UOL Notícias Internacional
 

01/08/2005

Compartilhadores de arquivo anônimos: criando uma rede privada

The New York Times
John Markoff
Em San Francisco
Brevemente animada pela vitória na Suprema Corte na questão do compartilhamento de arquivos, Hollywood e a indústria fonográfica estão prestes a enfrentar oponentes bem mais sofisticados.

The New York Times
The New York Times
O irlandês Ian Clark, criador da rede P2P Freenet, durante conferência em Las Vegas; amplie
Em uma conferência de segurança de computadores em Las Vegas, na quinta-feira (28/7), um projetista de software irlandês descreveu uma nova versão de sistemas peer-to-peer (P2P) de compartilhamento de arquivos, que ele diz que facilitará o compartilhamento de informação digital de forma anônima e tornará mais difícil a detecção por corporações e governos.

Outros descreveram esforços semelhantes para construir uma chamada "darknet", que visa proteger as identidades daqueles que compartilham informação. A questão é complicada pelo fato de que o pequeno grupo de tecnólogos que está desenvolvendo os novos sistemas diz que sua meta é criar ferramentas que contornem a censura e a repressão -não promover a violação de direitos autorais.

Tal posição certamente testará o impacto da decisão da Suprema Corte, em junho, contra a Grokster e StreamCast Networks, editoras do software peer-to-peer de compartilhamento de arquivos, disseram vários executivos da indústria e peritos legais. A corte decidiu por unanimidade que os editores poderiam ser responsabilizados pela violação de direitos autorais de filmes e músicas possibilitada pelos seus programas.

O programador irlandês Ian Clarke, 28 anos, é um defensor da liberdade de expressão que cinco anos atrás apresentou um sistema de software chamado Freenet, que visa impossibilitar que governos e corporações restrinjam o fluxo de qualquer tipo de informação digital. O sistema usava inicialmente uma abordagem segura para o roteamento entre usuários e empregava encriptação para proteger a informação de bisbilhoteiros que não fazem parte da rede.

Diferentemente das atuais redes abertas peer-to-peer, os novos sistemas como o de Clarke usam códigos de software para conectar indivíduos que confiam um no outro. Ele disse que começará a distribuir a nova versão de seu programa em poucos meses, possibilitando que grupos de usuários estabeleçam redes seguras -disponíveis apenas a eles e aqueles que optarem por incluir- nas quais possam trocar qualquer tipo de informação digital.

Apesar de ele dizer que sua meta é política -ajudar dissidentes em países onde o tráfego de computador é monitorado pelo governo, por exemplo- Clarke é franco sobre seu desdém pelas leis de direitos autorais, afirmando que sua tecnologia produzirá um mundo no qual toda a informação é compartilhada livremente.

Clarke vive em Edimburgo e é funcionário de um site de recomendação de música, www.indy.tv. Apesar de a Freenet ter atraído grande atenção como uma força disruptora potencial quando foi apresentada em 2000, ela provou ser mais difícil de usar do que programas de compartilhamento de arquivos como Grokster e Napster, e não provocou o impacto que ele previa.

Mas agora Clarke está adotando uma nova abordagem, declarando que sua meta é proteger oponentes políticos de regimes repressores.

"O uso clássico da Freenet seria para um grupo de dissidentes políticos na China, ou mesmo nos Estados Unidos", disse ele em uma entrevista por telefone, na quinta-feira. Mas ele reconheceu que o software certamente também seria usado para driblar direitos autorais, acrescentando: "É uma conseqüência inevitável de nosso projeto".

Executivos da indústria reconheceram que apesar de sua vitória na Suprema Corte, a tecnologia peer-to-peer continuará sendo um fator na troca online ilícita. "Todos entendem que a tecnologia P2P é, e continuará sendo, uma parte importante da paisagem online", disse Jonathan Lamy, um porta-voz da Associação da Indústria Fonográfica dos Estados Unidos. "Mas a decisão unânime da Suprema Corte no caso Grokster ajudará a garantir que os modelos de negócios não serão baseados no encorajamento ativo de violação em redes P2P e outras."

Iniciativas como a Freenet certamente complicarão os esforços da indústria e do governo de restringir o compartilhamento digital de dados proprietários.

Para se juntar à darknet, o usuário potencial deve contar com a confiança dos membros existentes. Assim, tais redes crescerão como parte de uma "rede de confiança" e serão bem mais restritas do que os sistemas abertos.

