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09/08/2005

Koizumi convoca eleição após Parlamento rejeitar privatização do correio japonês

The New York Times
Norimitsu Onishi

Em Tóquio
O primeiro-ministro Junichiro Koizumi convocou nesta segunda-feira (8/8) uma eleição antecipada depois que membros rebeldes do seu próprio Partido Liberal Democrata na Casa Alta do Parlamento votaram contra o seu objetivo, há muito acalentado, de privatizar o serviço postal do Japão, uma instituição que inclui aquilo que equivale ao maior banco de poupança do mundo.

Koizumi pediu uma reunião de emergência do Gabinete logo após a votação, e ameaçou dissolver a Casa Baixa do Parlamento, promovendo uma eleição geral em 11 de setembro.

Segundo especialistas, a eleição equivaleria a um referendo sobre as visões antagônicas relativas ao governo japonês, e teria o potencial para remodelar o cenário político do país.

A votação de segunda-feira ressaltou as profundas divisões dentro do partido, que agora enfrenta a possibilidade real de perder na eleição do mês que vem o poder que exerce há quase meio século. Ela também deixou incerto o futuro de Koizumi, o primeiro-ministro que mais tempo ficou no poder em toda uma geração, e que tem sido um dos principais aliados do presidente Bush.

Ele há muito descreve a privatização do correio, que defende desde que supervisionou o órgão como ministro, no início da década de 90, como o principal pilar do seu plano para remodelar a estrutura política e econômica do Japão. Ao convocar uma eleição antecipada, Koizumi --que terá que deixar o cargo em setembro de 2006, segundo os limites partidários para a ocupação desse posto-- espera que um mandato popular o ajude a aprovar o projeto de lei.

"O Parlamento decidiu que não há necessidade de privatização do correio", disse um furioso Koizumi em uma entrevista coletiva à imprensa à noite. "Mas eu gostaria de perguntar ao povo japonês se realmente não há necessidade de privatizar o órgão".

O sistema postal, além de entregar correspondências, funciona como a principal instituição de poupança e seguro para as famílias japonesas. Com um patrimônio de US$ 3 trilhões, ele se constitui no maior banco de poupança do mundo. O dinheiro serviu freqüentemente para financiar esbanjadores, embora populares, projetos de obras públicas, especialmente nas áreas rurais, onde o Partido Liberal Democrata continua forte.

Segundo um plano que foi consideravelmente suavizado, Koizumi propôs separar as operações bancárias e de seguro daquelas de entrega de correspondências em 2007. A seguir, em 2017, os serviços bancários e de seguro seriam privatizados.

A rejeição da Casa Alta por uma votação de 125 a 108 ocorreu após uma semana durante a qual os líderes do Partido Liberal Democrata tentaram furiosamente conter a crescente oposição interna e dissuadir Koizumi de convocar uma eleição antecipada. Mas 22 membros, mais do que se esperava, acabaram votando contra a medida. Segundo a constituição, a Casa Alta não pode ser dissolvida pelo primeiro-ministro.

No mês passado, a Casa Baixa do Parlamento, mais poderosa, e que escolhe o primeiro-ministro, aprovou o plano com uma vantagem de apenas cinco votos.

Heizo Takenaka, o ministro encarregado da privatização do correio e da política econômica e fiscal, e que tem fiscalizado a reformulação do setor bancário, disse que a votação foi "uma grande perda para o futuro do Japão".

"A reforma postal é algo que decidirá o futuro do país: ou o Japão se move para frente rumo a um governo menor, deixando aquilo que puder para o setor privado, ou marcha rumo a um governo maior", disse Takenaka aos repórteres.

Os 270 mil funcionários do correio, espalhados por 25 mil agências em todo o país, há muito estão entre os mais leais apoiadores do Partido Liberal Democrata. Gerentes de agências rurais do correio, cujos cargos freqüentemente passam de pai para filho, atuam tradicionalmente como cabos eleitorais não oficiais do partido.

