UOL Notícias Internacional
 

03/08/2005

Gigante de petróleo chinesa retira oferta para compra da petrolífera americana Unocal

The New York Times
David Barboza*, em Xangai, e

Andrew Ross Sorkin, em Nova York
Uma companhia de petróleo chinesa disse nesta terça-feira (1/8) que está retirando sua oferta de US$ 18,5 bilhões para compra da Unocal, a companhia de petróleo americana que estava no centro de uma luta de aquisição que terminará com ela permanecendo em mãos americanas.

Nick Bilton/The New York Times 
Negócio faria da China uma fornecedora de combustível para os motoristas americanos
A retirada ressalta o ressentimento que se tem formado na China e nos Estados Unidos pelo esforço para comprar o que alguns consideram um ativo estratégico. A oferta despertou tensões nos Estados Unidos em torno da segurança econômica e concorrência econômica com a China, que aparentemente levou a Cnooc, a empresa chinesa, a concluir que não tinha chance.

Tais tensões, disseram analistas, não deverão desaparecer com a oferta. À medida que as empresas chinesas tentam cada vez mais comprar grandes empresas internacionais, a experiência provavelmente as levará a ficar mais atentas à sensibilidade política dos acordos.

O recuo da Cnooc faz com que o governo Bush não precise tomar a decisão delicada de formalmente bloquear ou não a transação. Mas a tempestade política em Washington que levou a Cnooc a retirar sua oferta pode ter revivido um sentimento espinhoso no Congresso, que poderá se espalhar para outras áreas do relacionamento financeiro e econômico entre China e Estados Unidos.

A decisão encerra a altamente contestada batalha pela tomada da Unocal, a companhia de petróleo americana, e abre o caminho para que a Chevron conclua sua aquisição por cerca de US$ 17 bilhões em dinheiro e ações. O fracasso da tentativa de aquisição pela Cnooc --codinome Operação Navio do Tesouro-- pode ser mais irritante para os chineses porque a oferta da Cnooc era mais alta do que a da Chevron.

Ainda assim, a retirada deixa as corporações chinesas com algumas lições aprendidas duramente. Enquanto as empresas chinesas buscam expandir seu alcance global, a oferta da Cnooc provavelmente se tornará um caso para estudo em erros de cálculo políticos e táticos.

Apesar de a empresa ter contratado um exército de firmas renomadas e caras --consultores de Wall Street como Goldman Sachs e lobistas em Washington como Akin Gump Strauss Hauer & Feld-- ela fracassou em navegar no campo minado político e negociar uma oferta superior.

No final, os executivos da Cnooc disseram que estavam relutantes em aumentar sua oferta para perto de US$ 20 bilhões porque Washington dificilmente aprovaria o acordo, e até mesmo adotou uma legislação que retardaria ou dificultaria o processo de aprovação.

Em uma declaração divulgada na última terça-feira em Hong Kong, a Cnooc explicou sua decisão de retirar a oferta dizendo: "Este ambiente político tornou muito difícil para avaliarmos precisamente nossa chance de sucesso, criando um grau de incerteza que representa um risco inaceitável para nossa capacidade de garantir esta transação".

Alguns empresários chineses disseram que o fracasso da oferta poderá afetar amplamente as relações comerciais entre a China e os Estados Unidos, muito além de fusões e aquisições.

"A forma como o governo americano tratou a Cnooc e politizou o acordo frustrará enormemente as empresas chinesas", disse Han Xiaoping, diretor chefe de informação da Falcon Power, uma firma de consultoria de energia com sede em Pequim. "As empresas não apenas de petróleo, mas de todas os outros setores, não vão querer jogar segundo as regras americanas."

Mesmo assim, as companhias de petróleo chinesas deverão continuar sua caçada por aquisições, à medida que cresce o apetite de energia da China para alimentar sua economia em expansão.

Risco político

A oferta da Cnooc pela Unocal --a maior oferta de aquisição tentada por uma empresa chinesa-- foi atormentada por problemas mesmo antes de começar, no final de junho. De fato, em março, quando a Unocal foi colocada em leilão, diretores independentes da Cnooc votaram contra a oferta de aquisição durante uma acalorada reunião do conselho, apenas 15 horas antes do término do prazo para apresentação dos lances, segundo vários executivos que recontaram o processo de tomada de decisão dentro da Cnooc.

O cético mais franco era Erwin Schurtenberger, o ex-embaixador suíço na China, mas questionamentos mais fortes também vieram de Kenneth S. Courtis, o vice-presidente da Goldman Sachs na Ásia, que ficou particularmente incomodado com a natureza apressada da oferta.

Seis dias após a contenciosa reunião do conselho, em 4 de abril, Schurtenberger deixou seu cargo no conselho; um declaração da empresa disse que ele o fez por motivos de saúde. Ele sofre de câncer na próstata há anos.

Vários dias depois, a Chevron fechou um acordo de US$ 16 bilhões pela Unocal. Ainda assim, o ambicioso presidente da Cnooc, Fu Chengyu, estava determinado. Os diretores independentes tinham prometido rever a oferta após a contratação de uma consultoria independente, N.M. Rothschild & Sons, e uma firma de consultoria de energia para fazer uma avaliação separada da oferta planejada.

Com Schurtenberger não mais no conselho e uma avaliação positiva da consultoria de energia externa, o conselho da Cnooc votou no final de junho em fazer uma oferta não solicitada no valor de US$ 67 por ação, ou US$ 18,5 bilhões.

