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02/08/2005

Mitt Romney agrada a todos para virar presidente

The New York Times
Pam Belluck

Em Boston
O governador de Massachusetts, Mitt Romney, disse que decidirá nos próximos meses se disputará a indicação republicana para a presidência dos EUA. Se aceitar, seu currículo o levará longe. Ele é um governador de destaque de um Estado proeminente. Ele tem um retrospecto de especialista em recuperação no mundo empresarial, e salvou as Olimpíadas de Inverno de 2002 em Salt Lake City. Ele é telegênico e articulado, e é rico.

Justine Hunt/The Boston Globe 
Ser um governador republicano num Estado democrata faz Romney contradizer-se
Mas enquanto Romney tenta ter apelo junto a seu partido conservador, sua maior adversária poderá ser a imagem de moderado que criou para si mesmo ao ser eleito em Massachusetts, possivelmente o Estado mais azul (democrata) nos Estados Unidos, onde apenas 14% dos eleitores são republicanos registrados.

"Eu acho que é uma pergunta que as pessoas podem fazer a certa altura", disse John Campbell III, um senador estadual republicano na Califórnia, após Romney ter falado aos republicanos de Orange County, em junho. "Como este sujeito conseguiu o apoio de tantos democratas em Massachusetts?"

Esta é uma pergunta que muitas pessoas estão fazendo, especialmente depois da semana passada, quando Romney adotou posições conservadoras em dois assuntos controversos --aborto e a chamada pílula do dia seguinte-- que parecem contradizer as posições mais moderadas que ele adotou em sua campanha para governador em 2002 e antes.

As ações de Romney ocorrem enquanto dois outros potenciais candidatos presidenciais republicanos, o governador de Nova York, George E. Pataki, e o senador Bill Frist do Tennessee, também estão tomando decisões cuidadosamente calibradas em questões sociais voláteis.

Na semana passada, Frist, o líder da maioria, desafiou o presidente Bush e muitos eleitores conservadores ao apoiar um projeto de lei para aumentar o financiamento federal a pesquisa de células-tronco embrionárias. E nesta semana, assessores de Pataki anunciaram que ele vetará a legislação que torna a pílula do dia seguinte disponível sem prescrição.

Romney vetou um projeto semelhante da pílula do dia seguinte, mas foi mais longe do que Pataki, que apóia os direitos de aborto. Romney rotulou a pílula do dia seguinte de "pílula do aborto" --não apenas um contraceptivo de emergência-- e escreveu um artigo de opinião para o "The Boston Globe", dizendo não acreditar que o aborto deva ser legal e que as leis de aborto deveriam ser feitas pelos Estados, não pelos tribunais federais.

Romney, que no passado disse que o aborto deveria ser "seguro e legal" e que apoiava o "conteúdo" da decisão da Suprema Corte que legaliza o aborto, escreveu no artigo que suas posições sobre o aborto "evoluíram e se aprofundaram".

Suas ações provocaram desalento entre alguns republicanos moderados e provocou previsões de que ele buscará a presidência. Elas também ressaltaram o desafio que Romney provavelmente enfrentará nas primárias, onde os eleitores conservadores freqüentemente têm mais força.

"Dentro do Partido Republicano, no processo de indicação, Massachusetts é vista como um sinônimo de Estado liberal pelos republicanos conservadores", disse Paul Cellucci, um ex-governador republicano de Massachusetts e que até recentemente era o embaixador de Bush no Canadá. "Isto é uma espécie de obstáculo que ele precisa superar."

Nos últimos meses, Romney parece estar tentando fazer exatamente isto ao enfatizar posições conservadoras sobre questões sociais quentes como casamento gay, pesquisa de células-tronco e pena de morte.

Ele tem viajado para Estados estratégicos como Carolina do Sul, New Hampshire, Iowa e Califórnia, onde tem se retratado como um peixe conservador nadando corrente acima em Massachusetts, ou, usando uma metáfora com maior apelo machista, como "um criador de gado em uma convenção vegetariana".

Muitas pessoas dentro e fora de Massachusetts estavam aguardando para ver como Romney caminharia pela corda bamba política representada pela legislação que facilitaria a obtenção da pílula do dia seguinte pelas mulheres.

Apesar da Food and Drug Administration, a agência reguladora de drogas e alimentos, considerar a pílula como um contraceptivo de emergência, Romney disse que a considerava uma "pílula do aborto" porque ela pode, em alguns casos, impedir um óvulo fertilizado de se fixar no útero.

