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03/08/2005

Família de Carl Gustav Jung critica nova biografia

The New York Times
Doreen Carvajal

Em Paris
Para os herdeiros suíços de Carl Gustav Jung, os problemas da nova e aclamada biografia americana começam na primeira frase: "O menino que se tornou o famoso psicólogo C.G. Jung teve como nome de batismo Karl Gustav II Jung." Incorreto, insiste um representante da família altamente protetora de Jung: o numeral romano veio depois. Correto, afirma a autora Deirdre Bair de "Jung: A Biography" (Jung: uma Biografia).

Thomas McDonald/The New York Times 
Obra da biógrafa Deirdre Bair é rechaçada pela família de Jung que, junto com Freud, compõe a base da psicologia
"Documentos acadêmicos que consultei sustentam o que e escrevi", disse a autora premiada, enfrentando uma queda de braço feroz com a família de Jung antes de sua publicação na Alemanha.

Mas isso é o de menos. A lista de fatos negados pela família envolve quase 12 páginas, desde a cor da vela de um barco até o estilo arquitetônico de uma ponte sobre o Reno. Mais substancialmente, alguns dos parentes de Jung questionam a confiabilidade dos diários de pacientes citados no livro, que sugerem ligações sexuais com Jung. Eles também zombam de uma descrição da esposa de Jung, Emma, que diz que seus filhos "acreditavam que ela tinha sentimentos calorosos, mas que nunca os demonstrava".

O principal ressentimento da família, porém, foi por Bair não ter pedido sua aprovação antes de publicar as afirmativas que fizeram em entrevistas com ela.

Agora, em um acordo extremamente raro, a subsidiária alemã da Random House, Knaus Verlag, concordou em inserir duas páginas da versão da família de Jung na tradução que publicará neste outono. A família procurou a Little, Brown & Co., que publicou a versão original em inglês em 2003, pedindo modificações nas novas edições e traduções. Até agora, porém, apenas a editora alemã concordou com o pedido.

"Estávamos entre dois perigos", disse Rainer Dresen, consultor geral da Random House na Alemanha. "Se não fizéssemos nada, podíamos ser processados pelos herdeiros. Se fizéssemos qualquer coisa, podíamos ser processados pela autora, porque ela não queria modificar o livro. Era apenas uma questão de quem ia nos atacar. Então pensamos em um acordo."

Paul Aiken, diretor executivo da Liga dos Autores em Nova York, que representa autores em questões de direitos autorais e liberdade de expressão, disse que o material inserido, mesmo que seja na seção de notas, apresentava um sério problema.

"Nunca vimos nada igual", disse ele em entrevista telefônica. "Realmente, (a inserção) mina a credibilidade da autora e sua autoridade, mesmo que seja sobre detalhes sem conseqüência. É como colocar uma crítica negativa na capa de um livro".

"Sinto como se alguém tivesse entrado em minha casa e tentado mudar os móveis de lugar", disse Bair em uma entrevista telefônica, chamando a solução de um precedente perigoso. "Qualquer um pode dizer que o autor não entendeu o assunto e exigir a inclusão de sua própria versão. Isso prejudica todos os conceitos de liberdade para escrever."

Na Europa, particularmente na Alemanha, processos por invasão de privacidade de celebridades, como a princesa Caroline de Mônaco, forçaram editores e jornais a adotarem medidas defensivas, desde a auto-censura até o repúdio de certas biografias.

Como resultado, um título vendido nos EUA sem oposição legal enfrenta riscos quando cruza as fronteiras de países com leis de privacidade mais rígidas.

A relação da família de Jung com a escritora foi cordial quando Bair iniciou sua pesquisa, há oito anos. Autora de biografias de Simone de Beauvoir e Anais Nin, Bair recebeu o Prêmio Nacional do Livro nos EUA, em 1981, por seu estudo de Samuel Beckett.

Para explorar a vida de Jung, que foi assunto de várias biografias, ela estudou seus arquivos profissionais, apesar de não ter tido acesso ao material pessoal, inclusive seus diários e a correspondência com sua esposa. No entanto, conseguiu entrevistas com pelo menos 10 de seus parentes, inclusive Ulrich Hoerni, neto de Jung que administra seu espólio na Suíça.

