UOL Notícias Internacional
 

09/08/2005

GM lucra na China com van pequena e econômica

The New York Times
Keith Bradsher

Em Liuzhou, China
Neste canto obscuro do extremo sul da China, a General Motors parece ter achado uma nova fórmula de sucesso --minivans de US$ 5 mil que rodam 18 quilômetros por litro na cidade. Tal combinação tem cativado os compradores chineses, levando a GM para a liderança deste mercado automotivo nascente.

Chang W. Lee/The New York Times 
A produção da minivan na linha de montagem da GM em Liuzhou segue em ritmo frenético, em seis dias por semana
Os veículos compactos e utilitários, chamados minivans Wuling Sunshine, dificilmente se enquadrariam na imagem de maior é melhor da GM, conhecida nos Estados Unidos por produzir alguns dos maiores consumidores de combustível no mercado, como os Hummers.

As minivans da GM, que a montadora produz em uma joint venture com um parceiro chinês, têm um quarto da potência das minivans americanas, tem fraca aceleração e velocidade máxima de 130 quilômetros por hora. Os assentos têm apenas um terço da espessura dos assentos dos modelos ocidentais, mas parecem luxuosos em comparação aos carros chineses semelhantes.

O desenvolvimento delas foi liderado por um americano, Phil Murtaugh, um resoluto executivo independente natural de Ohio, que estava disposto a ir em uma direção enquanto o restante da GM estava indo em outra. Murtaugh foi capaz de criar na China o tipo de ambiente inovador que a GM há décadas tem tentado fomentar em suas operações americanas. Mas não se sabe se a GM poderá duplicar em outros lugares seus feitos na China ou mesmo se manterá o ritmo aqui.

Naquele que pode ser um sinal denunciador da cultura corporativa da GM, o sucesso de Murtaugh na China não provocou sua promoção, mas sim sua saída da empresa. A GM se recusou a discutir o assunto, mas tanto a GM quanto Murtaugh disseram que ele não foi demitido, mas que pediu demissão.

Um homem genial, de fala mansa, em uma empresa conhecida por líderes autocráticos, Murtaugh dirigiu as operações da empresa na China por mais de nove anos de sua base em Xangai, repetidamente tomando as melhores decisões na indústria. Agora ele se vê repentinamente desempregado e vivendo em uma minúscula comunidade na região rural do Estado de Kentucky.

A saída de Murtaugh, no final de março, aos 49 anos, ocorreu logo após altos executivos da empresa terem reorganizado o comando para dar mais poder aos executivos de Detroit para supervisionar projetos, engenharia e várias disciplinas de produção em todo o mundo, inclusive na China. A mudança supostamente visava permitir maior coordenação entre as crescentes operações na China e o restante dos negócios da GM.

A GM atrelou firmemente suas fortunas nos Estados Unidos às vendas dos imensos Hummers e Chevrolet Suburbans, apenas para ver o preço do petróleo atingir US$ 60 o barril e muitos americanos nervosos em pagar mais de US$ 50 para encher o tanque do carro.

Mas aqui na China, a GM de Murtaugh foi a única montadora multinacional que percebeu, no final dos anos 90, o potencial para produção de muitas minivans e picapes pequenas, baratas e de baixo consumo de combustível.

"É impressionante e estrategicamente muito inteligente", disse Michael Dunne, presidente da Automotive Resources Asia Ltd., uma firma de consultoria baseada em Pequim e Bancoc, Tailândia.

As minivans têm sido um grande sucesso, ajudando a GM a vender mais de 170 mil veículos utilitários pequenos --veículos de um tipo não vendido nos Estados Unidos-- e ultrapassar neste ano a Volkswagen em vendas, em um mercado que a montadora alemã dominou por duas décadas.

Elas ajudaram a transformar a China no maior centro de lucros automotivos da GM --diferente das perdas nas operações de manufatura nos Estados Unidos-- e seu segundo maior mercado em termos de número de veículos vendidos, atrás dos Estados Unidos.

Baixo investimento, altíssimo retorno

No importante mercado de carros maiores, não produzidos pela joint venture Wuling, Honda, Toyota e Hyundai estão se aproximando da Volkswagen e da GM.

Tal perda de terreno é uma experiência familiar para a GM nos Estados Unidos. A gigante automotiva tem fracassado repetidamente em deter sua queda de participação no mercado doméstico, que teve início nos anos 60, e tem enfrentado a humilhação de ver seus títulos reduzidos ao status de junk bonds nesta primavera.

O sucesso da GM na China mostra que a maior montadora do mundo ainda pode ocasionalmente reunir a energia e a inovação para assumir o comando de um grande mercado.

O governo chinês também encorajou uma mudança na direção de modelos mais eficientes, por meio de forte regulamentações de economia de combustível, enquanto o Congresso americano optou por mais subsídios para a produção de petróleo e um teto para os subsídios aos carros híbridos no pacote de energia sancionado pelo presidente Bush na segunda-feira.

A recompensa da GM veio na primeira metade deste ano, quando a demanda no mercado de veículos utilitários na China disparou em resposta aos altos preços da gasolina e a crescente prosperidade entre os camponeses e donos de pequenos negócios.

As vendas da GM de minivans e picapes espartanas e carros muito pequenos cresceram bem mais rapidamente que a de suas rivais, para 172.368 na primeira metade do ano, um aumento de 48,7% em comparação ao mesmo período do ano passado.