Apesar do veto ser simbólico --o Legislativo controlado pelos democratas certamente o derrubará-- as ações de Romney enfureceram muitos daqueles que o apoiaram para governador em 2002, acreditando que ele era mais moderado.

"Não é nosso estilo nos opormos a qualquer candidato republicano, mas cobraremos isto de Mitt", disse Jennifer Blei Stockman, co-presidente nacional da Maioria Republicana pela Escolha. Stockman disse que Romney buscou o endosso do grupo em 2002 e o recebeu apenas após argumentar que apoiava a manutenção da legalidade do aborto.

"Nós nos sentimos muito traídos", disse ela, mas acrescentou: "Se não fosse pela posição dúbia nestas questões, ele provavelmente seria um bom presidente".

Apesar de alguns conservadores terem apreciado as ações de Romney na semana passada, outros se mostraram mais céticos. "Ele tem um retrospecto horrendo para esconder em questões pró-família", disse Gary Glenn, presidente da Associação da Família Americana de Michigan, que circulou uma carta criticando Romney quando este falou em um evento republicano para arrecadação de fundos naquele Estado, em março.

"Eu acho que é ilusão achar que ele será capaz de se recriar e esconder com eficácia o que equivale a um retrospecto Ted Kennedy-John Kerry sobre o aborto."

Os simpatizantes dizem que Romney está simplesmente sendo astuto.

"Ele é claramente bom político", disse Ron Kaufman, um estrategista político de Washington e membro do comitê nacional republicano para Massachusetts.

"Há uma antiga canção, 'Acentue o Positivo'. Quando você está concorrendo a uma eleição, você olha para as questões que são apropriadas para o dia ou para a eleição, e é sobre estas questões que você fala."

As ações recentes de Romney sobre questões sociais contenciosas ocorreram em meio a intensa especulação sobre seu futuro político. Em junho, Romney foi tema de reportagens de capa de duas das principais revistas conservadoras do país, "The Weekly Standard" e "National Review", e a atual edição da "Atlantic Monthly" inclui um artigo de 7 mil palavras sobre ele.

Em muitas questões sociais, Romney tem recentemente parecido estar mais à direita do que muitos de seus eleitores, mas ligeiramente à esquerda da maioria dos republicanos conservadores do país.

Em vez de adotar uma posição puramente conservadora de se opor a toda pesquisa de células-tronco embrionárias, Romney, cujo Estado está cheio de importantes cientistas, disse que apóia o uso de embriões se forem descartes de clínicas de fertilidade, mas não se forem criados apenas para pesquisa.

Romney deseja reinstalar a pena capital em Massachusetts, mas sua proposta para pena de morte "à prova de falhas" restringe sua aplicação a ponto de, como dizem alguns conservadores, tornar as execuções extremamente raras.

Mesmo no casamento gay, ao qual Romney tem consistentemente se oposto, seu retrospecto não é universalmente elogiado pelos conservadores. Eles aplaudiram sua invocação de uma lei de 1913 que proíbe casais do mesmo sexo que residem fora de Massachusetts de se casarem lá, após ter se tornado o único Estado no país a legalizar o casamento gay.

Isto "poupou todo o país", disse Tom Minnery, vice-presidente de política pública da Foco na Família.

Mas o apoio de Romney no ano passado a uma emenda constitucional proibindo o casamento gay, ao mesmo tempo em que criava uniões civis, irritou alguns conservadores.

No mês passado, ele endossou outra emenda que proíbe o casamento gay mas não cria uniões civis, dizendo que apoiou a emenda de uniões civis porque parecia a única forma de impedir na época o casamento de mesmo sexo.

"No caso de algumas destas questões, como a célula-tronco, aborto e outras", disse Joseph D. Malone, um ex-tesoureiro do Estado e partidário de Romney, "sua posição é intermediária entre os liberais de Ted Kennedy à esquerda e George Bush à direita, com uma inclinação para o conservadorismo de George Bush".

"Ele tem tentado caminhar nesta linha, e lhe dou crédito por isto", disse Malone. "Ele teve que, por um lado, colocar seus valores conservadores em uma área um pouco mais temperada, mas por outro lado, ao visar a presidência, nós veremos Mitt Romney em questões não fiscais, se preferir, como alguém que é um republicano conservador, um sujeito de Estado vermelho."

Mesmo seu recente artigo de opinião não deslizou totalmente para a direita. Ele não pediu por uma proibição plena do aborto, escrevendo: "Eu acredito que o aborto é a opção errada, exceto em casos de incesto, estupro e para salvar a vida da mãe. Eu gostaria que as pessoas na América concordassem, e que as leis de nosso país pudessem refletir tal posição. Mas enquanto a nação continua tão dividida em torno do aborto, eu acredito que os Estados, por meio do processo democrático, é que deveriam determinar suas próprias leis de aborto, e não tê-las ditadas por mandado judicial."