Hoerni fez particular objeção à passagem que acusa sua avó de não demonstrar seus sentimentos e incluiu essa objeção entre as compiladas pela família e enviadas ao editor: "As pessoas que a conheciam, inclusive eu, sem dúvida alguma achavam que Emma mostrava seus sentimentos. Além disso, D. Bair entrevistou no máximo três dos cinco 'filhos'. Ela não pode ter uma idéia clara da situação."

Os parentes de Jung ficaram ainda mais incensados quando Bair não permitiu que revisassem suas citações antes de serem publicadas. Bair disse que concordaria em mostrá-las somente se fosse usá-las. Para evitar atrasos, ela disse que escolheu citar apenas as declarações que eles tinham repetido em outras entrevistas ou em outros textos.

"Ela evitou obter aprovações para a publicação de afirmativas de alguns dos herdeiros, o que resultou em uma apresentação falsa de algumas dessas declarações", escreveu Hoerni em resposta a questões do repórter. "Sentimo-nos obrigados a chamar a atenção do editor para as falhas do livro, sem comentar as interpretações da autora."

Depois que o livro foi publicado, a família de Jung continuou em silêncio, de acordo com Bair, que disse ter enviado cópias aos familiares.

Críticos americanos elogiaram o livro como um retrato detalhado e equilibrado das ambições, da arrogância e do pensamento original de Jung.

Durante mais de seis meses, a família não expressou suas objeções, disse Bair. Depois de todo esse tempo, a Little, Brown recebeu uma carta de Hoerni, exigindo a retirada do livro. Nos meses que se seguiram, houve trocas entre as partes, até que os advogados da Little, Brown e da família finalmente disseram: "Não vemos nenhum erro factual específico ou nenhuma outra base" para suspender o livro.

Mas Bair foi contatada em junho por seu agente que disse que a Knaus Verlag, subsidiária alemã da Random House, tinha concordado em inserir algumas informações fornecidas pela família de Jung.

Sua primeira reação foi de impedir a publicação do livro na Alemanha, apesar da Little, Brown ser proprietária dos direitos no exterior. Ela então procurou acrescentar sua resposta às alegações da família ao livro, mas a proposta foi negada pela editora alemã, preocupada que seu protesto contra a "intrusão forçada" provocasse uma ação judicial.

"Eu ia negar sua validade", disse ela, mas desistiu quando entendeu que poderia sofrer conseqüências legais. A família de Jung, enquanto isso, disse que merece o direito de se expressar. "Exercitamos nosso próprio direito de liberdade de expressão, chamando a atenção do editor para erros factuais", disse Hoerni.

Herdeiros

Quando a biografia for lançada na Alemanha no outono, serão incorporadas à seção de notas cerca de duas páginas de informações da família de Jung, com aproximadamente 40 anotações, disse Claudia Vidoni, editora da Knaus Verlag, que enfatizou que o texto de Bair não será modificado. A autora disse que ainda não viu as anotações propostas, e Vidoni disse que a edição não está pronta.

Nos últimos meses, o debate chegou às reuniões da Sociedade Junguiana e aos fóruns online. Sonu Shamdasani, que também é autor de uma biografia de Jung, publicou um livro crítico de outros biógrafos, "Jung Stripped Bare" (Jung desnudado, Karnac Books, 2004), no qual ele atacou Bair por usar fontes anônimas para questionar os relacionamentos de Jung com seus pacientes.

Andrew Samuels, especialista em estudos junguianos e professor de psicologia analítica na Universidade de Essex, no Reino Unido, disse que leu a lista de erros compilada pela família de Jung e não encontrou "nada que minasse as conclusões do livro de forma substancial".

"A verdadeira questão não é mais sobre a biografia", disse ele, "mas a maneira como Jung, como ícone cultural, é administrado por seus herdeiros." Herdeiros contestam forma como a mulher do psicólogo é retratada Deborah Weinberg

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