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31/07/2005

As várias faces de John Lennon: preta, branca, masculina, feminina

The New York Times
Allan Kozinn
Para Don Scardino, foi impossível resistir à idéia de escrever e dirigir um musical sobre John Lennon, ainda que os perigos implícitos na realização de tal projeto não pudessem ser mais óbvios. Fã dos Beatles desde os primeiros sucessos do grupo - hoje com 57 anos, ele disse que correu até o Aeroporto Kennedy para presenciar à chegada do conjunto na sua primeira visita aos Estados Unidos em 1964 -, ele assistiu a ambos os concertos dos jovens de Liverpool no Shea Stadium, em 1965 e 1966, e ainda cita de memória trechos de "A Hard Day's Night" e "Help!". Portanto, ele conhece o suficiente o mundo dos fãs obsessivos para entender que, não importa a forma como apresente Lennon, haverá muita objeção.

Scardino, cujo musical "Lennon" está sendo apresentado em pré-estréia no Teatro Broadhurst há três semanas, e que estreará oficialmente na quinta-feira, 4 de agosto, sabe também que o próprio meio utilizado poderá parecer suspeito para muitos fãs de Lennon. Afinal, a onda de revolução do rock liderada pelos Beatles varreu os musicais do circuito teatral pop (permanentemente, com a exceção de certos espetáculos com espírito de rock, como "Hair") e tornou o teatro musical decididamente decadente. Como então um musical poderia fazer justiça a Lennon, o astro do rock de língua afiada que, durante os anos dos Beatles, e em um período posterior, definiu as novidades da contracultura?

Mesmo assim, quando Edgar Lansbury mencionou a possibilidade, em 1998, durante a edição de filme de Scardino, "Advice from a Caterpillar" ("Um Amor para Dois Amigos", EUA, 1999), Scardino aceitou a proposta imediatamente. Lansbury, que produziu cerca de 20 musicais para a Broadway e outros circuitos, incluindo "The Subjetc Was Roses", "Gypsy" e um musical rap, "Club XII", tinha a idéia de produzir um musical sobre Lennon, e marcou uma reunião para propô-la a Yoko Ono, a viúva que controla os direitos sobre o nome e a música do cantor. Mas o que ele não tinha era um conceito para o trabalho.

"Edgar me perguntou: 'Você conhece alguma coisa sobre John Lennon?'", relembra Scardino. "Eu respondi: 'Conheço tudo sobre John Lennon'. E ele retrucou:, 'Se você apresentar um conceito, pode comparecer à reunião'. Assim, tive três dias para pensar em algo, e o meu ponto de partida foi: o que eu, um grande fã de John Lennon, gostaria de ver?".

A sua primeira idéia não foi promissora: um concerto idealizado de Lennon, concentrado no seu trabalho solo, pontuado por histórias. Ele logo viu as inadequações: seria apenas uma edição pós-Beatles da "Beatlemania" ("Não os Beatles, mas uma simulação incrível!"), com um representante de Lennon atuando como o condutor do musical. Porém, quando ele e Lansbury se encontraram com Ono, o conceito se substanciara em algo mais próximo do show atual.

Ele disse que desde o início entendeu ser crucial se concentrar no trabalho solo de Lennon, em parte porque sentiu que as músicas dos Beatles já estavam muito disseminadas, enquanto que o trabalho particular de Lennon era menos conhecido, e também porque, como ele explica, Lennon era "um diarista musical capaz de escrever mais sobre aquilo que sentia e experimentava quando saía do circuito dos Beatles". Ele também acreditou que Ono seria mais receptiva a uma peça que se concentrasse mais nos trabalhos posteriores de Lennon, algo de que fato ocorreu.

"Vamos colocar as coisas desta forma: estávamos em sintonia", disse ela em uma recente entrevista em sua casa no edifício Dakota, na área Upper West Side de Manhattan. "Se eles continuassem falando sobre a música dos Beatles, eu teria dito: 'Ok, bem, por que vocês não fazem um musical sobre os Beatles?'".