A divisão Ásia e Pacífico da GM --que representa apenas 5% das vendas mundiais da empresa-- está sendo cada vez mais dominada pelas fortunas de seus negócios na China. A divisão apresentou um ganho de US$ 176 milhões no segundo trimestre, enquanto as operações automotivas gerais da empresa perderam US$ 948 milhões devido aos altos prejuízos na América do Norte.

A fábrica daqui agora funciona dia e noite, seis dias por semana. "Quando os funcionários param para o almoço, o pessoal da manutenção entra em operação", disse Yao Zuo Ping, o chefe de produção daqui.

Murtaugh teve um papel central em 1996 no estabelecimento da principal operação da empresa na China, uma joint venture meio a meio com a Shanghai Automotive Industry Corp., ou SAIC. Em vez de seguir o habitual trajeto de carreira da GM, assumindo comandos ao redor do mundo a cada dois anos, Murtaugh se manteve no comando da operação por quase uma década.

No final dos anos 90, ele notou que milhões de pequenos empresários e camponeses ricos ainda não eram prósperos o suficiente para comprar os mais recentes modelos ocidentais, mas dispunham de economias suficientes para adquirir veículos mais espartanos, vendidos por menos de US$ 5 mil.

"Essencialmente, isto é uma cria dele", disse Stephen Small, o diretor financeiro chefe nomeado pela GM para a joint venture.

Murtaugh nunca aprendeu a falar chinês, mas ele foi fundamental para a formação da joint venture de Liuzhou, que conta com uma participação de 34% da GM, 50,1% da SAIC, e o restante da Liuzhou Wuling Automotive Co.

Sua habilidade pessoal e capacidade de explicar os métodos mais recentes de dirigir a fábrica, freqüentemente extraídos das montadoras japonesas, causaram forte impressão entre os executivos daqui, assim como suas visitas regulares.

"O próprio Murtaugh sempre prestava muita atenção às nossas instalações daqui", disse Shen Yang, presidente da joint venture e um importante executivo da fábrica por mais de uma década antes da GM ter investido aqui.

Para construir carros aqui, a GM ajudou a reformar uma antiga fábrica de tratores de forma que pudesse se tornar um modelo para a produção de automóveis na China por muitos anos.

Longas paredes brancas, levantadas em 1958 durante o Grande Salto Adiante de Mao, ainda permanecem aqui, com a pintura descascando em alguns lugares, os batentes de madeira das janelas empenados e seus vidros trincados ou quebrados. Mas no interior das paredes, se encontra uma fábrica que combina antigas e novas técnicas de gerenciamento.

O processo de montagem conta com apenas um robô, para selar os pára-brisas, e conta principalmente com funcionários que ganham US$ 60 por mês, acima da média para esta região altamente empobrecida.

Isto ocorreu após a experiência da GM em Xangai, onde a montadora instalou quatro dúzias de robôs em sua primeira linha de montagem, apenas para descobrir que eram muito mais caros e menos flexíveis do que pessoas; a segunda linha de montagem da GM ali foi construída com apenas quatro robôs.

"Baixo custo não significa apenas baixos salários, significa baixo investimento", disse Small.

Melhorando o ambiente de trabalho

A segurança dos funcionários na maioria das fábricas chinesas é péssima em comparação aos padrões ocidentais. Mas os trabalhadores da fábrica daqui usam óculos de proteção, e o equipamento tem desativação automático para impedir que os trabalhadores percam seus dedos.

Murtaugh disse em uma entrevista por telefone de sua casa, agora em Cadiz, Kentucky, que fez as sugestões de segurança no início de sua primeira visita à fábrica, em 1999. "Nós demos cerca de 20 passos dentro da instalação e eu disse para Shen Yang: "Quantas cirurgias de olhos e amputações de dedos ocorrem a cada ano?"

Antes do início da joint venture em 1999, a Wuling não tinha nem mesmo procedimentos para lidar com as sugestões dos funcionários. Agora, os funcionários dão informações extensas sobre a atuação de suas unidades e são encorajados a apresentar sugestões. A fábrica recebeu 4 mil sugestões de seus 5 mil funcionários no ano passado, e já recebeu o mesmo número de sugestões apenas nos cinco primeiros meses deste ano.

Zhou Libo, um operário de 28 anos que solda os assoalhos das minivans e trabalha aqui há 10 anos, disse que até os últimos anos, "nós produzíamos partes de baixa qualidade que precisavam ser descartadas".

A saída de Murtaugh foi amplamente vista dentro da indústria como ligada às ações da GM que limitaram sua autonomia, e não como uma demissão. No verão passado, a GM transferiu executivos de Cingapura para um escritório na mesma rua que o de Murtaugh, em Xangai, uma mudança que possibilitou uma supervisão mais próxima.

Shen, presidente da joint venture daqui, ficou visivelmente emocionado quando mencionou a partida surpresa de Murtaugh.

"Eu tenho um relacionamento muito bom com o sr. Murtaugh, ele é meu amigo, e vê-lo partir foi muito difícil para mim", disse Shen, com voz ligeiramente embargada. "Ele foi tanto um professor quanto um amigo."

Murtaugh disse que está jogando um pouco de golfe, mas que se vê com muitas horas ociosas. "Eu estou à procura de trabalho", disse ele, e então brincou: "Você tem alguma cobertura que precisa de pintura?" Executivo acertou ao adaptar produção às necessidades do público George El Khouri Andolfato

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