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02/08/2005

Seu corpo é mais jovem do que você pensa

The New York Times
Nicholas Wade

Em Nova York
Seja qual for sua idade, seu corpo é muitos anos mais jovem. Na verdade, mesmo que você esteja na meia-idade, a maior parte de você pode ter apenas 10 anos ou menos.

Essa verdade animadora, decorrente do fato de que a maior parte dos tecidos do corpo está em constante renovação, foi reforçada por um novo método de calcular a idade das células humanas. Seu inventor, Jonas Frisen, acredita que a idade média de todas as células do corpo de um adulto podem ter apenas 7 a 10 anos.

Mas Frisen, um biólogo de células-tronco do Instituto Karolinska, em Estocolmo, Suécia, também descobriu um fato que explica por que as pessoas se comportam de acordo com sua idade e não com a idade física de suas células: alguns tipos de células do corpo perduram desde o nascimento até a morte sem se renovar, e essa minoria especial inclui algumas ou todas as células do córtex cerebral.

Foi uma discussão sobre se o córtex produz novas células que fez Frisen buscar uma nova maneira de descobrir a idade real das células humanas. As técnicas existentes, que dependem de marcar o DNA com substâncias químicas, não são perfeitas. Perguntando-se se poderia existir um marcador natural, Frisen lembrou que as armas nucleares testadas acima do solo até 1963 tinham injetado um pulso de carbono 14 radioativo na atmosfera.

Respirado pelas plantas em todo o mundo e comido por animais e pessoas, o carbono 14 é incorporado ao DNA das células cada vez que elas se dividem e o DNA é duplicado.

A maioria das moléculas de uma célula está constantemente sendo substituída, mas o DNA não. Todo o carbono 14 no DNA de uma célula é adquirido na data de nascimento da célula, no dia em que sua célula-mãe se dividiu. Portanto, Frisen inferiu que o grau de enriquecimento em carbono 14 poderia ser usado para descobrir a idade da célula.

Na prática, o método tem de ser praticado em tecidos, e não em células individuais, porque não há uma quantidade suficiente de carbono 14 em uma única célula para indicar sua idade.

Então Frisen elaborou uma escala para transformar o enriquecimento em carbono 14 em datas de calendário, medindo o carbono 14 incorporado em anéis de pinheiros na Suécia.

Depois de validar um método com vários testes, ele e seus colegas relataram na edição de 15 de julho da resvista científica "Cell" os resultados de seus primeiros testes com alguns tecidos corporais.

Células dos músculos das costelas, tiradas de pessoas no final da casa dos 30 anos, têm em média 15,1 anos, eles dizem.

As células epiteliais que revestem a superfície do estômago têm uma vida árdua, e sabe-se por outros métodos que duram apenas cinco dias. Ignorando essas células superficiais, a idade média das células do corpo principal do estômago é de 15,9 anos, Frisen descobriu.

A equipe do Karolinska concentrou-se então no cérebro, cujas células têm uma renovação muito discutida. A crença predominante é que o cérebro não gera novos neurônios depois que sua estrutura está completa, exceto em duas regiões específicas: o bulbo olfativo, que media o sentido do olfato, e o hipocampo, onde se fixam as primeiras memórias de rostos e lugares.

Essa opinião consensual foi desafiada há alguns anos por Elizabeth Gould, de Princeton, que relatou ter encontrado novos neurônios no córtex cerebral, juntamente com a idéia elegante de que as memórias de cada dia seriam registradas nos neurônios gerados naquele dia.

O método de Frisen permitirá que todas as regiões do cérebro sejam datadas para ver se novos neurônios são gerados. Até agora ele testou apenas células do córtex visual. Descobriu que estas têm exatamente a mesma idade que o indivíduo, mostrando que novos neurônios não são gerados depois do nascimento nessa região do córtex cerebral, ou pelo menos não em números significativos.

As células do cerebelo são geralmente mais jovens que as do córtex, o que se encaixa na idéia de que o cerebelo continua se desenvolvendo após o nascimento.

Fluxo constante

Outra questão discutida é se o coração gera novas células musculares após o nascimento. A opinião convencional de que isso não acontece foi contestada recentemente por Piero Anversa, do New York Medical College em Valhalla.

Frisen descobriu que o coração como um todo gera novas células, mas ainda não mediu o índice de substituição nas células do músculo cardíaco.

Embora as pessoas possam pensar em seu corpo como uma estrutura razoavelmente permanente, a maior parte dele está em estado de fluxo constante, enquanto as células velhas são descartadas e novas são geradas para substituí-las.

Cada tipo de tecido tem seu próprio período de renovação, dependendo em parte da carga de trabalho suportada por suas células. As células que revestem o estômago, como já se disse, duram apenas cinco dias.

As células vermelhas do sangue, exaustas pela viagem de quase 1.500 quilômetros pelo labirinto do sistema circulatório do corpo, duram apenas 120 dias em média antes de serem despachadas para seu cemitério no baço.

A epiderme, ou camada superficial da pele, é reciclada aproximadamente a cada duas semanas. O motivo da rápida substituição é que "esse é o 'filme plástico' do corpo, e pode ser facilmente danificado por arranhões, solventes, desgaste", disse Elaine Fuchs, especialista em células-tronco da pele na Universidade Rockefeller.

Quanto ao fígado, o desintoxicador de todos os venenos e drogas naturais de plantas que passam pelos lábios de uma pessoa, tem uma vida bastante curta na frente da guerra química. Um fígado de adulto humano provavelmente tem um período de substituição de 300 a 500 dias, disse Markus Grompe, um especialista em células-tronco do fígado na Universidade de Saúde e Ciência do Oregon.

Outros tecidos têm períodos de vida medidos em anos, e não em dias, mas tampouco são permanentes.

Até os ossos sofrem uma substituição incessante. Todo o esqueleto humano seria trocado a cada dez anos aproximadamente em adultos, enquanto duas equipes de construção --uma de células que dissolvem os ossos e outra que reconstrói os ossos-- se combinam para reformá-lo.

Praticamente as únicas peças do corpo que duram a vida inteira, segundo as evidências atuais, parecem ser os neurônios do córtex cerebral, as células do cristalino do olho e talvez as células musculares do coração.

As células do cristalino (a lente interna do olho) se formam no embrião e depois caem em uma inércia tão intensa pelo resto da vida que dispensam totalmente seu núcleo e outras organelas.

Mas se o corpo permanece tão perpetuamente jovem e vigoroso, e tão capaz de renovar seus tecidos, por que a regeneração não continua para sempre?

Alguns especialistas acreditam que a causa original disso é que o DNA acumula mutações e sua informação é degradada aos poucos. Outros culpam o DNA da mitocôndria, que não tem os mecanismos de reparo disponíveis para os cromossomos. Uma terceira teoria é que as células-tronco, que são a fonte de novas células em cada tecido, acabam enfraquecendo com a idade.

"A idéia de que as próprias células-tronco envelhecem e tornam-se menos capazes de gerar descendentes está ganhando um apoio crescente", disse Frisen.

Ele pretende ver se o índice de regeneração de um tecido diminui conforme a pessoa envelhece, o que poderia indicar que as células-tronco são um verdadeiro calcanhar-de-aquiles, o único obstáculo para a imortalidade. Células da maioria dos órgãos estão em regeneração permanente Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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