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07/08/2005

Borrifando água benta sobre "O Código Da Vinci"

The New York Times
Sharon Waxman

em Los Angeles
À primeira vista, os projetos de Hollywood não são em geral mais simples do que "O Código Da Vinci", um filme que está sendo rodado na Europa neste verão, baseado no fenômeno editorial internacional escrito por Dan Brown.

Todos os ingredientes estão presentes: um livro com 36 milhões de cópias impressas, uma equipe de agraciados com o Oscar, como o roteirista Akiva Goldsman e o diretor Ron Howard ("Uma Mente Brilhante"), além de um perene ganhador da estatueta, Tom Hanks, no papel principal, como o professor de Harvard, Robert Langdon. A Sony Pictures, o estúdio responsável pelo filme, parece estar no rumo para a obtenção daquele que é o mais raro dos sucessos: um contrato de produção de filmes para adultos com uma platéia garantida e muito potencial de episódios subseqüentes.

Mas "Da Vinci", que deve ser lançado em maio, está adquirindo o contorno de um dos mais complicados exercícios cinematográficos do mundo - a ponto de a Sony ter baixado um manto de sigilo sobre o trabalho, recusando-se a discutir qualquer coisa além dos detalhes essenciais. O roteiro vem sendo rigidamente controlado. Indivíduos que não pertencem à equipe foram banidos dos locais de filmagem. E aqueles associados ao filme precisaram assinar um contrato de confidencialidade.

"Não há uma agenda oculta, e não há secretismo, já que tudo é bem conhecido", afirma Geoffrey Ammer, presidente de marketing internacional da Sony, explicando toda a discrição que cerca o projeto. "Eles têm um trabalho a fazer no que diz respeito ao filme. Foi bem mais fácil para todos se concentrar apenas nesse trabalho".

Mas os executivos e outros indivíduos vinculados ao projeto admitem que o silêncio é também um sinal da preocupação quanto à natureza potencialmente incendiária do assunto. O livro, que é uma ficção, tem como foco o dogma cristão central, alegando que Jesus teve um filho com Maria Madalena, e que esse filho deveria ter sido o seu real herdeiro. Na narrativa há a alegação de um enorme acobertamento feito pela Igreja Católica, que, segundo o livro, usurpou o lugar de Maria Madalena e privilegiou uma hierarquia masculina que suprimiu aquilo que Brown chama de "o sagrado feminino".

Mesmo antes do início da produção, o estúdio e os produtores Brian Grazer e John Calley receberam cartas de grupos como a Liga Católica e o Opus Dei expressando preocupações.

A Liga Católica pediu que Howard incluísse uma advertência de que o filme é uma obra de ficção. O Opus Dei, um grupo católico conservador, ficou especialmente preocupado com a forma como será descrito, já que é o vilão central no livro. "O livro retrata o Opus Dei de forma completamente imprecisa. Se o filme fizer o mesmo, teremos algo com o que nos preocupar", disse Brian Finerty, um porta-voz do grupo.

Funcionários do estúdio conversaram com especialistas católicos e de outras denominações cristãs a respeito de uma forma de alterar o enredo do livro para evitar ofender os devotos. Ao fazê-lo, solicitaram ao estúdio que pensasse em como fazer com que a premissa central do livro - a alegação de que Jesus teve um filho com Maria Madalena - ficasse mais ambígua, além de remover o nome do Opus Dei.

"A pergunta que me fizeram foi: 'Vocês podem fornecer-lhes algo que lhes permita modificar o roteiro, a fim de que este não ofenda a platéia cristã?'", disse Barbara Nicolosi, diretora-executiva da Act One, uma organização que orienta os cristãos a trabalharem em Hollywood. Ela diz ter sido procurada por Jonathan Bock, um especialista em marketing contratado pela Sony devido ao seu conhecimento das sensibilidades dos cristãos, e que incluiu nas discussões Amy Welborn, que publicou uma refutação de "O Código Da Vinci" chamada "Decodificando Da Vinci".

"O resultado foram três coisas: uma abordagem mais ambígua da premissa central, a remoção do Opus Dei e a correção de erros na descrição feita pelo livro de elementos religiosos na arte", explicou Nicolosi.

"Se o roteiro suavizar aquelas alegações mais fortes feitas por Brown, fazendo com que adquiram uma natureza mais teórica e percam o caráter de descrição fiel dos fatos, isso já seria um avanço", disse Welborn.

Bock não quis fazer comentários sobre o seu envolvimento na questão. Não se sabe se o roteirista, Goldsman, fez quaisquer dessas mudanças, embora o estúdio tenha indicado publicamente que a obra é um filme de ação que minimiza os temas de natureza religiosa.

Mas a modificação do roteiro de um livro adorado pelo público é algo que traz certos riscos, incluindo o de desagradar a base de potenciais expectadores formada pelos fãs do livro - aqueles milhões de pessoas em todo o mundo que devoraram a obra, fazendo dela, segundo certas alegações, o livro de maior sucesso na história, depois da Bíblia (a agente de Brown, Heidi Lange, disse que foram impressas 36 milhões de cópias de "O Código Da Vinci").

