UOL Notícias Internacional
 

05/08/2005

Proposta nuclear européia enfrenta recepção incerta no Irã

The New York Times
Steven R. Weisman

Em Washington
Em um primeiro teste dos novos dirigentes do Irã, negociadores europeus prepararam uma ampla proposta que oferece ao país a possibilidade de adquirir combustível e reatores nucleares e de desenvolver um relacionamento político e econômico pleno com o Ocidente. Em troca, devem pôr fim a atividades nucleares que supostamente fazem parte de um programa de armamentos, disseram diplomatas na quinta-feira (4/8).

A oferta européia, redigida com a aprovação tácita do governo Bush, deve ser enviada neste final de semana como o mais recente passo em um esforço europeu-americano para levar o Irã a abandonar sua ambição de obtenção de armas nucleares. Esse esforço deparou-se com vários obstáculos, mais recentemente com a anunciada intenção do Irã de voltar à conversão e enriquecimento do urânio, contra advertências européias.

Diplomatas que conhecem o conteúdo da oferta européia disseram que representa um amplo espectro de possibilidades de relacionamento com o Ocidente --desde o compartilhamento de tecnologia até a preferência em contratos comerciais e garantias de segurança- se Teerã cooperar em questões nucleares, de direitos humanos e no combate ao terrorismo. Eles disseram que o pacote é muito mais detalhado e específico que o do início do ano, mas não forneceram detalhes.

Há dúvidas consideráveis de que o Irã o aceitará, ao menos imediatamente, pois prometeu terminar a conversão e enriquecimento do urânio. O país insiste que o domínio do processo faz parte de sua prerrogativa, sob os termos dos acordos internacionais que governam a tecnologia nuclear.

Uma alta autoridade iraniana, disse por telefone na quinta-feira que o conteúdo da proposta parecia inferior ao desejado pelo Irã.

"Se a proposta pede ao Irã para prorrogar indefinidamente a suspensão das atividades, ou até renunciar a elas de vez, acho que vai morrer ao chegar. Não considero prudente os europeus fazerem essa apresentação, porque mostra que não mudaram sua posição de dois anos atrás", disse a autoridade, envolvida diretamente nessas questões, mas que não quis ser identificada por não ter visto o documento.

Um membro da comissão européia disse: "Nossa proposta reúne uma gama de idéias diferentes, com a intenção de criar uma estrutura para um acordo entre o Irã e o resto do mundo. Há muitos elementos políticos, econômicos e de segurança, mas o maior item é a oferta de cooperação em um programa nuclear civil para o Irã. Nunca dissemos que o país não podia ter isso."

Membros do governo Bush disseram que não podiam comentar o conteúdo da proposta, exceto dizer que houve total colaboração em sua elaboração e que os EUA não se oporiam à implementação de várias medidas que requerem aprovação de Washington.

No entanto, o governo sustenta que não pode estabelecer nenhuma relação normal com Teerã se o governo não mudar sua conduta --não simplesmente na esfera nuclear, mas também em seu suposto apoio ao terrorismo, particularmente contra Israel, e sua interferência no Iraque.

Detalhes do pacote foram revelados por diplomatas que pediram para não serem identificados, porque a proposta supostamente é secreta e seus termos não foram formalmente apresentados ao Irã.

O pacote impediria o Irã de operar um ciclo de combustível nuclear "fechado", no qual dominaria efetivamente todos os aspectos de produção e destino final do combustível. Em vez disso, de acordo com os diplomatas, a proposta sugere que o país adquira o combustível e entregue o combustível usado para outro país.

O Irã seria obrigado a prorrogar a atual suspensão da conversão do urânio para gás. A partir do gás, com o uso de centrífugas encontradas pelo país por inspetores internacionais, o urânio poderia ser enriquecido para uso como combustível nuclear. A Agência Internacional de Energia Atômica, que investiga porque o Irã não revelou muitos elementos de seu programa, vai continuar monitorando o cumprimento do acordo.

Apesar da linha dura no que diz respeito à conversão e o enriquecimento do urânio, a proposta concede ao Irã o direito de engajar-se em atividades pacíficas. De acordo com um diplomata informado, nada no acordo com o Irã afeta "os direitos inalienáveis de todas as partes de desenvolverem pesquisa, produção e uso de energia nuclear para propósitos pacíficos".

Em alguns respeitos, o Irã não deve se surpreender com as linhas gerais da proposta européia. A França, Alemanha e Reino Unido --parceiros, junto com a União Européia, nas negociações com o país-- mantiveram-se firmes em sua posição, sob pressão de Washington.

A opinião das partes, inclusive de altos assessores de Bush, é de que o Irã perdeu o direito de enriquecer o urânio, que teria como signatário do Tratado de Não-Proliferação que governa o uso de tecnologia nuclear pacífica em quase todos os países com programas nucleares civis. O país perdeu esse direito quando se descobriu que estava desenvolvendo atividades clandestinas.

A revolta do Irã quando lhe pedem para desistir de atividades permitidas a outros países é central em sua insistência em voltar a essas atividades. De fato, Teerã anunciou na semana passada que estava revogando sua promessa do ano passado de suspender essas atividades.

Por outro lado, o governo não voltou à conversão unilateralmente. Em vez disso, chamou a Agência Internacional de Energia Atômica para visitar suas instalações, romper os lacres que impediam as atividades e instalar monitores e sensores para sua supervisão.

O anúncio do Irã de suas intenções de voltar às atividades foi feito logo antes da posse, na quarta-feira, do recém eleito presidente Mahmoud Ahmadinejad, que até recentemente era prefeito de Teerã.

Acredita-se no Ocidente que o Irã decidiu tomar esse passo antes da posse de Ahmadinejad para que uma de suas primeiras decisões não fosse uma afronta aos desejos dos europeus.

Vários diplomatas disseram que foi inteligente por parte do Irã, em termos políticos, chamar a Agência Internacional de Energia Atômica para visitar suas instalações, romper os lacres e instalar sensores. Dessa forma, o governo pode alegar que está mostrando ao mundo que, enquanto continua processando o urânio, nem um grama do combustível irá para o programa de armas.

A agência internacional está demorando a instalar os sensores e monitores, para dar aos europeus tempo de terminarem sua proposta. Os europeus correram para cumprir o prazo nesta semana e sugeriram que, se o Irã rejeitá-la de pronto ou insistir no rompimento dos lacres, pedirão uma reunião da agência na próxima semana para cuidar do assunto.

A tática iraniana, disseram vários diplomatas ocidentais, parece claramente formulada para convencer os membros diretores da agência --especialmente da Rússia, China e vários outros países com programas de enriquecimento similares-- de que está agindo de boa fé e fazendo o mesmo que outros países.

Os diplomatas estão preocupados em conseguir votos suficientes na direção da agência para enviar a questão para o Conselho de Segurança da ONU, para possíveis sanções. Oferta é vista como teste das intenções do novo governo no assunto Deborah Weinberg

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