UOL Notícias Internacional
 

06/08/2005

Forças dos EUA contra-atacam no oeste do Iraque

The New York Times
Edward Wong*

Em Bagdá, Iraque
As forças armadas americanas disseram nesta sexta-feira (5/8) que iniciaram uma grande ofensiva na rebelde região de deserto do oeste do Iraque, onde pelo menos 22 marines foram mortos desde segunda-feira, em um das semanas mais mortais da guerra para os americanos.

A operação, na província de Anbar, o coração da insurreição árabe sunita, envolve uma varredura por 800 marines e cerca de 200 soldados iraquianos em cidades ao longo do corredor do Rio Eufrates, que os combatentes estrangeiros usam para entrar no Iraque.

Caças marines demoliram prédios com bombas guiadas e tanques dispararam contra os rebeldes. Na noite de sexta-feira, tropas americanas e iraquianas mataram ou feriram pelo menos 25 rebeldes e detiveram pelo menos 25 homens, disse um coronel marine.

Na cidade sagrada de Najaf, o clérigo xiita mais reverenciado do país, o grão-aiatolá Ali Al Sistani, fez pela primeira vez recomendações explícitas para a redação da nova Constituição do Iraque, restando apenas 10 dias de prazo para a Assembléia Nacional interina aprovar um esboço.

Al Sistani quer que o Islã seja "a principal fonte" da legislação, apóie a autonomia das regiões do país e apóie um sistema eleitoral que dê aos árabes sunitas mais representação no novo Parlamento, disse o primeiro-ministro Ibrahim Al Jaafari, que se reuniu com o aiatolá por várias horas.

Algumas destas posições enfrentam forte oposição de grupos políticos, e as palavras de Al Sistani podem abrir caminho para um confronto entre os líderes xiitas e outros em torno da Constituição. Os maiores grupos étnicos e religiosos do país --árabes xiitas, árabes sunitas e curdos-- estão em um impasse em torno de várias questões cruciais, particularmente a autonomia regional.

Al Sistani tem sido uma das forças propulsoras por trás do processo político do Iraque, exigindo eleições nacionais contra a vontade inicial do governo Bush e dando conselhos a líderes xiitas como Al Jaafari.

A nova ofensiva americana está centrada nas cidades de Haditha, Haqlaniya e Barwana, em uma área volátil a 225 quilômetros a noroeste de Bagdá, onde 20 marines foram mortos em duas emboscadas nesta semana.

Na quarta-feira, no segundo destes ataques, 14 marines e um intérprete civil foram mortos e um marine ficou gravemente ferido quando o transporte anfíbio deles atingiu três minas antitanque empilhadas. Os soldados estavam se deslocando para participar da atual ofensiva, disse o capitão Jeffrey S. Pool, um porta-voz da 2ª Divisão Marine.

Na segunda-feira, seis atiradores marines foram mortos em uma emboscada, também na área de Haditha, apesar de não estarem participando da ofensiva, disse o capitão. Dois outros marines foram mortos em ataques separados nesta semana em outras partes de Anbar, e três soldados morreram na quarta-feira em um bomba de estrada em Bagdá, disseram as forças armadas.

O corredor de Anbar do Rio Eufrates, onde está ocorrendo a ofensiva, provou ser uma das áreas mais traiçoeiras para os americanos ao longo da guerra. A insurreição árabe sunita conta com forte apoio lá, com muitas pessoas irritadas com a presença de tropas estrangeiras e o novo governo de árabes xiitas e curdos em Bagdá. Os comandantes americanos disseram que o corredor serve como funil para os combatentes estrangeiros que entram pela Síria, que freqüentemente realizam as missões suicidas no Iraque.

"Os terroristas estavam usando estas cidades em particular enquanto seguiam para o norte, para Mosul, e para o leste, para Bagdá", disse o coronel Bob Chase, o oficial de operações da 2ª Divisão Marine, em uma entrevista por telefone. "Nós temos indicações de que há combatentes estrangeiros nesta área. Nós vimos sudaneses, argelinos."

Nos últimos três meses, os americanos tentaram meia dúzia de ofensivas ao longo do corredor, às vezes cercando cidades inteiras e danificando virtualmente todos os edifícios dentro do perímetro. Mas em quase todos os casos parece que a maioria dos rebeldes fugiu ou se escondeu. Os americanos estavam tão preocupados com sua falta de controle que abriram recentemente uma base na cidade de Rawa, ao norte de Haditha.

Na quarta-feira, as forças armadas começaram a posicionar tropas para a atual ofensiva. Os marines e soldados iraquianos cercaram Haqlaniya na sexta-feira e começaram a se deslocar para dentro, trocando tiros com guerrilheiros.