"Não há forma de retirar o ponto central do livro, que é a alegação de que Jesus se casou com Maria Madalena e que a Igreja Católica fez tudo o que estava ao seu alcance, incluindo assassinar milhões de pessoas, para esconder tal fato", explica Carl E. Olson, co-autor de "The Da Vinci Hoax: Exposing the Errors in The Da Vinci Code" (algo como "A Farsa Da Vinci: Expondo os Erros em O Código Da Vinci"), um livro que refuta "O Código Da Vinci". "Ele previu que muitos devotos ficariam ofendidos, a menos que fosse feito um filme que trouxesse apenas uma ligeira semelhança com o livro, e nesse caso haveria muitos fãs da obra de Brown irritados".

Ammer, o diretor de marketing da Sony, disse que o estúdio permanecerá fiel à fonte original. "A minha maior preocupação é consigamos fazer um filme que seja fonte de entretenimento, e que seja o mais fiel possível ao livro", afirmou. "Não estamos falando de um grupo em particular, e sim sobre a atração que o livro exerceu sobre as massas. Quando lemos um bom livro, dizemos: 'Espero que eles não arruínem o filme'".

Calley, que foi um diretor na Sony antes de se tornar produtor, disse que considera o filme "conservadoramente anticatólico", e não destrutivamente contrário à Igreja. "Vejam o livro", continuou. "Sim, há clérigos que o condenam. Mas há também os que o apóiam".

Segundo Calley, assim como o romance, o filme pode ser uma ferramenta para a discussão das origens da religião, podendo até mesmo questionar as suas suposições básicas, o que, segundo ele, é algo de bom. "Na nossa sociedade, na maioria das sociedades, crescemos com a religião que nos foi passada pelos nossos pais", diz ele. "Nunca somos verdadeiramente orientados quanto à história e às sutilezas dessa religião. O fato surpreendente com relação a esse livro é o seu caráter provocativo: Tudo isso é verdade? Não é verdade? Como um livro de história, ele é extraordinário. Como uma exploração da evolução de uma religião em particular, também é extraordinário".

Calley estava a ponto de deixar o cargo de diretor da Sony Pictures Entertainment quando fechou o acordo para a compra dos direitos sobre "O Código Da Vinci", em junho de 2003. Ele se beneficiou de uma antiga amizade com Michael Rudell, o advogado de Brown, para comprar os direitos, oferecendo uma quantia que superará os US$ 5 milhões quando o filme for lançado, segundo as pessoas envolvidas.

E, embora o livro seja classificado como obra ficcional, Brown escreveu e disse em entrevistas que a história se baseia em extensas pesquisas e fatos históricos, incluindo o livro não ficcional de 1982, Holy Blood, Holy Grail" ("O Santo Graal e a Linhagem Sagrada"), de Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, citados por Brown como sendo uma de suas fontes.

Muitos leitores estão convencidos de que "O Código Da Vinci" é, em grande parte, verdadeiro, embora envolto por passagens ficcionais. Alguns fãs fizeram peregrinações até os locais mencionados no livro, incluindo o Louvre e o Chateau de Villette, na França, e a Abadia de Westminster, na Inglaterra. A equipe de produção tem filmado em locais no Louvre e no chateau, mas a Abadia de Westminster recusou o pedido dos produtores para que filmassem no local, alegando que o livro é "teologicamente infundado".

Entre aqueles que levam as revelações de Brown a sério está Olivia Hsu Decker, corretora de imóveis e proprietária do Chateau de Villette, e que residiu no local durante as filmagens feitas em junho e julho. "Esse livro revelou a verdade que os católicos vinham escondendo por milhares de anos", disse ela em uma entrevista por telefone. "O livro é fictício, mas se baseia na realidade".

"De certa forma, o livro explica ao mundo como a Igreja Católica demonizou as mulheres, como Maria Madalena, e também como matou milhões de mulheres durante as cruzadas", acrescentou ela.

Cerca de seis livros publicados nos últimos dois anos refutaram essa alegação, e é exatamente essa atitude que fez crescer a preocupação não só entre os católicos, mas também entre militantes cristãos de outras denominações.

"Muita gente está formando a sua imagem do cristianismo e da Bíblia a partir do livro", explica Alex McFarland, porta-voz e escritor do Focus on the Family, um grupo evangélico. Ele disse que a mensagem do livro "partiu seu coração".

Ao buscar um meio-termo em meio a esse emaranhando de agendas diferentes, a Sony optou por não falar nada, pelo menos até o momento. E há sinais de que o estúdio não descartou atrair a platéia religiosa, incluindo aquela que no ano passado transformou o filme de Mel Gibson, "A Paixão de Cristo", em uma sensação internacional.

"O termo que ouvi sendo usado muitas vezes foi 'os dólares da Paixão'. Eles querem conseguir 'os dólares da Paixão' se isso for possível", explica Nicolosi, referindo-se às suas conversas sobre o filme. "Mas eles estão errados", critica. "Isso é um sacrilégio. É anti-religioso. Eles estão pensando que podem surfar na onda da 'Paixão de Cristo' com este novo filme. Eu lhes perguntei se eles estavam brincando". Danilo Fonseca

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