UOL Notícias Internacional
 

05/08/2005

Fome castiga 3,6 milhões de pessoas no Níger

The New York Times
Michael Wines

Em Elkokiya, Níger
No final da tarde da última quarta-feira (3/8), em uma sepultura sem nenhuma inscrição, no cemitério rodeado por campos de painço, os homens desta vila de casas de barro enterraram Baby Boy Saminou, a mais recente vítima da fome que se abate sobre 3,6 milhões de agricultores e pastores nesta nação paupérrima.

Michael Kamber/Polaris for The New York Times 
O garoto Saminou morreu de fome pouco depois de esta foto ser tirada, no hospital
Aos 16 meses de idade, ele era pouco maior que um recém-nascido, com membros finos como gravetos e costelas esqueléticas, características dos indivíduos gravemente mal nutridos. Saminou morreu três horas antes na unidade de terapia intensiva de um hospital de campo administrado pela organização Médicos Sem Fronteiras, onde 30 outros pacientes como ele ainda estão internados com suas mães, deitados em camas de metal.

Uma em cada cinco dessas pessoas está morrendo --um resultado, segundo muitos dizem, da resposta tardia do mundo exterior a um desastre previsto com detalhes há dez meses.

O último problema do Níger com a fome epidêmica, assim como a tragédia de Baby Boy Saminou, é mais complexo do que parece. Neste momento em que a ajuda começa a ser fornecida a quase 4.000 vilarejos no sul do Níger que precisam de auxílio --a primeira leva de uma grande quantidade de comida conseguida devido à divulgação das imagens de bebês esqueléticos--, a resposta do mundo rico à pior crise de nutrição do país desde a fome de 1985 está, na verdade, chegando muito tardiamente para muitos dos necessitados.

A televisão não mostra os bebês que morrem praticamente sem serem notados, até mesmo nos chamados anos normais. De cada mil crianças nascidas vivas nesta que é a segunda nação mais pobre do planeta, 262 não conseguem sobreviver até os cinco anos de idade.

Cinco dos sete irmãos e irmãs de Baby Boy Saminou estão entre os mortos. O que viveu mais tempo chegou aos quatro anos de idade. Quando lhe perguntaram o que matou os três últimos, o pai de Saminou, Saidou Ida, disse simplesmente: "Desnutrição".

Funcionários de organizações internacionais de ajuda e caridade que atuam aqui dizem que a reação tardia do mundo aos problemas do Níger é imperdoável.

Alguns deles dizem também que as mazelas do Níger neste ano são meramente uma versão piorada dos problemas que ocorrem normalmente no país --e que até que o país resolva os problemas da agricultura atrasada, do sistema de saúde deficiente e das condições sociais primitivas, as crianças continuarão morrendo em quantidades que nenhum programa emergencial de saúde será capaz de remediar.

"Essa é a maior pergunta que tanto o Níger quanto a comunidade internacional precisam responder", disse Marcus Prior, porta-voz no oeste da África do Programa Mundial de Alimentos, em uma entrevista em Maradi, a cidade regional onde morreu Saminou. "Sentimos que tentamos elevar o nível de consciência. Mas, ao mesmo tempo, esse é um problema recorrente".

Prior e outros enfatizam que o fato de esse problema ser perene de forma alguma minimiza a urgência da atual tragédia do Níger - chuvas irregulares e falta de alimento nas regiões agrícolas e pastoris, onde moram entre 11 e 12 milhões de pessoas. Juntos, esses dois problemas estão fazendo com que o índice de mortalidade entre crianças pequenas ultrapasse até a média comum de uma morte por quatro crianças, além de matarem o gado do qual os nômades do país dependem.

A determinação do número de pessoas que precisa de ajuda depende do critério utilizado. Cerca de 1,2 milhão dos 3,6 milhões de agricultores e pastores do Níger são descritos como "extremamente vulneráveis" à falta de alimento e necessitam de auxílio nutricional, segundo uma avaliação da crise realizada no país quatro meses atrás pelas Nações Unidas, por grandes organizações de auxílio e pelo governo do Níger.

Desses indivíduos, cerca de 874 mil necessitam urgentemente de alimentação gratuita, segundo a última avaliação, concluída no mês passado, e esse número deve subir até que a colheita seja concluída em outubro.

Mas isso não significa que quase 900 mil pessoas morrerão de fome. A vasta maioria dos famintos sobreviverá. A maior parte dos que morrerão será composta de crianças pequenas. Mas mesmo entre esse grupo, a maioria não morrerá de fome.

"As crianças provavelmente morrerão de desnutrição, mas uma proporção substancial deverá morrer devido à má qualidade da água, ou a outros problemas não relacionados à falta de alimentos", anunciou no mês passado a FEWS Net, um serviço de alerta sobre a fome, financiado pelos Estados Unidos.

Em novembro do ano passado, já se suspeitava que esse desastre fosse ocorrer. Naquela época os especialistas que monitoram a produção agrícola do Níger detectaram uma redução de 220 mil toneladas na produção --cerca de 7,5% da colheita normal-- nas culturas de grãos, especialmente o painço, que é a base da alimentação da maioria das pessoas.

O Programa de Alimentação Mundial das Nações Unidas e a Médicos Sem Fronteiras soaram o alarme, e o governo do Níger, com a aprovação do órgão da ONU, pediu rapidamente aos doadores que enviassem 71 mil toneladas de ajuda em alimentos ao país e US$ 3 milhões para os 400 mil agricultores e pastores em situação mais vulnerável.