Em junho, Ross Anderson, um pesquisador proeminente de segurança de computadores e que foi um pioneiro no desenvolvimento das primeiras redes peer-to-peer, publicou um documento técnico detalhando ser possível resistir às tentativas da indústria de desativar tais redes.

Ele também publicou um segundo documento tentando antecipar a reação de mercado a coibições a compartilhamento de arquivos como a decisão Grokster. O documento, "A Economia da Resistência à Censura", prevê o surgimento de redes fechadas como a nova Freenet, assim como "fã clubes" concentrados em conteúdo digital específico, que será mais difícil de ser combatido pela indústria.

Anderson, que monitora redes peer-to-peer desde um sistema pioneiro de rede para fins específicos chamado Usenet, por linhas telefônicas em 1979, disse que seu grupo de pesquisa estava colaborando com cientistas da computação do Instituto de Tecnologia de Massachusetts na próxima geração de rede peer-to-peer, que será apresentada nos próximos meses. Como a Freenet, ela é projetada para ser imune à censura e permitir comunicação segura em ambientes potencialmente hostis.

Ele disse que seu próprio trabalho inicial de desenvolvimento de redes peer-to-peer, conhecido como Eternity Service, foi inspirado pela batalha legal entre a Igreja da Cientologia e a Penet, uma operação de Internet baseada na Finlândia que era conhecida como uma redistribuidora anônima.

Naquele caso, um usuário de Internet estava usando a Penet para postar anonimamente documentos da Igreja em murais online.

"Eu não tinha a menor idéia em 1996 de que música seria uma implicação", disse ele. "Eu fui motivado pelo caso Penet e pelo temor de que parte da liberdade que conseguimos com a invenção de Gutenberg da impressão barata pudesse ser perdida."

Disputas legais em torno de redes peer-to-peer anônimas já ocorreram tanto na Europa quanto na Ásia.

No Japão, no ano passado, Isamu Kaneko, desenvolvedor do programa de compartilhamento de arquivos chamado WinNY, foi preso depois que dois usuários do programa foram acusados de compartilhar pelo sistema material protegido por direito autoral. O caso Kaneko está pendente.

Após a prisão de Kaneko, o sistema continuou sendo desenvolvido sob o nome Share por um programador anônimo, segundo informação postada na Internet.

O Share usa encriptação para esconder as identidades dos usuários e o material que está sendo compartilhado, da mesma forma que a Freenet é descrita por Clarke.

Em uma frente separada, a indústria fonográfica está processando os usuários do Blubster, uma rede peer-to-peer projetada por Pablo Soto, um programador espanhol, que inseriu elementos de privacidade em seu sistema.

Atualmente a Freenet está sendo desenvolvida por um grupo de cinco ou seis programadores voluntários e um único funcionário em tempo integral, que é pago pelas doações obtidas por Clarke.

Ele disse que apesar das preocupações com a possibilidade de que ferramentas como a Freenet possam ser usadas por organizações clandestinas que visem violência política, Clarke disse que acredita que os benefícios de tais meios anônimos de comunicação superam os danos potenciais.

"Eu acho que coisas como terrorismo são resultado de ausência de comunicação", disse ele.

Ele reconheceu que seu sistema não será infalível, mas também não será tão transparente como sistemas populares como Grokster e Gnutella.

Para se juntar a redes abertas de compartilhamento de arquivos como Gnutella basta a obtenção do programa. O programa liga um usuário a uma rede de compartilhamento de arquivo e permite que o usuário publique conteúdo.

Pesquisadores de computação dizem que o termo "peer-to-peer anônimo", quando aplicado às darknets, é na verdade uma denominação errônea, porque as redes devem existir na Internet aberta e conseqüentemente ter endereços identificáveis para que possam ser contatadas por outros pontos da rede.

À medida que as conseqüências legais de compartilhamento de arquivos se tornarem mais claras, haverá uma proliferação de sistemas com características semelhantes à Freenet, segundo vários especialistas da indústria. No Vale do Silício, novas empresas como Imeem e Grouper já estão possibilitando a criação de grupos para compartilhar informação digital.

"Darknets continuarão entre nós", disse J.D. Lasica, autor de "Darknet: Hollywood's War Against the Digital Generation" ("darknet: a guerra de Hollywood contra a geração digital", John Wiley & Sons, 2005). "Pessoas que trocam arquivos seriamente já têm gravitado para elas. Existe esta cultura de liberdade que à qual as pessoas sentem que têm direito, e não querem ninguém olhando por cima de seus ombros." George El Khouri Andolfato

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