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05/08/2005

Harvard mostra a arte modernista de Edgar Degas

The New York Times
Holland Cotter

Em Cambridge, Massachusetts
Edgar Degas era o supercomputador do início do modernismo francês. Com seu olho refinado e mãos hábeis, era topo de linha, desde quando se ascendeu criativamente, na década de 1850, até quando se desligou gradualmente, antes de sua morte em 1917, aos 83 anos.

Courtesy of Allan Macintyre; Harvard College/The New York Times 
"Cantora com uma Luva" integra a exibição de obras de Degas na Universidade Harvard
Havia, no entanto, um defeito no sistema, uma falha em seu programa. Chame de medo, insegurança, conflito interno. Essa falha fez dele um homem difícil, contraditório: um misantropo sociável, um egomaníaco tímido, um nacionalista cosmopolita, um esnobe igualitário. Como artista, era constantemente levado aos extremos estéticos: reação e revolução, passado e presente, fantasia e vida.

Foram esses conflitos que fizeram dele Degas e não outro artista: Boldini, Renoir (seus amigos) ou Toulouse-Lautrec (seu acólito que o adorava). Boldini era sobre elegância, Renoir sobre carne, Toulouse-Lautrec sobre linha. Degas era sobre isso tudo e mais. Mesmo hoje, depois de toda a atenção dada ao início do modernismo, ainda é difícil definir e avaliar esse "algo mais".

É por isso que ele parece solitário no quadro modernista, e que sua carreira estranhamente não aparenta ter um centro, quando vista como um todo, como na mostra "Degas at Harvard" no Museu Arthur M. Sackler, na Universidade Harvard.

Um vislumbre, apesar de panorâmico, é o que o público terá. A mostra ocupa apenas três pequenas galerias e é composta de desenhos, esculturas, impressões, pinturas de tamanho modesto e algumas fotografias, inclusive um auto-retrato de 1895.

As peças (mais de 70), juntas pela primeira vez, pertencem todas à universidade. Tecnicamente, elas são uma "coleção de ensino", mas nenhuma outra universidade americana tem uma coleção de Degas comparável.

Na mostra, toda sua carreira é pincelada, começando com a década de 1850. Sob o encanto de seu ídolo, Jean-Dominique Ingres, ele fez cópias meticulosas de esculturas gregas em Paris e pinturas da Renascença na Itália.

Competitivo, mercuriano, de um temperamento individualista, Degas passou menos de um ano na escola de arte --foi, em grande parte, autodidata. Apesar de estar ligado à vanguarda artística de Paris --Manet era seu amigo, assim como Camille Pissarro e, mais tarde, o jovem Gauguin-- ele preferia trabalhar sozinho, testando opções, lutando com suas escolhas privadamente.

Ele se dedicou ao passado cultural: conservador, nobre, ideal. Ao mesmo tempo, foi atraído para o presente ofuscantemente espalhafatoso do século 19, onde a vida e a arte se misturavam e tudo estava em mutação. Toda sua carreira foi um esforço para reconciliar essas fidelidades.

Algumas vezes o impulso clássico foi dominante. Um desenho de uma jovem mulher, chamada Julie Burtey, na mostra de Harvard é exemplo de virtuosismo em um exercício acadêmico com uma pitada de charme. Um rascunho de sua prima napolitana Giulia Bellelli também é altamente depurado, mas muito mais formoso. Radiante como jovem adulta, a menina parece uma duquesa de avental.

Há também os outros Degas: o sociável, o turista cultural, o documentarista. Este é um artista das pistas de corrida, bares e salas de ensaio. Também é o artista que cruzou o Atlântico em 1872 para visitar Nova Orleans, cidade natal de sua mãe e onde foi visitar parentes que trabalhavam como mercadores de algodão. Ele registrou o que viu em uma série de incríveis pinturas, das quais Harvard tem duas.

Em uma delas, um homem de chapéu examina o algodão cru que cobre a mesa como um mar turbulento e leitoso. Na outra, duas mulheres fazem um dueto vocal apaixonado no que parece seu salão de visitas do Novo Mundo.

As imagens de mulheres dominam o trabalho de Degas. Elas são a presença esmagadora da mostra de Harvard e nelas convergem muitas das contradições e conflitos que tornam a arte de Degas tão intrigante e emocionante.

Até os retratos são tingidos de ambigüidade. Giulia Bellelli, por exemplo, assume uma personalidade diferente quando vista no retrato da família para o qual foi feito o desenho rascunho. O quadro tem tanta tensão psicológica quanto uma peça de Strindberg, com Giulia e sua irmã como tampões protetores entre sua mãe regiamente desdenhosa e a figura sombria de seu pai.

O teatro, real ou imaginário, é o habitat natural das mulheres de Degas. Ali elas trazem ordem à complexidade perturbadora da vida moderna por novas versões de antigos rituais. Muitas dessas mulheres são profissionais desses rituais. Um ponto alto da exibição é um pastel de uma cantora de cabaré no palco, com a boca totalmente aberta e a mão levantada com uma luva preta, como se pontuasse a nota alta.

A mesma dinâmica opera nas cenas de balé, como o magnífico "Duas dançarinas entram no palco", com suas fadas cor de rosa vestindo tutus.

O ambiente teatral como terreno transformador, onde os conflitos são resolvidos, é estendido para o estúdio de Degas, onde a performance é privada, íntima. Aí o artista fez a maior parte de seus últimos quadros de banhistas, usando toalhas e uma velha banheira de zinco como acessórios.

Aqui, o teatro foi simplificado e manteve apenas os componentes básicos, como dramas encenados na Grécia antiga. Há a figura feminina nua, em geral vista por trás como a famosa odalisca de Ingres. Ela seca o cabelo ou o corpo com a toalha. Ela se senta, à vontade, ou se estica, se contorce, possivelmente respondendo às instruções que Degas dava ao desenhar.

Esses quadros são muitas vezes chamados de voyeurísticos, mas sempre os considerei colaborações, uma parceria entre artista e modelo. São também eróticos, sem serem sexuais. Degas, que era quase certamente heterossexual, nunca se casou e, até onde sei, não teve parceiras por longos períodos. No entanto, as mulheres eram um foco constante e obsessivo em sua arte.

Ele continuou, aparentemente, contraditório e conflituoso até o final.

Mesmo assim, todas as versões simples de Degas precisam ser repensadas --o Bacana, o iMac, o misógino, o monumento. A exibição de Harvard é fascinante por si própria e apresenta mais sobre o artista do que provavelmente veremos na Costa Leste neste verão. É um lugar para começar. Em alguma parte nessa colcha de retalhos de dados produzidos sublimemente está a chave para a falha que era Degas, o anjo na máquina.

Notas da galeria:

"Degas at Harvard" permanece no Museu Arthur M. Sackler, Universidade de Harvard, Cambridge, Massachusetts até dia 27 de novembro. Obsessão pelas mulheres marca obra do contraditório pintor francês Deborah Weinberg

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