No entanto, o principal argumento usado por Scardino na sua proposta foi a sua reformulação de Lennon. Em vez de fazer com que um único ator o interpretasse, Scardino propôs que se apresentasse todo um elenco - nove atores, homens e mulheres, e de várias etnias - entrando e saindo no papel de Lennon, cada um falando as palavras e cantando a música do ex-Beatle. Ele também decidiu que os diálogos, ou pelo menos as falas de Lennon, deveriam ser retiradas das longas entrevistas retrospectivas dadas por Lennon no decorrer de sua vida. (Scardino pirateou um trecho de George Harrison - a observação, ouvida na "Antologia dos Beatles", de que "o mundo enlouqueceu e nos culpou por isso". Mas Lennon fez comentários similares).

"Muita gente se aproximou de mim e perguntou se poderia fazer um musical sobre John", contou Ono. "É uma idéia muito simples, mas eu disse que não. Mas desta vez, disse que sim, porque gostei da idéia de que todos esses atores diferentes interpretassem John. Isso porque nos anos que se seguiram à morte de John, ele se transformou em alguma outra coisa. As pessoas na Ásia pensam nele como um herói. As da África também. Ele é um herói para o mundo todo, e não só um herói branco. Portanto, é ótimo que um artista negro cante no papel de John. Para mim, esse musical é uma revolução, uma revolução discreta".

"John teria adorado isso", acrescentou ela. "Ele sempre costumava dizer: 'Gostaria de contar com uma voz negra - eles são excelentes cantores de blues, nós nunca poderemos imitá-los'. Então, agora temos um John negro? Ele estaria dando pulos de alegria".

O elenco inclui três homens brancos e dois negros, e uma mulher negra, uma asiática, uma hispânica e uma branca. Ono, que assistiu aos ensaios, disse que as tentativas de encontrar um homem asiático para o elenco multi-étnico que interpreta John Lennon não tiveram sucesso. Os atores negros, Michael Potts e Chuck Cooper, também fazem o papel de um membro da Ku Klux Klan (que ameaçou os Beatles em um famoso artigo de jornal de 1966), do senador Strom Thurmond (que tentou fazer com que Lennon fosse deportado no início da década de 70) e de Ed Sullivan. E na representação dos Beatles, estes são interpretados por quatro mulheres.

Segundo Ono, uma outra atração do roteiro de Scardino é o humor irreverente com o qual ele aborda aspectos da vida de Lennon, incluindo a suas associação no início dos anos 70 com Jerry Rubin e outros radicais políticos, e a conseqüente decisão do FBI de colocá-lo sob vigilância.

"Eles poderiam ter feito isso de forma muito séria", disse Ono. "Mas John era um cara engraçado. A troca de papéis é engraçada, mas é a gargalhada do despertar - ao se descobrir, quando se vê um ator negro representando a Ku Klux Klan, que somos todos um, que não se trata de "negros são ruins" ou "brancos são ruins", mas de que existe o bom e o ruim em todas as raças. É esse tipo de despertar que faz as pessoas gargalharem".

Ono acrescentou que no final dos anos 70, ela e Lennon escreviam um musical autobiográfico que seria chamado "A Balada de John e Yoko". Eles nunca terminaram o script, mas Lennon compôs várias músicas para o trabalho, muitas das quais existem apenas em gravações privadas que não foram divulgadas. Ono deu duas delas a Scardino, "India, India" (que agora acompanha uma cena da atração dos Beatles pela Meditação Transcendental) e "I Don't Want to Lose You", interpretada na parte relativa à separação de 18 meses de Lennon e Ono, a partir de 1973.

Tirando isso, disse Ono, ela praticamente não se intrometeu no trabalho. "Dei algumas sugestões", afirmou. "Há coisas que John pode ter dito e das quais agora se arrependeria, sabe?". Por exemplo? "Fiquei especialmente preocupada com a forma como eles apresentaram Cynthia", disse Ono, a respeito da primeira mulher de John. "Eu lhes disse que eles não poderiam simplesmente usar o que John disse, porque ele pode ter afirmado coisas que não eram tão precisas, e isso não é justo para com ela. Eu também quis saber o que ela disse, e se ela disse o mesmo que John afirmou. Quis que a equipe do musical se desse ao trabalho de fazer uma pesquisa sobre isso, e foi o que eles fizeram".

