UOL Notícias Internacional
 

07/08/2005

Caubóis de verdade preparam-se para o rodeio

The New York Times
Guy Trebay

em Cheyenne, Wyoming
"Rodeio é o esporte favorito de Deus", gritou Dean A. Knox, caubói pregador, no último final de semana, em meio ao estrondo dos touros Brahma sendo levados para as baias, no início do rodeio de 10 dias Cheyenne Frontier Days.

Depois de 109 anos em operação, o Cheyenne Frontier Days é considerado o mais antigo rodeio em funcionamento, o maior ao ar livre e a maior celebração western do mundo. Com mais de 1.800 caubóis e cowgirls competindo pelo prêmio de US$ 1 milhão (cerca de R$ 2,4 milhões), indubitavelmente tem o maior número de competidores do esporte.

Mas, como muitas coisas em Wyoming, as alegações do Frontier Days podem ser exageradas. Será que, de fato, atrai uma multidão de meio milhão de pessoas de todo o mundo anualmente? O número parece um pouco difícil de acreditar, em uma tarde de sábado, quando cinco carros parados em um sinal na principal avenida da cidade parecem um engarrafamento.

A hipérbole é o oxigênio do caubói, e palavras exageradas aqui tendem a voar como os jatos despachados pela Base Aérea F.E. Warren, um dos principais empregadores desta capital do Wyoming. Eles sobem de forma impressionante e depois evaporam nos grandes horizontes do Oeste.

Uma coisa, porém, é certa: os caubóis estão na moda, como os próprios provavelmente serão os últimos a notar. E apesar das adaptações da moda serem liberais, para dizer o mínimo, não há como evitar a atual onda de estilo do velho Oeste. Considere as hordas de celebridades avistadas até em balneários mediterrâneos (como Beyonce Knowles, Paris Hilton ou David e Victoria Beckham em St. Tropez) que adotaram chapéus de palha, saias de vassoura, cintos largos de prata e botas Tony Lama, como se fossem coadjuvantes de John Ford. Será que alguém teria previsto que os caubóis de rodeio tornar-se-iam o novo estilo de sucesso?

Aparentemente, Tom Ford sim. Mas, pouco característico desse estilista do Texas, errou no momento, quando apresentou a coleção do caubói urbano logo antes de deixar o Gucci Group, em 2004. Por outro lado, os estilistas Dean e Dan Caten apresentaram toda sua coleção de primavera de 2006 no início deste verão em Milão em torno do tema do rodeio. O desfile foi tão comercialmente apto quanto qualquer coisa que esses dois canadenses fizeram desde que formaram uma parceria com Renzo Rosso, mago do marketing por trás do jeans Diesel.

"Alto na cela!" diziam as notas do programa do show. "É poeirento, lembra cavalos. É brim, brim, brim e mais brim!"

Diferentemente dos dois Ds, que adotam o jeans muito justo de cintura baixa que deixou a marca famosa, autênticos caubóis de rodeio usam jeans Wrangler 20X ou modelos carpinteiros modificados, de cintura alta.

No verão, eles usam chapéus de palha ou de folha de palmeira, em estilos inovados por John Batterson Stetson, chapeleiro da Filadélfia que abriu seu negócio em 1870, uma época em que andar sem chapéu era considerado estranho. (Stetson fechou sua fábrica na Filadélfia em 1972; agora é de propriedade do conglomerado texano Hicks & Muse.)

"É um caminho duro, mas o caubói aceita os trancos como homem", diz o material promocional de Catens. Apesar de as referências parecerem ligeiramente malucas --combinando um tema do interior com o jargão urbano- os gêmeos estilistas claramente acertaram em algo.

Uma das camisetas mais populares à venda no Cheyenne Frontier Days transmitia a mensagem dos dois Ds nos termos dos caubóis: Dor é Fraqueza Deixando o Corpo.

A dor é constante no rodeio, e ninguém sabe melhor disso do que os montadores de touros. Em um mundo de esportes extremos, os homens que são levados de forma assustadora a testarem sua coragem contra garanhões de 550 kg ou touros de 900 kg, na última década, passaram a ganhar bem e fazer nome.

Os peões de touros começaram a embolsar milhões, abrindo um circuito internacional que hoje envolve a América do Sul (dezenas de montadores de classe mundial são brasileiros) e até a Itália. Os genuínos homens do campo se habituaram não só aos fãs, mas ao número crescente de bichos da cidade atraídos para a atividade que tem cobertura televisiva por redes de televisão a cabo como o canal Outdoor Life Network.

Há algumas razões especiais para o renovado apelo do rodeio de touros bravos. Diferentemente dos milionários super-expostos do Circuito Halfpipe ou dos surfistas patrocinados pelas grandes corporações, que assumiram uma posição de contra-corrente no início do surfe e do skate que depois tornou-se uma piada, os montadores de touros ainda são corajosos o suficiente, malucos o suficiente e determinados o suficiente para parecerem heróicos, apesar de um pouco amalucados.

