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05/08/2005

Planejamento para confundir a teoria da evolução

The New York Times
Paul Krugman

Em Nova York
NYT Image

Paul Krugman é colunista
É gostaria de indicar Irving Kristol, o ex-editor neoconservador do "The Public Interest", como o pai do "intelligent design" (projeto, planejamento inteligente). Não, ele não teve nenhum papel no desenvolvimento da doutrina. Mas ele é o pai da estratégia política por trás do movimento de inteligência superior --a estratégia que tem sido usada com grande sucesso pela direita econômica e agora tem sido adotada pela direita religiosa.

Em 1978, Kristol pediu para as corporações fazerem "contribuições filantrópicas para estudiosos e instituições que provavelmente defenderiam a preservação de um forte setor privado". Foi uma forma delicada de expressar, mas a clara implicação era que as corporações que não gostavam de uma pesquisa acadêmica, mesmo que válida, deviam apoiar pessoas dispostas a dizer algo mais do seu agrado.

Kristol liderou por exemplo, usando a "The Public Interest" para promover economia do lado da oferta, uma doutrina cuja alegação central --a de que a redução de impostos traz efeitos positivos tão milagrosos para a economia que se pagam sozinhos-- nunca foi apoiada por evidência. Ele posteriormente reconheceria, ou talvez se gabaria, de que tinha uma "postura desdenhosa para com o déficit orçamentário".

A eficácia política era a prioridade", ele escreveu em 1995, "não as deficiências contábeis do governo".

As corporações seguiram sua liderança, despejando um fluxo constante de dinheiro em centros de estudo que criaram uma espécie de universo intelectual paralelo, um mundo de "estudiosos" cujas carreiras são baseadas na defesa de uma linha ideológica, em vez de realizar pesquisa que resista à análise de seus pares.

Você poderia pensar que uma estratégia de criar dúvida sobre resultados de pesquisa inconvenientes só funcionaria em campos mais maleáveis como a economia. Mas a estratégia provou que funciona igualmente bem quando empregada contra as ciências mais rígidas.

O exemplo mais espetacular é a campanha para desacreditar a pesquisa sobre aquecimento global. Apesar do esmagador consenso científico, muitas pessoas têm a impressão de que a questão ainda não é conclusiva. Esta imprecisão reflete o trabalho assíduo de grupos de estudos conservadores, que produzem e promovem relatórios céticos que parecem pesquisa realizada por pares, mas não são. E por trás de tudo está o opulento financiamento da indústria de energia, especialmente a ExxonMobil.

Há vários motivos para a pesquisa falsa ser tão eficaz. Uma é que não cientistas às vezes encontram dificuldade para separar ciência e ideologia --se há números e gráficos, isto não a torna ciência?

Mesmo quando os repórteres sabem a diferença, as convenções do "ele disse, ela disse" do jornalismo atrapalham a transmissão de tal conhecimento para os leitores.

Eu já brinquei que, se o presidente Bush dissesse que a Terra é quadrada, as manchetes na imprensa seriam "Opiniões Divergem sobre o Formato da Terra". As manchetes sobre muitos artigos sobre a controvérsia da inteligência superior se aproximam bastante.

Finalmente, a natureza de autopoliciamento da ciência --a verdade científica é determinada pela análise dos pares, não pela opinião pública-- pode ser explorada por hábeis promotores do ressentimento cultural. Virtualmente todos os biólogos concordam que Darwin estava certo? Ora, isto apenas mostra que eles são elitistas que acham que são mais espertos que o restante de nós.

O que nos traz, finalmente, à questão da inteligência superior. Alguns dos políticos mais poderosos dos Estados Unidos têm um profundo ódio pelo darwinismo. Tom DeLay, o líder da maioria na Câmara, culpou a teoria da evolução pelo massacre da escola de Columbine.

Mas simples poder político não tem sido suficiente para inserir o criacionismo no currículo escolar. A teoria da evolução tem apoio científico esmagador, e o país não está pronto --ainda-- para ensinar doutrina religiosa nas escolas públicas.

Mas e se os criacionistas fizerem pela teoria da evolução o que os interesses corporativos fizeram pelo aquecimento global: criar uma ampla impressão de que o consenso científico possui fundações duvidosas?

Os criacionistas fracassaram quando fingiram estar engajados em ciência, não doutrinação religiosa: a "ciência da criação" era grosseira demais para enganar alguém. Mas a inteligência superior, que promove a dúvida sobre a evolução sem ser abertamente religioso, pode ter sucesso onde a ciência da criação falhou.

O que é importante lembrar é que assim como a economia do lado da oferta ou o ceticismo em relação ao aquecimento global, o planejamento inteligente não precisa atrair apoio significativo de pesquisadores de verdade para ser eficaz.

Tudo o que ele precisa é criar confusão, fazer parecer que há realmente uma controvérsia em torno da validade da teoria da evolução. Isto, juntamente com a força política da direita religiosa, pode ser suficiente para dar início a um processo que terminará banindo Darwin das salas de aula. Criacionistas querem nos convencer de que Darwin não é consenso George El Khouri Andolfato

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