Durante aquela reunião do conselho, os consultores americanos sugeriram que havia algum risco regulatório, mas consideraram a perspectiva de oposição ao acordo por parte dos políticos como "não mais do que o barulho habitual".

Um recente precedente para uma importante aquisição foi a compra da divisão de computadores pessoais da IBM pela Lenovo, um acordo que transcorreu de forma relativamente tranqüila.

É claro, no dia em que a Cnooc anunciou sua oferta, teve início a reação. Os lobistas da Chevron trabalharam sua base política na Califórnia.

Dois deputados republicanos, Richard W. Pombo e Duncan Hunter, escreveram uma carta ao presidente Bush em antecipação à oferta, pedindo para que a transação fosse analisada pelo prisma da segurança nacional, e iniciaram uma grande atividade. Outros políticos acusaram a Cnooc de atuar como fachada para o governo chinês na busca de ativos estratégicos de energia que seriam de valor para os Estados Unidos.

Os investidores foram lançados em um mercado de ações nervoso diante da possibilidade de uma guerra de lances pela companhia. Cerca de uma semana após a primeira oferta da Cnooc, correu o boato de que ela estava se preparando para elevar sua oferta para US$ 69 por ação.

Para aliviar os temores de que poderia abandonar o acordo, a empresa também buscou separar US$ 2,5 bilhões para o caso de processos. Os executivos da Cnooc disseram que estavam dispostos a se desfazer da maioria dos ativos da Unocal nos Estados Unidos caso isto fosse necessário para obter aprovação do governo americano.

O governo chinês e os executivos da Cnooc também insistiram que a oferta de aquisição era apenas um acordo comercial e não tinha nada a ver com política. A Cnooc prometeu às autoridades em Washington que estava simplesmente tentando uma aquisição "amistosa" da Unocal com uma oferta maior e que até mesmo pagaria a taxa de rescisão de US$ 500 milhões caso a Unocal concordasse em abandonar seu acordo anterior com a Chevron.

Mas em meados de julho, a oposição em Washington atingiu massa crítica.

Dentro da Cnooc havia o sentimento de que sua oferta estava "realmente afundando", segundo uma pessoa envolvida nas discussões. A profundidade da oposição política à oferta da Cnooc era clara. Não apenas vários projetos de lei e resoluções foram apresentados no Congresso, mas também ocorreram audiências importantes no Comitê de Serviços Armados da Câmara, na qual testemunhas, incluindo R. James Woolsey, o ex-diretor da central de inteligência, criticaram a proposta de compra como uma ameaça à segurança de energia dos Estados Unidos.

Na China, as conversas na Internet em sites pró-governo, que originalmente aplaudiram a oferta da Cnooc, ficaram silenciosas. O tom dos comentários nas agências de notícias chinesas e na imprensa mudaram acentuadamente.

Além de criticarem a interferência política nos Estados Unidos, os analistas e comentaristas locais disseram que a China deve apenas tentar acordos amistosos no futuro e que a ação da Cnooc provavelmente não faria sentido econômico a um preço mais alto.

"Até então, a posição dos consultores estrangeiros da empresa era de que bastava colocar mais dinheiro na mesa", disse uma pessoa envolvida nas discussões de aquisição, que insistiu no anonimato por causa da natureza confidencial das discussões.

"Eles realmente subestimaram o quão poderosa é a Chevron --uma empresa 10 vezes maior que a Cnooc-- e quanta influência ela tem em Washington. Foi uma leitura completamente equivocada do risco político."

Houve alguma discussão nas últimas semanas sobre a tentativa de trazer um parceiro americano para desarmar a controvérsia política nos Estados Unidos, disse a pessoa.

Mas em vez disso a Cnooc piscou. A Unocal estava pronta para aceitar a nova oferta da Cnooc de US$ 69 por ação, mas em 16 de julho, Fu telefonou para o presidente da Unocal, Charles R. Williamson, "e informou a ele que, apesar do conselho da Cnooc ter autorizado um aumento da proposta para US$ 69 por ação em dinheiro, a Cnooc não estava preparada para elevar a proposta além dos US$ 67 por ação", segundo um documento da Unocal.

Se a Cnooc tivesse feito a oferta maior e a Unocal a tivesse aceitado, as chances da Chevron de vencer a disputa pela aquisição seriam muito menores. Mas sem uma oferta mais alta da Cnooc, a Chevron agiu: ela elevou sua oferta para US$ 64 por ação. O conselho da Unocal a aceitou.

Logo depois, as coisas pioraram ainda mais para a Cnooc: os negociadores no Congresso que buscavam reconciliar as versões da Câmara e do Senado do projeto de lei de energia adicionaram um artigo exigindo um estudo de quatro meses das necessidades de energia da China antes que o governo pudesse aprovar a oferta da Cnooc. O projeto foi virtualmente um golpe fatal para qualquer oferta da Cnooc.

Com uma reunião dos acionistas para votar o acordo da Unocal com a Chevron marcada para 10 de agosto, a Cnooc tinha que se decidir pelo aumento ou a retirada da oferta.

Para Fu, a situação foi particularmente dolorosa, talvez irônica. Por anos ele argumentou em reuniões da empresa que a Cnooc devia evitar os países da África e do Oriente Médio por causa dos riscos políticos associados a alguns países destas regiões, segundo um conselheiro da empresa. Este foi um dos motivos para Fu ter lutado para fazer uma aquisição nos Estados Unidos.

"Este é um despertar bem rude", disse o conselheiro. "O risco político revelou ser bem maior na América."

*Steve Lohr contribuiu com reportagem em Nova York. Pressão política impede negociação em setor julgado estratégico George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host