UOL Notícias Internacional
 

03/08/2005

Rússia expulsa rede de TV ABC, citando entrevista com rebelde tchetcheno

The New York Times
Steven Lee Myers

Em Moscou
A Rússia anunciou nesta terça-feira (2/8) que está proibindo jornalistas da ABC News de trabalharem aqui, efetivamente expulsando uma organização estrangeira de notícias pela primeira vez desde o colapso da União Soviética.

A medida da Rússia ocorreu em retaliação à transmissão pela ABC de uma entrevista com Shamil Basayev, o líder rebelde tchetcheno que ordenou ou executou alguns dos piores ataques terroristas na história do país, incluindo a tomada da escola em Beslan, em setembro passado, que resultou na morte de 330 pessoas.

A decisão ressaltou não apenas a sensibilidade da Rússia com a percepção estrangeira da guerra na Tchetchênia, mas também uma crescente e evidente antipatia em relação aos Estados Unidos e outros países vistos como hostis em relação à Rússia.

O ministro da Defesa, Sergei B. Ivanov, já tinha chamado a rede de "fora-da-lei" e ordenado que os militares cessassem qualquer contato com ela após a entrevista, exibida no programa "Nightline" da ABC News, na quinta-feira. O Ministério das Relações Exteriores tomou a medida incomum de convocar o alto diplomata americano em Moscou no dia seguinte para uma queixa formal.

O ministério foi ainda mais longe na terça-feira. Em uma declaração publicada na terça-feira em seu site na Internet e repetida pela televisão estatal por Boris N. Malakhov, seu vice-porta-voz, ele disse que a Rússia não renovaria as credenciais dos jornalistas que trabalham para a ABC assim que expirassem. Jornalistas estrangeiros não podem trabalhar legalmente na Rússia sem credenciamento.

Enquanto isso, a declaração disse que nenhuma autoridade cooperaria com a rede, dizendo que a entrevista representava uma "propaganda do terrorismo".

O Kremlin, sob o presidente Vladimir V. Putin, há muito tem enfrentado críticas por seu endurecimento do controle do Estado sobre a mídia na Rússia, especialmente quando se trata de cobertura da oposição política e da segunda guerra na Tchetchênia, que teve início quase seis anos atrás e se arrasta até hoje.

Mas foi a primeira vez que o governo russo se voltou diretamente --e abertamente-- contra toda uma organização de notícias por sua reportagem.

No domingo, o Ministério das Relações Exteriores parecia descartar tal medida, mesmo enquanto criticava a entrevista com Basayev, que aparece nas listas da ONU e dos Estados Unidos de terroristas procurados.

David Westin, o presidente da ABC News, expressou pesar e defendeu a transmissão, dizendo que a rede não pode permitir que "qualquer governo nos impeça de divulgar as notícias de forma plena e precisa".

"A missão da imprensa livre é cobrir eventos noticiosos, mesmo aqueles envolvendo atos ilegais, para ajudar nossa platéia a melhor entender as questões importantes diante de todos nós", disse ele em uma declaração.

A Rússia já negou previamente credenciais e vistos para jornalistas estrangeiros, geralmente sem uma explicação clara. Em 2004, uma correspondente do jornal dinamarquês "Politiken", Vibeke Sperling, se queixou de que lhe tinham negado o visto por causa de sua reportagem sobre a Tchetchênia e outros assuntos delicados.

Em 1995, o governo revogou o visto de Steve LeVine, um correspondente da "Newsweek" e do "The Washington Post", citando uma tecnicalidade envolvendo a revogação de seu visto no Uzbequistão.

Ele foi o primeiro americano expulso pelo Kremlin desde 1986, quando Nicholas Daniloff, da revista "U.S. News and World Report", foi preso e acusado de espionagem antes de ser expulso, durante um acirramento das tensões da Guerra Fria com a então União Soviética.

Imprensa sitiada

A ABC News, como muitas organizações de notícias após o fim da Guerra Fria, reduziu sua equipe de reportagem em Moscou, e agora é representada pelo seu chefe de sucursal, Tomasz Rolski, de cidadania polonesa. Não ficou imediatamente claro se sua credencial está prestes a expirar ou se outros funcionários da ABC News também poderão perder seu status oficial. Os jornalistas estrangeiros geralmente recebem credenciamento para um ou dois anos.

O Ministério das Relações Exteriores também ameaçou medidas não especificadas contra o jornalista que realizou a entrevista, Andrei Babitsky.

Babitsky, um russo com uma permissão de trabalho americana cujas reportagens na Tchetchênia há muito irritam o Kremlin, trabalha para a Radio Free Europe/Radio Liberty, com sede em Praga. Em uma entrevista por telefone, ele disse que arranjou a entrevista e a ofereceu para a ABC News por iniciativa própria, enquanto está sob licença de seu empregador regular.

Tanto repórteres russos quanto estrangeiros enfrentam restrições para cobertura da Tchetchênia, apesar de a proibição para viajar para lá sem escolta do governo ser rotineiramente contornada e ter sido, até o momento, tolerada.

"Esta entrevista foi feita violando a lei russa, já que ele não tinha credencial de correspondente", disse a declaração. "As circunstâncias da organização e condução da entrevista serão esclarecidas com seus empregadores."

Grupos de defesa do jornalismo reagiram com surpresa e desalento. Lucie Morillon, uma representante em Washington da Repórteres Sem Fronteira, considerou a decisão estarrecedora.

"Nós vemos isto como um golpe contra a liberdade de imprensa e apresentação de notícias na Rússia", disse ela em uma entrevista por telefone. "É um alerta para outras organizações estrangeiras de notícias. É como dizer: 'Se vocês não cobrirem o conflito tchetcheno da forma que eles querem, vocês não poderão trabalhar na Rússia'."

Na entrevista, Basayev agiu de forma desafiadora, apesar de às vezes parecer confuso. Alguns de seus comentários pareciam ter pouca base na realidade, incluindo a alegação de que as forças russas abateram dois aviões de passageiros que explodiram durante o vôo em agosto passado. Ele já tinha reivindicado a responsabilidade pelos dois atentados com homens-bomba que explodiram os aviões, matando 90 pessoas.

Basayev reconheceu ser um terrorista mas culpou a Rússia por forçar suas ações. Ele também alertou sobre novos ataques.

Babitsky disse que passou dois dias --22 e 23 de junho-- com Basayev e seis outros combatentes, um deles um estrangeiro que chamou de árabe.

Seu relato ofereceu um raro vislumbre do que resta da resistência separatista tchetchena: pequenos grupos de homens doentes vivendo de forma furtiva em florestas densas, com medo de acenderem fogueiras por causa da detecção dos aviões de reconhecimento que sobrevoam a área.

Em uma entrevista por telefone, Babitsky disse que acredita que a entrevista ocorreu na Tchetchênia, mas acrescentou não saber ao certo se não estavam em outro lugar, nas montanhas remotas ao longo da fronteira sul da Rússia.

Ele disse que ainda não estava ciente de qualquer medida oficial tomada contra ele, mas que as espera; ele não voltou para a Rússia desde a entrevista. Ele disse que a Rússia estava reagindo exageradamente por frustração e embaraço.

"Em seis anos as estruturas de poder não puderam pegar o terrorista Nº1 da Rússia", disse ele, se referindo à polícia, às forças armadas e aos serviços de segurança que operam na Tchetchênia. "Agora eles colocam toda a culpa nos jornalistas." Pela 1ª vez desde o fim da URSS, o país hostiliza mídia estrangeira George El Khouri Andolfato

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