalmente ordenado um fim à campanha armada", ou suas atividades paramilitares. Estas eram descritas pelos partidários como uma luta pela liberdade e pelos críticos como terrorismo.

A mudança acompanhou a crescente rejeição entre seus partidários, tanto aqui quanto nos EUA, do envolvimento do IRA no crime organizado.

A declaração do movimento não falou em debandada nem mencionou especificamente a questão do crime entre seus membros, que são responsabilizados por um grande assalto a banco em dezembro e um assassinato brutal em um bar em janeiro.

Alguns também lembraram de declarações anteriores do IRA, que não conseguiram assegurar a retomada do acordo de 1998 estabelecendo o governo compartilhado da província.

Entretanto, as autoridades, como o secretário britânico para a Irlanda do Norte, Peter Hain, disseram que o texto de quinta-feira era diferente. "A clareza dessa declaração contrasta com as anteriores", disse Hain. "Ela afirma em linguagem clara que a campanha armada acabou."

A declaração do IRA dizia: "Nossas decisões foram tomadas para promover nossos objetivos republicanos e democráticos, incluindo nossa meta de uma Irlanda unida. Acreditamos que agora existe uma forma alternativa para se conseguir isso e pôr um fim ao domínio britânico em nosso país", aparentemente referindo-se aos avanços eleitorais de seu braço político Sinn Fein na Irlanda do Norte e na República da Irlanda.

A declaração dizia que todos voluntários do IRA tinham sido "instruídos a auxiliar no desenvolvimento de programas puramente políticos e democráticos por meios exclusivamente políticos. Os voluntários não devem se envolver em qualquer outra atividade"- o que alguns acreditam se referir a operações criminais.

Blair disse que os unionistas, que querem que a Irlanda do Norte continue parte do Reino Unido e sempre se opuseram ao IRA, iam querer que garantias de que a declaração de princípio fosse "mantida na prática". Além disso, ele disse que a medida será tomada como "uma denúncia direta de qualquer atividade, paramilitar ou criminal".

Os Unionistas são o maior grupo político da província e tem maioria protestante. Eles provavelmente insistirão em um prazo de ao menos um ano antes de voltarem a compartilhar assentos na assembléia da província com o Sinn Fein.

"A última década na Irlanda do Norte está coberta de declarações do IRA ditas históricas. Em seguida, o IRA voltava atrás e executava mais um de seus assassinatos tenebrosos e criminalidade desprezível", disse Ian Paisley, líder determinado dos Unionistas Democráticos -principal força política protestante.

A declaração foi feita quatro meses depois do presidente do Sinn Fein, Gerry Adams, que nega ter sido comandante do IRA, pedir ao grupo guerrilheiro que adotasse uma atividade puramente política e democrática.

Adams disse em uma conferência com a imprensa em Dublin, na quinta-feira, que a medida do IRA anunciava "um modo novo e pacífico" para a Irlanda do Norte.

"Há tempos de resistência, em que se deve levantar e resistir ao inimigo, com armas se necessário", disse ele. "Em outras palavras, há tempos de guerra. Há Também tempos de diálogo, de esforços para se colocar a guerra para trás".

Foi preciso mais de uma década para o IRA colocar a guerra para trás, em parte porque Adams teve que convencer seus membros de que esposar a estratégia política não era a mesma coisa que admitir a derrota. Segundo o governo irlandês o IRA tem mais de 1.000 membros, muitos dos quais passaram a vida toda combatendo a presença britânica na Irlanda do Norte.

O anúncio do IRA gerou ainda temores de que seus membros dividam-se em movimentos militantes distintos, como as facções da Organização pela Libertação da Palestina. Ocasionalmente, membros do IRA que se sentiram ameaçados com as atividades políticas e negociações de paz formaram grupos republicanos dissidentes como o "Real IRA".

Esse grupo matou 29 pessoas detonando um carro-bomba em Omagh, em 1998, no ataque terrorista mais mortífero em solo britânico até os atentados de Londres há três semanas. Os líderes desses grupos dissidentes foram condenados nos últimos anos, depois que suas fileiras foram infiltradas por policiais disfarçados.

O desmantelamento dos grandes depósitos de armas do IRA, escondidos em abrigos subterrâneos no campo, tem sido o maior obstáculo ao sistema compartilhamento de poder entre grupos políticos católicos e protestantes na Irlanda do Norte.

Para determinar se o IRA manterá sua palavra, os governos britânico e irlandês pediram que um corpo independente monitorasse os grupos paramilitares e publicasse relatórios em intervalos de três meses sobre suas atividades.

Em agosto de 1994, quando o IRA declarou um cessar-fogo, Belfast entrou em festa. Na quinta-feira, a resposta do público foi mais desconfiada.

"Estou muito esperançosa, pelo bem de nossos netos. Mas nós já ficamos esperançosos antes, e tudo desmoronou", disse Christine Nolan, 64, enquanto fazia compras na rua Falls, no oeste de Belfast, reduto do IRA.

Paul Burn, católico de 19 anos, condenou o IRA porque, segundo ele, seus membros tinham atirado no joelho de um de seus amigos por roubar um carro. Ele acha que o grupo não vai parar de agir como vigilante. "Não acho que as coisas vão ser diferentes", disse ele.

Mas Alec Reid, 56, servente aposentado, deu uma opinião diferente: "Não queremos as crianças passando pelo que passamos", disse ele, "foram 30 anos de inferno". Em 36 anos de ataques, aproximadamente 3.500 pessoas morreram Deborah Weinberg

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