Por volta de maio, a nação havia recebido menos de 7.000 toneladas de alimentos e apenas uma doação de US$ 320 mil, de Luxemburgo.

"Creio que todos sabiam que havia uma crise em andamento", disse Johanne Sekkenes, a chefe da missão da Médicos Sem Fronteiras, em uma entrevista em Niamey, a capital do país. "Mas a resposta dada à época pelos governos e pelas agências internacionais foi que os programas de desenvolvimento normais em andamento deveriam ser reforçados".

O governo do Níger descartou tanto o auxílio gratuito em alimentos quanto tratamentos de saúde para as famílias famintas, preferindo vender os estoques de painço a preços subsidiados em uma tentativa de empurrar para baixo o preço do alimento escasso. Mas os preços do painço dispararam, obrigando as famílias a vender o gado e outros bens para comprarem comida.

As organizações filantrópicas acusaram furiosamente os governos de terem permitido que crianças morressem, embora não de forma intencional, de maneira que o livre mercado dos grãos não sofresse abalos. Outros dizem que o Níger está no rumo certo de futuros desastres, recebendo ou não auxílio. Mesmo com o grande número de mortes infantis, as mulheres do país têm em média sete filhos, e a população está crescendo em um ritmo que dobrará o número de habitantes em 2026, em um país que já está esgotando a sua capacidade de produção.

Além do mais, o Níger possui poucos instrumentos modernos que poderiam possibilitar que escapasse da ameaça da fome, o que significa que as organizações filantrópicas precisam fornecer ajuda alimentar praticamente todos os anos.

"Vocês viram o tipo ferramenta que as pessoas usam para trabalhar no campo", diz Prior. "E também a ausência de irrigação e a dependência total daquilo que cai do céu. Duvido que tenham visto qualquer fertilizante ou tecnologia moderna sendo usada".

Quando a estação das chuvas chegou em junho, trazendo malária e outras doenças, as crianças enfraquecidas pela falta de comida começaram a adoecer e morrer em quantidades ainda maiores do que nos anos normais.

Os Médicos Sem Fronteira trataram mais de 14 mil crianças em seis centros neste ano, mais do que o dobro do total de 2004, e atualmente estão com quase 5.000 sob tratamento. As internações médicas subiram em 25% de meados de julho a agosto.

A fome faz mais uma vítima

Michael Kamber/Polaris for The New York Times 
Saminou recebeu tratamento no posto dos Médicos Sem Fronteira, mas não resistiu
Entre os novos internados estava Baby Boy Saminou, cuja mãe de 40 anos de idade, Mariama, o trouxe ao hospital de caridade de Maradi na quarta-feira, vinda de um vilarejo de cerca de 2.500 habitantes, a cerca de 24 quilômetros de distância por uma estrada primitiva. O garoto estava recebendo alimentação gratuita e fora atendido pelos Médicos Sem Fronteira cinco dias antes, com uma infecção bucal, antes de seu estado piorar na semana passada.

"Eu sequer tive tempo de falar com ela. O estado de saúde do bebê era muito precário", conta Chantelle Umtoni, 34, chefe da unidade de terapia intensiva, que atendeu à mãe e à criança no seu consultório na tarde de quarta-feira. "Ele sofria de anemia e malária graves. Estava desidratado - completamente seco. E apresentava insuficiência cardíaca".

Os médicos estimularam o coração da criança, e lhe administraram sangue e soro por via intravenosa, além de terem colocado uma máscara de oxigênio sobre seu rosto para aliviar a sua respiração difícil.

Umtoni disse que acreditava que o garoto tivesse 50% de chance de sobreviver. Apesar de terríveis, esses casos não são incomuns.

"Recebemos uma média de 30 a 35 crianças por dia", conta ela. "Todas elas gravemente desnutridas. Isso, por si só, já se constitui em uma doença grave. Acrescente a isso a malária e a anemia, e o fato de elas chegarem um pouco tarde demais".

Mariama sentou-se ao lado do filho, envolta em uma túnica brilhante laranja e verde, e tomou conta dele. Dos seus oito filhos, cinco morreram. Segundo ela, os dois sobreviventes têm 15 e 17 anos.

Enquanto Mariama falava, a enfermeira, Boraka Abdou, colocou um estetoscópio sobre o tórax do bebê, auscultou-o, e, a seguir, deu as más notícias a Umtoni. Ela ouviu atentamente. Depois, sem uma palavra, elas removeram as máscaras e os cateteres. Mariama olhou para a criança morta, impassível, e a seguir cobriu-a com um lenço vermelho.

Uma hora mais tarde, ela voltou para casa, tendo caminhado 24 quilômetros com o bebê nos braços, com as lágrimas escorrendo pela face.

Do lado de fora da cabana, ela entregou a criança morta à sua sogra. Depois, sentou-se sobre uma vasilha de madeira usada para triturar painço e chorou, desconsolada. As mulheres, tendo ouvido a notícia, vieram prestar luto junto com ela. O casal banhou o corpo de Baby Boy Saminou e o envolveu em uma camiseta branca, para um funeral islâmico tradicional.

O chefe da aldeia, Moussa Djidji, disse que pelo menos dez crianças da comunidade morreram desde janeiro. Pouca comida e uma ação negligente do governo matam crianças Danilo Fonseca

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