UOL Notícias Internacional
 

04/08/2005

Após a cirurgia plástica cosmética, os "retoques"

The New York Times
Susan Saulny

Em Nova York
Denise Kumpel sabia que algo estava errado assim que o inchaço diminuiu. Sua narina direita não tinha rigidez suficiente para ficar em pé. Depois de seis semanas, com a narina colapsada, ela voltou à mesa de cirurgia para consertar o trabalho mal feito. Poucas semanas após a segunda rinoplastia, ela viu que seu nariz estava anormalmente achatado, como se estivesse afundado no rosto, e procurou um novo cirurgião.

Laura Pedrick/The New York Times 
Antes e depois: Denise Kumpel precisou de cinco cirurgias corretivas para ficar com seu nariz do jeito que queria
Não uma, nem duas, mas três outras cirurgias seguiram-se nos três anos seguintes, a um custo de mais de US$ 30.000 (em torno de R$ 75.000). Finalmente, há nove meses, usando cartilagem das orelhas, Kumpel atingiu o resultado originalmente desejado.

"Achei que ia fazer uma coisa razoavelmente simples: tinha um calombo no nariz e não gostava do meu perfil", disse Kumpel. "Mas tornou-se um ciclo infinito. Eu me perguntava se jamais ia terminar."

Apesar do caso de Kumpel parecer extremo, sua experiência não é tão rara. O número de pessoas optando pela cirurgia plástica continua crescendo no país, e o número de cirurgias de correção, ou retoques [re-do's], como são chamadas, também parece estar aumentando em um ritmo alto o suficiente para causar preocupação entre cirurgiões proeminentes.

"Estou vendo muito mais (desses casos) do que acho que devia, dado o número de procedimentos primários", disse Steven J. Pearlman, cirurgião plástico facial em Nova York e presidente da Academia Americana de Cirurgia Facial Plástica e de Reconstrução.

É verdade que alguns pacientes fazem várias cirurgias em uma única parte do corpo simplesmente porque querem. Para outro grupo, entretanto, a cirurgia de revisão é considerada necessária, após complicações por serviços mal feitos ou outros problemas imprevistos.

Apesar das evidências sugerirem que houve um aumento no número de procedimentos de revisão de cirurgias cosméticas, é quase impossível quantificá-las --ou determinar sua necessidade. As principais associações médicas não mantêm estatísticas sobre retoques, e os médicos não são obrigados a dar informações sobre as revisões de seus trabalhos.

Esses casos, em geral, não chegam a ser erros médicos, mas ainda assim deixam os pacientes insatisfeitos, determinados a arriscarem nova cirurgia, se puderem pagar.

"As revisões e complicações não são divulgadas, e não há uma forma fácil de acessar essa informação. Não é um assunto sobre o qual as pessoas gostam de falar", disse Robert Goldberg, chefe da divisão de cirurgia plástica oftálmica no Instituto do Olho Jules Stein, na Universidade da Califórnia em Los Angeles, que atende pacientes de todo o país em busca de revisões.

É difícil para os pacientes saberem se o número de cirurgias mal feitas está aumentando. Os cirurgiões plásticos não têm incentivos para revelar informações sobre as revisões de seu trabalho ou de acompanhar seus pacientes no longo prazo.

Além disso, são mais raros grupos de consumidores fortes que poderiam pressionar para obter essas informações. Como a maior parte dos procedimentos é eletiva, alguns pacientes de cirurgia cosmética sentem-se culpados em expressar até a menor das reclamações.

Kumpel, por exemplo, não quis falar muito sobre seu sofrimento antes que estivesse terminado. Ela disse que nunca pensou em processar os médicos que deixaram seu nariz pior. "Quando você faz uma cirurgia plástica, você aceita e assina que as coisas podem dar errado. Eles não garantem um bom resultado", disse Kumpel, logopedista de 30 anos de Tuckerton, Nova Jersey.

Outra paciente, Amy Longtemps, está aguardando uma consulta para fazer uma terceira cirurgia abdominal, depois que duas --uma redução de barriga e uma lipoaspiração-- não lhe deram o abdome reto que ele esperava. As cirurgias, em vez de melhorarem sua aparência depois da gravidez, deixaram sua barriga com calombos e desproporcional, disse ela.

"Foi um aprendizado", disse Longtemps, 45. "Não vou desistir até obter o que eu quero". Mas quando conseguir isso, "provavelmente nunca mais vou fazer outra plástica."

Muitos ainda consideram a possibilidade de resultados insatisfatórios um assunto inadequado para a conversa entre médicos e pacientes. O assunto destrói a imagem glamorosa retratada em inúmeros programas de televisão e propagandas para mostrar uma dura realidade para pessoas que preferem acreditar que os sonhos de beleza física eterna podem se tornar realidade.

No entanto, vale a pena falar a respeito, dizem muitos médicos e pacientes, porque, a cada cirurgia, os riscos aumentam e a probabilidade dos resultados agradáveis diminui, principalmente por causa do acúmulo de quelóides e perda de cartilagem. As cirurgias de revisão, em geral, são mais caras e levam mais tempo.