Esta posição difere de declarações posteriores, como a de sua campanha fracassada ao Senado em 1994, contra o senador Edward M. Kennedy (na qual Kennedy disse: "Eu sou pró-escolha; meu oponente é múltipla escolha"), quando Romney disse que acreditava que o aborto deveria ser "seguro e legal", em parte por causa da morte de um parente em um aborto ilegal.

"Desde aquela época", disse Romney naquele momento, "minha mãe e minha família defendem a crença de que podemos acreditar no que quisermos, mas não imporemos nossas crenças sobre outros neste assunto, e vocês não me verão hesitar nisto".

Em sua campanha para governador em 2002, quando foi questionado em uma pesquisa da Planned Parenthood, "Você apóia o conteúdo da decisão Roe contra Wade da Suprema Corte?" Romney respondeu que sim.

Em outra pesquisa de 2002, da National Abortion Rights Action League Pro-Choice Massachusetts, Romney escreveu: "Eu respeito e protegerei o direito da mulher de escolher. Esta escolha é profundamente pessoal. As mulheres devem ser livres para escolher com base em suas próprias crenças, não na minha e não na do governo".

No passado, Romney também indicou apoio a contraceptivos de emergência, dizendo ao jornal "The Boston Herald", em 1994: "Eu acho que seria positivo a mulher ter a opção de tomar a pílula do dia seguinte. Eu sou favorável à sua disponibilização".

Em 2002, quando indagado pelo questionário da Planned Parenthood, "Você apóia os esforços para aumentar o acesso a contraceptivos de emergência?", Romney respondeu que sim.

Paul Watanabe, um professor de ciência política da Universidade de Massachusetts, em Boston, considera Romney "igual a um camaleão".

"Tem ocorrido este reposicionamento e recriação, eu acho que durante o último ano", disse Watanabe. "Quando ele fala fora do Estado, ele se retrata como alguém que é o último baluarte do conservadorismo, se erguendo contra a violenta investida liberal, enquanto em Massachusetts, quando ele fala sobre as mesmas coisas, ele é aquele capaz de formar uma coalizão com a liderança legislativa para fazer com que as coisas andem. Ele não vai agradar a todos e a pergunta é: quem ele escolherá agradar e quem ele deixará na mão?"

Romney também parece adepto de usar a mídia, pesando se revela uma decisão em uma organização nacional de notícias ou em uma local e conseguindo, em junho, ganhar a capa de duas revistas conservadoras.

Atualmente, Romney escolhe suas palavras com cuidado em questões sociais tensas, argumentando em termos não incendiários e expressando respeito pelas pessoas que discordam.

Ao ser questionado em uma entrevista em Iowa, na convenção da Associação Nacional dos Governadores, em julho, se um candidato poderia conquistar a indicação presidencial republicana apenas por ser contra o aborto, Romney disse: "Eu não sou exatamente um estrategista de campanha, eu não sou um Karl Rove, para saber a contagem de votos nos Estados --quais são Estados republicanos pró-escolha, quais são Estados republicanos pró-vida".

Alguns estrategistas republicanos e cientistas políticos apontam para outras qualidades de Romney --entre elas, seu legado como filho de um popular governador de Michigan por três mandatos, e uma dedicação moral inspirada por sua religião mórmon. Eles dizem que ele não precisa ser completamente alinhado com os conservadores.

"Ele é um sujeito que inspira uma certa confiança, e também é acessível", disse Stuart Stevens, um consultor republicano que trabalhou na campanha de 2004 de Bush. "Eu não vejo motivo para que ele não possa ser, no final deste processo, uma opção entusiástica dos eleitores cristãos conservadores."

Jeffrey Berry, um cientista político da Universidade Tufts, disse: "Eu não acho que ele esteja tentando ser o candidato da direita cristã. Eu acho que ele apenas está tentando ser aceitável para a direita cristã".

Ainda assim, Berry disse que Romney pode ser vulnerável em questões como aborto e pílula do dia seguinte.

"Ele tem sido tão ágil", disse Berry, "que acho que ele tem recalibrado rápido demais sua posição nas questões, sem se preocupar de forma suficiente com o fato de que suas mudanças de opinião voltarão para assombrá-lo". Governador age como camaleão político para chegar à Casa Branca George El Khouri Andolfato

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