"Isso provavelmente marca o fim do velho estilo de política japonesa e o início de um novo", afirmou, em uma entrevista por telefone, Hidekazu Kawai, professor de ciência política da Universidade Chubu.

"Koizumi se comprometeu com o programa por um governo reduzido, apesar do fato de muitos dos membros do seu partido continuarem apoiando um governo grande. No passado, o Partido Liberal Democrata foi capaz de se manter unido em torno do seu desejo de permanecer no poder. Agora a política se tornou ideologicamente mais clara, e as escolhas para os eleitores mais transparentes".

Durante os seus quatro anos no cargo, Koizumi usou a sua popularidade pessoal para forçar os membros do seu próprio partido a aceitar outras mudanças impopulares, incluindo as reduções dos gastos públicos. O risco naquelas ocasiões, como agora, foi a possibilidade de o partido perder poder sem ter Koizumi na liderança, e de os seus membros aceitarem políticas impopulares, em vez de se arriscarem a perder seus cargos.

A principal legenda de oposição, o Partido Democrático, obteve ganhos em eleições recentes. Mas o destino do Partido Liberal Democrata e de Koizumi no mês que vem depende mais das lutas internas do que de desafios externos. As batalhas intrapartidárias foram responsáveis pela única ocasião em que os liberal-democratas perderam o poder --durante nove meses em 1993-- desde a criação do partido em 1955.

Assim como fizeram em 1993, os membros do partido poderiam deixar a sigla e formar um outro partido, dizem os analistas políticos. Na Casa Baixa, 51 membros do partido de Koizumi se opuseram à legislação para o correio no mês passado e se abstiveram de votar. Koizumi disse que somente aqueles que apóiam a privatização concorrerão pela legenda.

"O apoio ao Gabinete de Koizumi continua bem alto entre os eleitores", afirmou em uma entrevista por telefone Yasunori Some, professor de ciência política da Universidade Keio. "Mas ele não é capaz de resolver os problemas no seu próprio quintal. A eleição será uma grande chance para o Partido Democrático".

Santuário de Yasukuni

Outras divisões no seio do partido, relativas à política externa, se ampliaram nos últimos meses. Sob o governo de Koizumi, as relações com os Estados Unidos se tornaram extremamente fortes, mas aquelas com a China e com a Coréia do Sul pioraram.

Nos últimos dois meses, alguns líderes do partido o pressionaram para que deixasse de visitar o Santuário de Yasukuni, um memorial que contém os restos mortais de 2,5 milhões de japoneses mortos em combate, incluindo os de 14 acusados de crimes de guerra hediondos na 2ª Guerra Mundial.

Os críticos temem que as visitas repetidas a esse local, que muitos vêem como um símbolo do imperialismo japonês, prejudicarão ainda mais as relações com os vizinhos asiáticos do Japão. Outros, geralmente mais jovens, que são a favor de um Japão assertivo e aliviado da sua bagagem histórica, estão estimulando o primeiro-ministro a continuar fazendo as visitas.

Antes da sua eleição em 2001, Koizumi prometeu visitar o santuário em 15 de agosto, a data que marca o fim da 2ª Guerra Mundial. Ele ainda não o fez, embora tenha orado no santuário todos os anos em outras datas. Em uma entrevista coletiva à imprensa na segunda-feira, ele não respondeu a um jornalista que lhe perguntou se visitaria o santuário em 15 de agosto deste ano.

Embora Koizumi tenha dito que espera que o Santuário de Yasukuni não se transforme em uma questão eleitoral, e esteja tentando caracterizar a eleição do mês que vem como um referendo sobre a privatização do correio, é provável que o assunto seja trazido à tona. Katsuya Okada, líder do Partido Democrático, disse que não visitará o santuário. Premiê defende governo menor e enfrenta dissidência no partido Danilo Fonseca

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