Quando uma versão preliminar do musical foi exibida em São Francisco, na primavera, ela gerou a crítica furiosa que Scardino havia esperado. Uma apresentação em Boston foi cancelada para que o show pudesse ser reformulado. Cynthia Lennon, que teria sido abordada de forma muito superficial, passou a ter uma presença maior.

Foi dito que na versão de São Francisco, Ono recebeu muito destaque -- reclamações que lembraram os primeiros anos de casamento de John e Ono, quando ela foi culpada por tudo: a dissolução dos Beatles, a condução de Lennon do zênite do seu sucesso como astro pop às experiência musicais de vanguarda, a política radical e o feminismo (tudo isso, insistiu Lennon até o final da sua vida, significava muito mais para ele do que tocar em um conjunto pop). Scardino suavizou a influência de Ono.

"Em São Francisco muita gente estava dizendo: 'Ah, Yoko está em toda parte'", disse Ono. "E eu retruquei que estava em toda parte porque foi isso o que ele quis que eu fizesse. Mas é bom que eu não esteja sendo supervalorizada. Estou na fila de trás. O trabalho é sobre Lennon e quero que ele seja feito da forma certa. Tem gente que me pergunta: 'Você se importa de ser sempre a sombra de John?'. Mas isso é algo com o qual eu não me preocupo porque, suponho, sou extremamente independente e confiante. E é ótimo sentar à sombra de uma grande árvore como John".

Houve também reclamações quanto à ausência de músicas dos Beatles no trabalho, até mesmo aquelas músicas que Lennon compôs sozinho. (Dar o crédito Lennon-McCartney para os trabalhos de qualquer dos dois compositores foi algo quanto ao qual o grupo concordou no início). Na verdade, há duas músicas Lennon-McCartney: "The Ballad of John e Yoko" e "Give Peace a Chance", que foi divulgada segundo o antigo acordo de co-autoria.

Mas não é que os Beatles sejam ignorados. Os primeiros 50 minutos do espetáculo de duas horas se passam antes da dissolução dos Beatles. A versão feminina do grupo é mostrada tocando na época da formação do grupo, em Hamburgo e na Royal Command Performance, em 1963, e Scardino pode alegar autenticidade histórica ao fazer com que Lennon cante duas músicas, "Money, de Barrett Strong, e "Twist and Shout", dos Isley Brothers, já que, à época, elas eram atrações do repertório do cantor. A música de abertura "A Hard Day's Night" perde o rumo em determinado momento, e uma cena tempestuosa das sessões de gravações para o álbum "Let It Be" - durante a qual Lennon reclama de "Maxwell's Silver Hammer", de Paul McCartney - representa a dissolução da banda.

Percebe-se que as músicas solo de Lennon são facilmente adaptáveis ao enredo, até mesmo no que se refere aos anos dos Beatles. "Instant Karma", por exemplo, demonstra ser um comentário perfeito sobre a celeuma causada pela afirmação feita por Lennon em 1966 de que os Beatles eram maiores do que Jesus; nada mais na obra dos Beatles transmite a mesma sensação. A morte da mãe de Lennon, um trauma central do início da sua vida, é ilustrada por "Mother", uma música que ele compôs após ter passado por terapia primordial de gritos. E a dissolução dos Beatles recebe uma dose dupla - "How Do You Sleep", música feita em 1971 por McCartney, e "God", de 1970, no qual Lennon repudia tudo, da Bíblia aos Beatles, e conclui: "Só acredito em mim - Yoko e eu, essa é a realidade".

Outras músicas se encaixam de forma mais direta na história: "Give Peace a Chance" e "Power to the People" são trilhas sonoras naturais para a parte relativa ao envolvimento político de Lennon, e músicas do seu álbum "Double Fantasy", de 1980, fazem aquilo para o qual foram compostas - descrever a dinâmica entre ele e Ono nos seus últimos anos.

"Quando comecei a trabalhar nisto, um amigo meu me disse: 'Não dá para você vencer - trata-se de John Lennon, um grande ícone, e 50% dos fãs dirão que você acertou, enquanto os outros 50% afirmarão que errou'. Mas creio que conseguimos atingir aquilo que era o meu objetivo. Obtivemos a sua musicalidade. A sua política. O seu humor. E a sua transformação e crescimento. A mim parece que, ao colocarmos tudo na balança, apresentamos a dimensão do homem John Lennon". Danilo Fonseca

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