UOL Notícias Internacional
 

04/08/2005

Relatório de dezembro advertia sobre perigo representado pela espuma no Discovery

The New York Times
John Schwartz

Em Houston, Texas
Um relatório interno da Nasa de dezembro do ano passado advertia sobre as deficiências na forma como a espuma isolante estava sendo aplicada a partes do tanque de combustível que seria utilizado na atual missão do ônibus espacial Discovery.

O relatório, que foi fornecido a The New York Times por um indivíduo que não pertence aos quadros da Nasa, mas que faz parte de uma rede informal de pessoas preocupadas com a segurança do ônibus espacial, não recomendou que o Discovery deixasse de ser lançado. Mas o documento contém uma áspera crítica ao controle de qualidade e às práticas predominantes no Centro de Montagem Michoud, em Nova Orleans.

A fábrica, gerenciada por uma grande empreiteira da Nasa, a Lockheed Martin, passou a ser alvo de intensas críticas depois de um acidente motivado por um pedaço de espuma isolante, durante o lançamento, que causou a perda do ônibus espacial Columbia e da sua tripulação de sete astronautas em 2003.

Embora a Nasa tenha levado dois anos e meio e investido cerca de US$ 200 milhões para resolver os problemas com a espuma após o desastre, estes reapareceram em 26 de julho, quando um pedaço do material de cerca de 84 centímetros de comprimento se soltou do tanque dois minutos após o lançamento. Os futuros vôos do ônibus espacial foram suspensos até que esses problemas sejam resolvidos.

O relatório de dezembro de 2004 sobre a espuma, feito por Conley Perry, chefe aposentado da divisão de engenharia de qualidade da Nasa do Centro Espacial Johnson, em Houston, disse que ficou "óbvio" que os engenheiros da Lockheed responsáveis pelo tanque externo "não realizaram um trabalho rigoroso" na identificação de deformações e variações que podem ocorrer quando a espuma é aplicada a mão.

Apesar da insistência da Nasa em afirmar que não permitiria que pressões sobre a agenda fizessem com que a espaçonave voltasse a voar antes que o lançamento fosse considerado seguro, Perry escreveu que a relutância da agência em reavaliar os problemas de controle de qualidade "deriva da atitude que prioriza a agenda", algo que, segundo ele, é típico da gerência da Lockheed Martin.

Mesmo após dois anos de esforços para corrigir o problema dos fragmentos de espuma, advertiu ele, "continuará havendo a ameaça de formação de pedaços críticos desse material".

"Essa variável poderia ser razoavelmente eliminada", prosseguiu Perry. "No entanto, ela continua existindo".

O relatório de 23 páginas foi inicialmente enviado aos gerentes de segurança da Nasa por e-mail e acabou sendo difundido mais amplamente. A pessoa que o forneceu ao NYT exigiu que o seu nome fosse mantido em sigilo, alegando que não fora autorizada a lê-lo.

O trabalho também foi avaliado pelo grupo independente que monitorou o progresso da Nasa na melhoria da segurança no processo de retorno aos lançamentos. Um porta-voz do grupo enviou questões à Nasa.

David Mould, assistente administrativo de relações públicas da Nasa, disse que a agência preparou uma resposta abordando cada ponto do relatório, mas que o documento não pôde ser divulgado desta vez porque as informações nele contidas se enquadram nas regras de sigilo referentes aos controles de exportação que regem a tecnologia espacial.

Mas, ele acrescentou: "A Nasa e suas empreiteiras implementaram várias melhorias de processo e qualidade na aplicação manual de espuma ao tanque externo de combustível, o que resultou em um número substancialmente menor de fragmentos que se desprendem do tanque durante o lançamento. Mas, conforme vimos, ainda temos trabalhos a fazer com relação à espuma".

Ele continuou: "Ainda há questões que precisamos abordar, e faremos isso".

Marion LaNasa, porta-voz da Lockheed Martin, disse: "Nós nos submeteremos à opinião da Nasa com relação a pontos específicos do relatório, mas enfatizamos fortemente que a segurança e a qualidade são as forças que orientam o nosso trabalho de fabricação do tanque externo".

George Abbey, um ex-diretor do Centro Espacial Johnson, disse que viu o relatório e que as conclusões do documento são "motivo de preocupação".

"Quando vimos o que foi feito para o desenvolvimento da tecnologia aplicada ao restante do ônibus espacial, acreditamos que a indústria norte-americana poderia resolver esse problema", disse ele.