"Você tem que ser meio selvagem para fazer isso", explicou Tate Stratton, montador de touro de 20 anos, que ficou em 16º lugar no ranking mundial depois do rodeio de Cheyenne Frontier Days. Como muitos outros que praticam o esporte, Stratton foi criado em uma fazenda e começou montando os touros da casa.

Sua justificativa é tão boa quanto qualquer outra para adotar uma atividade em que, como explicou o narrador experiente Justin McKee, os competidores arriscam a vida por uma montaria de oito segundos e um prêmio que não dá nem para a gorjeta de um atleta da Liga Nacional de Futebol.

"Contratos de cinco anos? Não senhor", disse Stratton. "Você vai seguindo. Se for estilhaçado, não há nada que possa fazer."

E os peões decididamente são estilhaçados. Sonny Murphy, de Herriman, Utah, por exemplo, montou um touro destemperado, "ficou esmagado contra a grade, perdeu os dentes, teve uma orelha arrancada e trauma craniano, mas saiu dizendo que estava bem", disse McKee.

Mesmo assim, estar na arena continua sendo para os atletas "a melhor sensação do mundo", explicou Matt Austin, competidor que usa óculos que ficou entre os primeiros na turnê de rodeio profissional do verão de 2005. "Provavelmente, vou continuar nessa vida até ficar velho demais ou destruído demais e o Senhor me mandar parar."

Esse ponto pode estar próximo, já que poucos montadores profissionais passam dos 30. "Você ganha bem, mas não pode durar muito. É duro demais para o corpo", disse Clint Craig, peão de 22 anos de Mena, Arkansas.

Os críticos do esporte dizem que tampouco os animais levam uma boa vida; os ferimentos são comuns nos rodeios, apesar dos atletas humanos parecerem levar a pior.

Jeffrey Willert, por exemplo, perdeu a visão de um olho quando levou um coice na cabeça em um rodeio em Reno, Nevada, em 2003. Cord McCoy, de Tupelo, Oklahoma, recebeu um casco de touro na cabeça no ano passado.

"Fiz muita fisioterapia e logopedia e agora estou perto dos 100%. Realmente não me lembro do que esqueci", disse McCoy amigavelmente, enquanto se preparava para competir em uma área cercada para os caubóis no complexo de arenas de US$ 10 milhões (cerca de R$ 24 milhões) em Cheyenne.

Em um caso mais famoso, Lane Frost morreu competindo no Cheyenne Frontier Days, em 1989. "Você está competindo com um animal contra o qual você não tem a menor chance", explicou Craig.

A cultura dos caubóis, entretanto, envolve mais do que os 700 rodeios anuais sancionados pela Associação Profissional de Caubóis de Rodeio, como bem sabem as corporações tentando patrocinar atletas e associarem-se ao esporte. Entre os patrocinadores do Cheyenne Frontier Days estão multinacionais como McDonald's, Coca-Cola e Wal-Mart. Há quinze anos, a maior parte dos caubóis tinha dificuldade em pagar as taxas de admissão, contou um peão experiente.

Também o Cheyenne Frontier Days já se transformou em uma entidade patenteada por promotores ansiosos em capitalizar o potencial de uma celebração que já foi um evento regional discreto. A hora é boa.

Depois de uma série de invernos amenos, os investidores parecem ter descoberto o Wyoming. E, atrás deles, aposentados prósperos estão sendo responsabilizados pela expansão imobiliária na região. Não é sem razão que o Wyoming foi chamado de Flórida do Oeste.

Ainda é substancialmente um Oeste dos sonhos. Um lugar onde, como diz o poema de Arthur Chapman, "Out Where the West Begins", de 1917, "os apertos de mão são mais fortes" e "o sorriso dura mais tempo". Essa fantasia deixa pouco espaço para algumas das dimensões menos encantadoras do Wyoming (digamos o assassinato de Matthew Shepard). Mas isso não parece ser um problema para as 9.000 pessoas fazendo fila para panquecas gratuitas certa manhã.

"Aqui sentimos que estamos na América genuína", disse Joanne Hollins, enfermeira que veio de Denver.

E Hollins provavelmente está certa, se limitarmos o ideal da América a religiosos de chapéu, rainhas de rodeio com penteados exagerados, roupas de Dale Evans e grupos de cantores com nomes como Wyomingaires.

Essa versão particular dos EUA tem um sabor de uma nostalgia intensamente desejada. Reduzir o legado complexo de expansão para o Oeste a um chapéu de palha e um par de botas é provavelmente perder algo crucial. O Oeste sempre foi uma fantasia para os que não são obrigados a ganhar a vida de seus cenários maravilhosos, porém implacável. A única coisa que mudou foi o público alvo do marketing das fantasias de caubói. Deborah Weinberg

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