Pearlman, por exemplo, que fez a cirurgia final de Kumpel, disse que, em geral, uma rinoplastia leva de uma a três horas e que a revisão pode levar até seis.

Muitas clínicas de cirurgia plástica passaram a se especializar na revisão do trabalho de outros cirurgiões, o que era raro há uma década. Alguns pacientes disseram que procuraram os especialistas em revisão depois que os médicos não treinados em tecido alterado pioraram seus problemas cosméticos.

Goldberg disse que vê cerca de quatro novos pacientes por dia infelizes com os resultados de cirurgias em torno dos olhos, como levantamento de pálpebras. Esses casos perfazem mais da metade de sua clientela.

"Em média, meus pacientes já fizeram entre três e cinco cirurgias antes de me verem", disse Goldberg. "Quando você tem uma revisão problemática, faz a revisão da revisão, depois a revisão da revisão da revisão. Entra em um ciclo, e o problema só piora."

Outro cirurgião plástico facial, Jonathan Hoenig, de Beverly Hills, disse que não é incomum tratar pacientes que fizeram até uma dúzia de revisões em alguma parte do corpo, todas por razões legítimas. "Vemos pessoas que estiveram em 10 médicos e fizeram 15 cirurgias", disse ele.

A freqüência de revisões deveria ser igual ou menor que antigamente, devido aos avanços na cirurgia plástica. Mas esses ganhos podem ter sido contrabalançados por duas coisas, segundo os especialistas: mais médicos tentando entrar no negócio lucrativo da cirurgia plástica, apesar de terem sido treinados em outros campos, e o crescimento dramático das expectativas dos pacientes.

Os regulamentos que governam a prática da medicina variam de Estado para Estado, mas uma coisa é verdade em todo o país: os médicos só podem operar depois de obterem uma licença.

Michael Bermant, cirurgião plástico em Chester, Virgínia, é especialista em revisões de ginecomastia, ou contorno do peito masculino, entre outras coisas. Citando um caso extremo, ele disse que um homem procurou-o recentemente para a correção, depois de ter seu peito esculpido por um ginecologista. Bermant e outros dizem que apenas cirurgiões plásticos licenciados, que cumpriram padrões rígidos de treinamento, devem fazer cirurgia plástica.

"Fazer uma boa cirurgia primária é uma opção muito melhor do que precisar de revisão", disse ele. "Escolha seu primeiro cirurgião cuidadosamente."

No entanto, na hora da escolha, "é difícil encontrar informações sobre o índice de sucesso" dos cirurgiões, disse Arthur Caplan, professor de ética médica na Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia. Ele disse que os pacientes, enquanto consumidores, estão "fazendo compras em um mundo complicado".

Subjetividade da beleza

Algumas associações médicas também se preocupam com o aumento do número de procedimentos feitos fora de hospitais, em ambientes privados, como escritórios e clínicas, uma prática que não é limitada à cirurgia cosmética.

Há dois anos, o Colégio Americano de Cirurgiões e a Associação Médica Americana exortaram os Estados a desenvolverem diretrizes para a cirurgia em escritórios, de acordo com o nível de anestesia utilizado, entre uma série de coisas. Apenas poucos Estados responderam à sugestão, disse Jon Sutton, gerente dos assuntos governamentais do Colégio Americano de Cirurgiões.

E há outro componente óbvio que torna o mundo da cirurgia plástica tão complexo: a avaliação subjetiva da beleza.

"Em certos setores da medicina, ou você mata a infecção ou não", disse Caplan. "Na cosmética, há um resultado negociado de satisfação entre o paciente e o médico. É muito mais subjetivo do que a maior parte da medicina."

Não é incomum os médicos e pacientes terem diferentes pontos de vista sobre o que significa uma boa aparência, apesar de geralmente ser este o objetivo, apesar de vago.

"Vi uma paciente hoje que suspendeu as sobrancelhas e a pele do rosto. Ela estava realmente infeliz", disse Hoenig. "Eu achei o resultado ótimo."

Hoenig e outros cirurgiões dizem que alguns pacientes exageram os problemas. Esses pacientes, alguns dos quais podem sofrer de uma doença conhecida como dismorfofobia, em geral soam alarmes durante as consultas, disseram os médicos.

A maior parte dos cirurgiões entrevistados disse que tinha se recusado a fazer revisão em pacientes que pareciam ter expectativas pouco realistas ou problemas que a cirurgia plástica não resolveria. Bermant disse que recusa mais pacientes do que aceita.

Algumas pessoas, inicialmente ficam satisfeitas, mas os problemas se desenvolvem depois. Diane Hennig, pintora e modelo de Dobbs Ferry, N.Y., gostou muito do resultado após sua primeira rinoplastia, em março de 2003. Entretanto, durante a recuperação, seu perfil mudou. Desde então, já fez mais duas cirurgias no nariz.

Este acabou ficando tão frágil que, em certo ponto, há dois anos, o septo desmoronou. Ela disse que ficou tão preocupada ao imaginar outra cirurgia, que está tomando precauções.

"Fico paranóica até de tocar o nariz agora", disse ela. "Mexo nele como se fosse de cristal." Cada vez mais pacientes procuram corrigir operações insatisfatórias Deborah Weinberg

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