Autoridades da Nasa disseram que, quando se preparavam para o retorno da frota de ônibus espaciais à órbita, não esperavam ver pedaços de espuma pesando mais de 13 gramas se soltando dos novos tanques durante a fase crítica do lançamento.

O fragmento de espuma que se desprendeu depois do lançamento do Discovery, por pouco não atingindo a espaçonave, pesava 400 gramas. Pelo menos três outros fragmentos excederam os limites de segurança da Nasa.

O novo administrador da Nasa, Michael D. Griffin, criou uma equipe de engenheiros para descobrir as causas do incidente e encontrar formas de solucionar o problema.

As atenções se focalizaram na fabricação do tanque e na área da qual a espuma se desprendeu, uma longa seção aerodinâmica conhecida como rampa de protuberância de pressão aerodinâmica, ou rampa PAL.

Há muito tempo a Nasa percebeu que a rampa PAL poderia ser uma fonte de fragmentos de espuma. Assim como na parte do tanque que gerou problemas na última missão do Columbia, conhecida como rampa de braço duplo, a espuma da rampa PAL também é aplicada a mão.

Essas áreas têm apresentado uma tendência a soltarem mais espuma do que as grandes áreas cobertas pelo material, nas quais a espuma é aplicada por equipamento robotizado. Embora o histórico dos vôos indique que houve apenas dois incidentes envolvendo desprendimento de espuma da rampa, o último deles no início dos anos 80, houve dezenas de lançamentos noturnos durantes os quais tais desprendimentos não teriam sido identificados.

Após o acidente com o Columbia, a Nasa cogitou remover ou redesenhar a rampa PAL. Mas funcionários da agência disseram que não surgiu nenhuma boa alternativa, e a Nasa acabou decidindo não fazer alterações. Em vez disse, a rampa passou a ser examinada por meio de uma avaliação não destrutiva - um processo de escaneamento interno que não exige o corte do material leve - a fim de se buscar bolsas de ar, ou "vazios", que são a principal causa de desprendimento de pedaços de espuma.

Desde então técnicos da Nasa admitiram que essa decisão foi um erro. Conforme Griffin disse em uma entrevista na televisão no domingo: "Neste caso, fizemos uma trapalhada".

O relatório de Perry não questiona a decisão de lançar o tanque revestido com a espuma aplicada a mão, incluindo na rampa PAL. "Não existe nenhuma informação crível disponível que dê motivo para se desconfiar das seções existentes que foram designadas como 'áreas de espuma para serem utilizadas como estão'", diz o relatório.

O documento concluiu: "Não obstante as preocupações aqui discutidas, me sinto confortável quanto às decisões tomadas pelos vários grupos que identificaram as áreas que precisaram ser redesenhadas e aquelas que podem ser submetidas ao lançamento 'como estão'. A lógica utilizada para estas decisões é convincente e aceitável".

O tanque 121, que seria utilizado no vôo do Discovery, estava "pronto para o processo de retomada das operações de vôo", continuou o documento.

Perry não quis discutir o relatório ao ser questionado pelo telefone. Como engenheiro de testes, ele trabalhou na investigação do incêndio na plataforma de lançamento do Projeto Apollo que matou três astronautas em 1967, e realizou o teste no qual a Nasa queimou um modelo de cápsula espacial para estudar o grau de inflamabilidade dos seus vários componentes.

Ele se aposentou da Nasa em 1993, mas foi chamado novamente à ativa após o acidente com o Columbia pelo departamento de segurança e garantia de missão do projeto de agência para a retomada dos lançamentos, tendo pedido para monitorar a qualidade das operações na fábrica Michoud.

Abbey, o ex-diretor do Centro Espacial Johnson, disse não ter se surpreendido com o fato de Perry não ter solicitado longos adiamentos devido à questão da rampa PAL, ainda que as suas críticas tenham sido tão enérgicas.

"Creio que ele estava dividido entre o reconhecimento da urgência da retomada dos lançamentos e a sua preocupação com o tanque", afirmou.

Abbey acrescentou que o problema com a espuma e o tanque reduziu desnecessariamente os sucessos da missão de retorno aos vôos. "Temos um sistema complexo que está funcionando surpreendentemente bem. Por outro lado, houve problemas persistentes com esse elemento essencialmente passivo que não faz muito mais do que armazenar o combustível durante os oito minutos e meio necessários para se atingir a órbita", afirmou.

"Isso deu ao ônibus espacial --que é um sistema formidável-- uma má reputação", explicou. "E isso não é justo". Documento critica a prevalência da agenda nas decisões da Nasa Danilo Fonseca

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