Os marines lançaram um ataque aéreo após as forças iraquianas terem informado estarem sob fogo, disse Pool em uma declaração por escrito. As tropas lideradas pelos americanos também atacaram simultaneamente em Haditha e Barwana.

Um tanque Abrams disparou contra um prédio em Haqlaniya que estava sendo usado como abrigo por rebeldes armados, disse o capitão. Outro tanque enfrentou os guerrilheiros no sul da cidade. As tropas que entravam em Haqliniyah encontraram dois prédios com fios armados entre eles e projéteis de artilharia de 155 milímetros em seu interior, todos preparados para explodir, disse Pool.

Outro porta-voz da Corporação Marine disse na sexta-feira que 21 dos transportes de tropas, semelhantes ao que foi atacado na quarta-feira, foram destruídos durante a guerra. Desses, 12 foram destruídos por minas terrestres ou bombas de estrada, incluindo o da quarta-feira, disse o porta-voz, Austin Johnson. Os marines operam cerca de 100 destes veículos no Iraque.

Em Bagdá, atiradores mataram o guarda-costas de um poderoso clérigo xiita e membro do Parlamento, o xeque Jalaladeen Al Sagheir, enquanto o guarda-costas estava dirigindo de volta para casa, no início da noite de sexta-feira, disse um funcionário do Ministério do Interior. Durante as orações de sexta-feira, o xeque elogiou importantes aiatolás xiitas e defendeu o governo de Al Jaafari, que tem sido cada vez mais criticado por sua incapacidade de reconstruir o país ou conter a insurreição.

Desde a derrubada de Saddam Hussein em 2003, a insurreição árabe sunita tem crescido em força e sofisticação, e tem mostrado poucos sinais de abatimento. O governo Bush e o governo predominantemente xiita de Al Jaafari estão depositando suas esperanças no processo político, apostando que, ao atrair os líderes sunitas às câmaras de poder, estes persuadirão os guerrilheiros a se aquietarem.

O comparecimento de eleitores sunitas na eleição de janeiro passado foi baixa, resultando na eleição de um Parlamento dominado por xiitas e curdos. A Casa Branca pressionou o comitê constituinte original de 55 membros a adicionar 15 membros árabes sunitas e 10 conselheiros no início do verão.

Agora, os três principais grupos continuam em um impasse em várias questões constitucionais, e os principais líderes do país devem se encontrar no domingo para buscar um acordo. Antes de tal reunião, Al Jaafari visitou Al Sistani e outros clérigos xiitas em Najaf, na sexta-feira, incluindo Muqtada Al Sadr, o jovem rebelde que liderou dois levantes contra os americanos.

A recomendação de Al Sistani de que o Islã seja "a principal fonte" da legislação no Iraque provavelmente provocará discussão entre os políticos seculares, grupos de direitos das mulheres e curdos, que têm lutado por termos mais moderados. Na quarta-feira, vários autores do esboço da Constituição disseram aos repórteres que estavam inclinados a designar o Islã "uma das principais fontes", apesar do esboço anterior o considerar "a principal fonte".

O apoio do aiatolá à autonomia regional encontrará forte resistência dos sunitas, que temem que a receita de petróleo do Iraque seja dividida de forma desigual sob tal sistema. Os curdos, que têm tido ampla autonomia no norte desde 1991, têm sido os principais defensores de um governo descentralizado. Os xiitas querem uma divisão diferente de poder, apesar de Al Sistani não ter dado detalhes específicos.

O sistema eleitoral que Al Jaafari disse que Al Sistani e outros líderes xiitas estão defendendo ajudará a colocar mais árabes sunitas no novo Parlamento. O aiatolá apóia um sistema no qual cada província elegerá representantes para o Parlamento, disse Al Jaafari, o que significa que províncias árabes sunitas como Anbar terão cadeiras garantidas.

O Parlamento provavelmente terá duas casas, de forma que uma casa poderá ter uma representação proporcional à população de cada província, como na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos.

O sistema eleitoral nacional elaborado pela ONU para a votação de janeiro passado favoreceu os xiitas e curdos, cujos líderes trabalharam arduamente para mobilizar os eleitores. Os líderes árabes sunitas pediram o boicote, o que prejudicou a participação dos sunitas. Nos últimos meses, líderes sunitas disseram que se arrependeram de tal decisão e estão pedindo para que os sunitas participem do referendo da Constituição, marcado para outubro, e das eleições nacionais previstas para dezembro.

*Eric Schmitt contribuiu com reportagem em Washington; Mofeed Agha, em Bagdá; e um funcionário iraquiano do The New York Times, em Najaf. Bush pretende cooptar sunitas para reduzir a ação de insurgentes

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